Resenha: Massa Cinzenta de Stephen King

H. P. Lovecraft ficou famoso ao apresentar horrores inimagináveis em suas obras. Algumas de suas descrições são apavorantes ao mesmo tempo em que nos fazem querer vomitar. O próprio Cthulhu é um monstro verde, cheio de tentáculos e uma aparência completamente disforme. Mas, o que mais se destacava na prosa sobrenatural de Lovecraft era a capacidade que ele tinha de nos deixar apavorados toda vez que nos encontrávamos diante das ruínas de uma igreja, de uma cidade tomada por forças sobrenaturais ou de uma mansão mal-assombrada. Lovecraft sabia trabalhar com o medo do desconhecido. Sim, seus monstros espaciais eram horrendos, mas ele só mostrava as cartas escondidas em suas mangas no último segundo, quando tudo o mais já estivesse perdido.

Neste conto, Stephen King faz uma homenagem à prosa de Lovecraft. Sua inspiração é clara. Ele nos apresenta um bar de caminhoneiros onde um garoto entra e diz que precisa levar cervejas para seu pai. Mas, seu pai havia se tornado uma criatura estranha nos últimos tempos. Parece que ele havia sido exposto a uma cerveja que tinha um gosto estranho. E esta cerveja estragada parece que teve algum tipo de reação que mexeu com a constituição física do pobre Richie Grenadine, um trabalhador comum que gostava de tomar umas cervas enquanto assistia televisão. Mas, em nenhum momento King diz de que jeito ele foi alterado. Mais uma vez temos alguém contando sobre sua estranha experiência e a necessidade de alguns bravos homens de investigar o que estava acontecendo.

Fiquei realmente apreensivo com a história. Este conto é daqueles que você quer virar logo a página para saber o que acontece a seguir. Trata-se realmente de um conto estranho que trabalha com a nossa repulsa à medida em que a história vai evoluindo. Fazendo uma leve piada, não consegui beber cerveja por umas duas semanas por causa dessa história.

Minha única crítica à história é que o autor usa muito do expediente de contar a história. Entra um personagem em um bar/taverna/parada de caminhoneiros e conta a sua experiência horripilante aos incautos dentro do lugar. Segue-se uma série de questionamentos quanto à veracidade ou não dos eventos, alguns personagens sacanas que se mostram incréculos e tiram uma com o personagem. Isso até aparecer o protagonista que se revela, no mínimo, curioso e decide investigar o relato. Em Sombras da Noite existem 5 ou 6 histórias semelhantes. 80% dos contos deste livro são fantásticas, mas a fórmula incomoda um pouco depois de você perceber como o conto é encaminhado. Destas 5 ou 6 histórias, creio que não gostei muito do conto sobre o Bicho-Papão, mas okay, não era uma história de todo ruim.

Assim como Lovecraft, King encaminha o fechamento de sua história para um final considerado “ruim”. Não ruim de qualidade, mas um final onde os mocinhos não se dão bem e o mal vence. Mais uma clara inspiração em Lovecraft. Acho interessante este tipo de encaminhamento porque tira aquela nossa certeza de que tudo vai acabar bem no final. Massa Cinzenta parece uma daquelas histórias que contamos ao redor de uma fogueira no Halloween: interessante, sutil e assustadora.

Trabalhar com o medo do desconhecido pode ser considerado uma das marcas de Stephen King. Apesar de a prosa de Lovecraft primar por este tema, King não fica atrás. Trata-se até de um tema em que King consegue desenvolver melhor em um espaço mais contido. Quando ele expande demais a sua história como, por exemplo, em Salem, o desconhecido acaba tendo que ser revelado em algum momento da história para que ela ganhe dinamismo. Em um conto, é possível manter o desconhecido até o final. Revelar apenas quando é tarde demais para que os personagens possam se salvar.

No geral gostei dos personagens. A degradação de Richie Grenadine é muito bacana e faz uma sátira ao trabalhador americano que, no fim de semana, quer beber uma cerveja, pegar umas mulheres gostosas e assistir futebol americano. Usando esta abordagem podemos dizer que King entende esse homem comum como uma massa cinzenta e sem cérebro. Tudo o que quer é se dividir e tomar o país com sua imensa idiotice. Não seríamos todos várias destas criaturas da história?

Quanto aos demais personagens, não havia muita necessidade de desenvolvê-los completamente. Bastava fornecer elementos de conexão com Richie Grenadine para que a história pudesse funcionar. Mas, acho interessante a maneira como King consegue caracterizar mesmo os personagens mais simples. É como se o autor soubesse todas as engrenagens pela qual o homem comum americano funciona.

Massa Cinzenta é mais um conto curto que você pode ler em uma viagem de ônibus. Recomendo fortemente a leitura em mais um dos sensacionais contos do Mestre do Terror.

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Resenha: Os Três Estigmas de Palmer Eldritch de Philip K. Dick

Esta é uma obra que faz duras críticas sociais. O autor é conhecido por fornecer elementos fantásticos e de alta tecnologia para mascarar perguntas simples como: o que é realidade?, o que significa fé?

Barney está tentando encontrar seu lugar no mundo após perder a esposa por sua própria culpa. Leo busca acabar com uma possível concorrência apresentada na forma do misterioso retorno de Palmer Eldritch, um homem que foi explorar os confins da galáxia e entrou em contato com outras civilizações.

Primeiramente é bom salientar a proximidade que esta obra tem de Minority Report (filme baseado em outro conto de Philip K. Dick). O tempo todo o leitor acredita que está lidando com o real até o momento em que o autor dá uma rasteira e lhe mostra as alucinações e sonhos vividos pelos personagens. A droga Chew-Z apresenta uma realidade fluida na qual o leitor se sente inseguro sobre o que está sendo apresentado pelo autor. Frequentemente nos perguntamos durante o desenrolar da história: “Isso está acontecendo mesmo?”. Esta é a mágica de Philip K. Dick que veremos em outros livros de sua extensa produção. Aqui não é o narrador que não é confiável; é a própria ambientação apresentando a falta de confiabilidade.

Questões de fé também são discutidas ao longo da história. Em um primeiro momento os personagens tentam descobrir se Palmer Eldritch retornou como um deus. Isso dado o controle sobre a vida e a morte e a manipulação da realidade exercida por Palmer. Seriam essas qualidades divinas? Palmer Eldritch, através do Chew-Z, consegue perpetuar sua persona a todos os lugares. Barney menciona até o Gênesis, primeiro livro que compõe a Bíblia católica, ao dizer que nos tornaríamos filhos de Eldritch já que possuiríamos fragmentos de sua consciência. Seríamos moldados à imagem e semelhança de Eldritch se os seus planos tivessem êxito.

A fé também é questionada. Barney, sendo um homem prático, vê todos os seus dogmas sendo destruídos progressivamente pela influência do Chew-Z. O personagem não sabe aonde alicerçar sua noção do que é ou não real. Sua noção de ciência também é destruída pelo que Palmer manipula como real. No fim da história Barney conhece Anne que é capaz de realizar uma questão teológica usando os escritos de Paulo de Tarso, um dos apóstolos do Novo Testamento bíblico. Anne faz Barney repensar o seu lugar no mundo. Sendo interpretativo, Anne apresenta uma noção flexível do que pode ser considerado o “divino”. O “divino” é aquilo que fornece força e objetivo para nossas vidas. Não importa de que maneira nós pintemos ou mascaremos essa representação. Só precisa servir como uma influência positiva para nossas vidas.

Os personagens foram muito bem criados e são usados satisfatoriamente na história. Mesmo os colonos de Marte ou a amante de Barney cumprem um objetivo na história. Não são apenas jogados como refugo. O autor cumpre bem o objetivo proposto no início da história: fazer uma crítica social.

sta é uma obra que faz duras críticas sociais. O autor é conhecido

O fetiche das trilogias

Galerinha que segue este blog, hoje eu queria discutir um assunto deveras polêmico. E queria iniciar esta postagem com uma pergunta:

– Um livro com muitas páginas e volumes é um bom livro?

Nos últimos anos, temos sido assolados pelas obras volumosas e grandiosas que são cada vez mais frequentes em nossas livrarias. Apesar de, no Brasil, isso ser um fenômeno novo, esse tipo de livro tem décadas de existência no mercado americano. Autores como Andre Norton, Saxon Andrew, L. E. Modesitt, Robert Jordan e tantos outros publicam não só trilogias, como livros de longuíssima duração. Andre Norton tem uma série de fantasia que passa dos 40 livros. Não quero traçar uma crítica direta a isso, quero apenas fazer um exercício de raciocínio.

Livros de fantasia e ficção científica são normalmente divididos em vários volumes. Isso porque além de ter de contar uma história, os autores precisam fazer o que, em inglês, chama-se world building. Nada mais é do que a apresentação do mundo onde os personagens vivem, suas divisões políticas, tradições, cultura e povos. Sem falar no fato de ter de explicar como a física do mundo funciona: se existe magia, o autor precisa mostrar de onde ela veio, como é manuseada, se existe uma escola para treinar e como ela pode ser utilizada; se é um mundo no futuro, como esse futuro é, onde se encaixa (ou não) o planeta Terra, que raças alienígenas dividem o espaço conosco, como os homens chegaram ao espaço e como funciona a tecnologia deste mundo. Todas essas informações demandam tempo e páginas. Normalmente o primeiro livro de uma trilogia apresenta todas essas informações ao leitor. Às vezes são tantas informações que precisam ser divididas entre os vários livros que compõem a série.

Geralmente em obras com múltiplos volumes, o desenvolvimento da história se dá em um ritmo lento. Os personagens são apresentados e os hábitos mais comuns destes personagens são destacados para que nós, leitores, possamos nos importar com o que se passa com estes personagens. Desde o protagonista, passando pelos personagens de apoio e secundários e até o vilão são destacados, apresentando suas motivações e suas histórias. Lógico que, estou apresentando isso em um mundo ideal e em uma história ideal.

Existe também todo um mercado que anseia por este tipo de obras. Como podemos ver nas redes sociais, quando os primeiros livros importantes de trilogias começaram a sair no Brasil foi uma febre. Muito dessa febre podemos colocar na conta da grandiosa obra Game of Thrones que despertou no brasileiro uma vontade de consumir este tipo de obras. Não que elas nunca tivessem sido publicadas no Brasil, só eram publicadas no conta-gotas. Muitos dos mais velhos se lembram da saudosa coleção Argonauta da Editora Europa-América que foi a responsável por trazer vários autores desconhecidos ao Brasil como Robert Sheckley, E. E. Doc Smith, Frederik Pohl e tantos outros ícones da Era de Ouro da ficção científica.

Agora vamos aos pontos negativos. Uma obra extensa ou volumosa não significa uma obra monumental. É preciso destacar logo de cara que Tolkien é Tolkien e ele é inigualável. Vamos ver várias capas de livros colocando chamadas de autores que são “o próximo Tolkien”, “aquele que irá ultrapassar Tolkien”, “aquele que teria escrito Senhor dos Anéis melhor do que Tolkien”. Pretensões à parte, o que uma obra volumosa fornece ao autor é espaço. Espaço para desenvolver sua obra livremente. Nem sempre tal é verdadeiro, com muitos autores gastando muito tempo explicando detalhes que acabam sendo desnecessários ou irrelevantes para o andamento da história. Eu não preciso saber qual é a física por trás do giro de um machado de um anão na cabeça de um troll. Sim, ficarei mais inteligente no que diz respeito à física do machado, à musculatura de um anão e a biologia por trás da caixa craniana de um troll, mas nem por isso eu ansiarei por esse tipo de informação. Alguns autores gastam 10 ou 15 páginas com esse tipo de informação. Para evitar polêmicas com autores já conhecidos do público brasileiro, vou comentar sobre Peter Hamilton, um dos meus autores favoritos de ficção científica. Ele é um autor fenomenal que consegue escrever scripts extremamente audaciosos, mas gasta 15 ou 20 páginas com explicações científicas irrelevantes para o todo. Isso acaba por quebrar o ritmo de desenvolvimento da mesma.

Um outro problema são os personagens. O fato de ter muitas páginas não significa que um personagem é bem construído. Mesmo autores tem seus personagens favoritos. Por exemplo, é inegável que George R. R. Martin tem um carinho especial por Jon Snow, Arya Stark e Tyrion Lannister. Os outros personagens acabam compondo o fundo. Outros autores acabam preterindo os protagonistas em prol do desenvolvimento dos demais personagens de apoio. Um protagonista tem que ser o ponto principal da história; ele precisa ter uma história cativante e desafios à altura. Se sua história é desinteressante, acabamos não nos engajando em sua jornada. E, por mais que o universo da história seja interessante e todo o resto tenha sido explicado de forma adequada, abandonaremos o livro na primeira vez que ele nos encher. Já abandonei Pandora’a Star do Peter Hamilton umas 5 vezes. Na página 450 de 867, a história finalmente ficou interessante. Mas, levei quase 2 anos para chegar na página 450. Já na obra Limites da Fundação de Asimov levei 6 dias para devorar as quase 350 páginas do mesmo, ávido por mais daquilo que estava lendo. E estou me referindo a uma história com metade do tamanho da outra.

Trilogias são interessantes sim. Mas precisamos avaliar o quanto esta história volumosa é capaz de nos comover, de nos sensibilizar. Não é o tamanho pelo tamanho; quantidade não significa qualidade. Todas frases clichês, mas que podemos facilmente aplicar ao nosso caso aqui. Adoro pegar um livro da Robin Hobb: acabei de comprar o terceiro volume de sua trilogia e me embasbaquei com as suas quase 900 páginas. Mas, eu leio a Robin Hobb não pelo tamanho do seu livro, mas pela qualidade de sua escrita. Afinal, H. P. Lovecraft é um dos maiores escritores de terror e boa parte de suas obras não passam de 100 páginas. E seus relatos sobre Cthulhu continuam a ser lendários.

Galerinha: na hora de comprar um livro, olho no lance. Tamanho não é documento!!!!

Um olhar sobre Arrow (Primeira Temporada)

Decidi fazer essa série de resenhas sobre Arrow porque ele apresentou características muito diferentes ao longo de suas, por enquanto, três temporadas. Não é possível analisar a série como um todo porque os roteiristas acabaram por se adaptar ao longo do tempo.

Vou partir da seguinte premissa: a primeira temporada foi de regular para ruim. A série fez sucesso porque ela apresentou um produto muito diferente daquilo que tinha no mercado. Fora que os fãs de Smallville, a série que tratava dos primeiros anos da vida do Superman, estavam órfãos de alguma série sobre super-heróis.

Vou começar a falar da ambientação. Diga-se de passagem ambientação e enredo caminham muito juntos em Arrow. É inegável o fato de os roteiristas terem se baseado na trilogia do Batman produzida por Christopher Nolan. Um cenário decadente, um herói em conflito (aliás, Oliver tem muito pouco de herói na primeira temporada) e um vilão carismático na forma de Malcolm Merlyn. Até o recurso dos flashbacks, usados em Batman Begins para compor a personalidade de Bruce Wayne e apresentar como ele se tornou o Batman, foi usado  na série. Em alguns momentos, os flashbacks eram mais interessantes até do que o enredo do episódio em questão. Starling City se apresentou como um mistério a ser desvendado. Políticos corruptos, jogos de interesse e inimigos misteriosos compunham os vilões da primeira temporada.

O enredo da vingança de Oliver talvez tenha sido o ponto mais baixo dessa primeira temporada. Entendo a necessidade da construção da jornada do herói partindo da situação da vingança em direção à redenção. Mas, em muitos momentos vimos situações totalmente rocambolescas e desnecessárias. Tudo em prol do gancho para o próximo episódio. Se eu for comparar (e sendo muito malvado e pretensioso ao mesmo tempo), a primeira temporada de Arrow é parecida com a primeira de Breaking Bad. Difícil de engolir, lenta e cujas emoções se apresentam somente nos últimos episódios. A diferença? A primeira temporada de Breaking Bad teve 7 episódios… Arrow teve 23… Em Breaking Bad o episódio 1 e o 7 são muito bons… em Arrow o episódio 1 e 2 e o 22 e o 23 são muito bons. No meio? muitos fillers. Fillers demais que desestimularam muita gente.

Por outro lado, a série tem tantos fãs hoje porque soube desenvolver o protagonistas e seu elenco de apoio. Stephen Amell trouxe à tona um herói interessante e que a gente se importa. Os parceiros de Oliver Queen, Dig e Felicity Smoak se tornaram parte essencial da série. Queremos ver o que acontece com eles e torcemos e sofremos por eles. Malcolm Merlyn é construído como um vilão interessante e com uma motivação plausível. Apesar de insana, compreendemos que sua motivação vem de uma tristeza profunda no coração. Aliás, em comparação, suas motivações não são tão diferentes das de Oliver Queen.

Infelizmente existem pontos negativos no elenco de apoio. Thea Queen aparece como a irmã chata. E como a série é voltada a um público teen, o drama familiar e o triângulo (quadrado, pentágono, hexágono, decágono) amoroso é sempre presente. Não adianta chiar ou espernear porque estamos falando de uma série teen da CW. Coisa que muita gente se esquece e critica ferozmente nos blogs de seriados americanos da vida. Não curte? Abandona. A série não vai abandonar essa pegada porque é justamente ela que mantém o público-alvo colado na telinha semanalmente. A Laurel Lance é um porre? É. A Thea Queen merece uma passagem de ida sem volta para o Iraque? Com certeza (apesar de que ela melhorou e muito na terceira temporada). O par romântico de Oliver Queen é uma atriz muito sem sal. Nós não compramos o romance sofrido ou a carinha de gatinho do Shrek do Oliver querendo que ela seja feliz com o seu melhor amigo. Com tantas pretendentes mais interessantes na série, nunca torci pelo casal. Quanto à família Queen, ela era parte integrante do plot da primeira temporada. Vimos o esfacelamento da família ao longo de duas temporadas. E os momentos enjoados foram necessários; até o momento “Eu quero uma árvore de Natal” do Oliver. Fez-se necessário para a desconstrução do que significa família para o protagonista. Aliás, vimos que Oliver entende Dig e Felicity como sua verdadeira família. Dig age muitas vezes como um tutor, um professor sábio para um homem sedento de vingança.

Apesar dos vilões inócuos, vale destacar dois que se saíram muito bem: a Caçadora e o Pistoleiro. A Caçadora dava um par romântico muito bom para o personagem. Helena foi uma personagem interessante que mostrou como seria um Arqueiro Verde sem limites. Só achei que o treinamento dela foi muito rápido, mas entendi o dilema dos roteiristas. Era preciso montar essa comparação e para isso tiveram que apressar a criação da personagem. Sinto até que gostaria de ver a personagem mais vezes do que ela apareceu em toda a série até o momento. O Pistoleiro se mostrou um vilão fantástico. Um mercenário, ou seja, motivação mais simples do que essa é impossível. Ao mesmo tempo é um vilão perigoso e icônico dos quadrinhos. Trata-se até do primeiro personagem a integrar o Esquadrão Suicida que veremos em futuras temporadas. A ligação do Pistoleiro com o Dig deu mais profundidade a este personagem e uma motivação.

Mas, para mim, o que mais me chamou a atenção foi Slade Wilson. Desde o primeiro episódio o ator roubou a cena. Foi sim o professor de Oliver. Ensinou-o a ser um homem e a se responsabilizar por suas ações. A transformação do personagem é lenta e progressiva e vemos sendo construída uma forte ligação de amizade e cumplicidade entre os personagens. Vamos dizer que mal vi a hora do Exterminador aparecer fora dos flashbacks de Oliver. Demorou mais de uma temporada, mas apareceu. Os roteiristas foram geniais ao criarem um personagem que se tornou icônico para a série, fora a importância que ele tem para os quadrinhos.

Enfim, a primeira temporada é passível de críticas e muito. Teve muitos altos e baixos, mais baixos do que altos. Mas, Arrow é o tipo da série que é preciso sofrer um pouco para colher a bonança. E ela veio na forma da segunda temporada que discutiremos em outro momento.

Resenha: Carrie de Stephen King

Quantos de nós já sofreram bullying? Quantos de nós já praticaram bullying? É um tema absolutamente corriqueiro em nossas escolas. Aqueles que sofrem bullying, seja fisicamente, seja psicologicamente, desejam se vingar de seus agressores. O que, no início, começa como uma brincadeira, acaba se tornando um jogo de agressor e vítima onde o agressor se sente superior à sua vítima. Mesmo que essa superioridade venha de um ato de violência. Às vezes essa necessidade é proveniente de uma vida medíocre e que necessita de um ponto alto. Outras vezes é para ter uma desforra por abusos cometidos dentro de sua própria casa.

Carrie foi o primeiro romance de Stephen King a ser publicado por uma editora. E que começo para o mestre do horror! Uma obra que parece não envelhecer com o passar do tempo. Não à toa já tiveram três adaptações para o cinema. Das 3 só vi duas, sendo que a versão de 2001 foi a que eu mais gostei. A de 2013 ainda está na minha lista de o que ser visto nas férias. Por ser o primeiro romance, o livro apresenta características muito diferentes de outras histórias de King. Não tem aquele terror visceral, ou os elementos gore ou os vilões repulsivos. Aliás, King escreve no prefácio que escrever sobre adolescentes é assustador. Imagino como o high school americano (equivalente ao nosso ensino médio) possa ser assustador. Vários filmes fazem referência a essa como uma fase complicada na vida do jovem norte-americano. Essas referências ora geram filmes de terror, suspenses ou comédias.

Talvez o que faça Carrie ser tão icônico é o fato de tratar de pessoas comuns. Se tirarmos os poderes paranormais de Carrie White, todo o resto poderia ser encaixado em qualquer escola e em qualquer parte do mundo. É em Carrie que vemos a habilidade de King em puxar os elementos positivos e negativos que fazem do ser humano, um ser falho. E King quebra com os estereótipos típicos das histórias de high school. Susan Snell, a boa menina, aquela que ajuda, a responsável, também integra o grupo de agressoras de Carrie. Ela se arrepende posteriormente, mas suas ações são apenas para limpar a consciência. Seu namorado seria o típico jogador de football, forte, musculoso e mulherengo. Só que King o transforma justamente no oposto: um cara bacana e responsável que acaba compreendendo a situação vivida por Carrie.

A história é construído em estilo epistolar. Já havia comentado isso quando resenhei Drácula. Trata-se de uma história contada a partir de cartas, relatórios e notas de diário que nos ajudam a criar o último mês vivido por Carrie. King tenta criar uma atmosfera investigativa ao criar uma comissão para buscar os detalhes dos poderes emanados por Carrie. Até insinua a existência de outras pessoas como ela. Não sei se King volta no tema ou até se podemos considerar Danny Torrance de O Iluminado outras pessoa como Carrie. Faltam elementos para construir uma ligação entre as duas histórias, se é que existe uma.

A construção da mãe de Carrie mostra o talento que King tem ao apresentar indivíduos fundamentalistas lunáticos (Revival, o novo romance de King toca justamente nisso). Margaret é o extremo do fundamentalismo: muito recatada, disciplinadora. É o protótipo da solteirona sulista que frequenta a igreja aos domingos. Ao construir um lar repressor, King mostra que Carrie não tem só um ambiente agressivo na escola, como também em casa. E, principalmente, que todo ser humano tem um ponto de ruptura. Quando Carrie não tinha esperanças de que sua vida melhoraria, ela aceitava seu bullying. A esperança de algo melhor e de ver essa esperança cair por terra foi o ponto de ruptura. Ao não ter suporte da própria mãe que a considerava um demônio, Carrie se vê abandonada. Seu único consolo eram seus poderes telecinéticos. E aí King mostra sua genialidade: Carrie de vítima passa a agressora. Usa seus poderes para demonstrar uma superioridade e poder se vingar por tudo aquilo que sofreu. Porém, tudo isso provem de uma educação repressora e cuja mãe, muito religiosa, considerava sua filha a enviada do demônio.

Podemos destacar outros personagens como Chris Hargensen e Billy Nolan. Chris é a típica garota mimada e rica. King gosta de construir esses personagens fortes e emblemáticos. As cenas de sexo entre Chris e Billy servem para mostrar o tipo de mulher agressiva e manipuladora que ela é. É o estereótipo da vixen, da ninfa que atrai os homens com seus atributos. Para provar o seu poder dentro daquele pequeno universo que é o high school, ela precisa pisar nas mais fracas. É como se fosse a demonstração de uma cadeira alimentar em que ela formava o topo e todas abaixo dela buscassem tomar o seu lugar.

Carrie é um romance fantástico. Completamente atemporal. Como primeiro trabalho de um autor prolífico como Stephen King é a demonstração máxima de para o que ele veio. Mas, ao colocarmos frente a outras obras, vocês verão várias diferenças na escrita e na apresentação dos personagens. Mesmo assim, vale muito a pena a leitura.

Análise de séries: Penny Dreadful (primeira temporada)

Esta foi uma das surpresas de 2014, na minha opinião. Uma surpresa extremamente agradável, por sinal. A série caiu em um bom canal, a HBO, que não apenas oferece uma boa verba para a produção das séries como oferece liberdade criativa. A divulgação da série foi muito boa, sendo que em várias praças internacionais a divulgação foi feita. A HBO Brasil colocou uma série de outdoors em varias capitais brasileiras. Mesmo a série possuindo um tema meio obscuro (diante de outras séries que basta ler o título já são sucesso garantido), a divulgação forneceu uma boa aposta para que os telespectadores vissem ao menos o primeiro episódio.

O piloto foi muito bem construído. Apresentou bem o universo e os personagens e marcou o tom da série pelos próximos sete episódios. Penny dreadfuls eram pequenas histórias que antecederam os pulps e possuíam o mesmo propósito: histórias de terror que podiam ser compradas a um preço mais acessível. A série embarca nesse universo do terror e do sobrenatural para apresentar vários plots que tentam ser resolvidos ao longo da primeira temporada. Vanessa Ives é uma mulher misteriosa que possui o dom da leitura de cartas para prever um futuro próximo. Sua sensibilidade a torna suscetível a possessões de espíritos malignos. Vanessa possui uma estranha conexão com Sir Malcolm. Este é um lendário caçador e explorador que se aventurou algumas vezes pelas selvas africanas. Retornou a Londres para procurar sua filha, Mina, que caiu nas garras de uma poderosa criatura sobrenatural. Sir Malcolm abriga Vanessa em sua casa. Victor Frankenstein trabalha no necrotério de Londres. Sua extrema habilidade e genialidade em lidar com os mortos atrai a atenção de Sir Malcolm que vê nas habilidades forenses de Victor uma possível arma contra as forças ocultas. Mas, Victor é um cientista que busca desvendar os mistérios do controle sobre a degeneração celular. Almeja ainda ser capaz de trazer a vida de volta àqueles que morreram através das pesquisas sobre a galvanização. Porém, um erro mortal em sua pesquisa o persegue até os confins do mundo. Ethan é um artista de circo; um americano que atua em shows de tiro ao alvo até que é abordado por Sir Malcolm e Vanessa para ajudá-los em sua missão. É aí que Ethan será tragado para um mundo cruel e obscuro. Sua única luz será o envolvimento com Broena, uma jovem prostituta que ele conhece nas docas e que está acometida por tuberculose.

As histórias são várias. Se formos analisar friamente, a série irá frequentemente cair em alguns episódios ao ter que lidar com vários plots simultaneamente. O aparecimento de Dorian Grey na metade da temporada fornece mais plots a serem resolvidos. A série sofre de ter os dois primeiros episódios muito bons e os dois últimos variando do bom para o muito bom. Os episódios do meio tem uma qualidade duvidosa. Isso é uma tônica na maioria das séries americanas. Mesmo tendo um bom enredo, a constância pode fazer uma série derrapar. Isso porque os telespectadores precisam ter um motivo para ver o episódio da semana seguinte. Se o episódio que eu vejo é maçante, minha empolgação diminui. E em uma sequência de episódios ruins a tendência é sempre a de abandonar a mesma por algum outro programa mais interessante. Às vezes o telespectador volta; às vezes não.

O elenco é fenomenal. Timothy Dalton continua um ator fantástico. Sua interpretação de um personagens cujas motivações são dúbias é fantástica. Sir Malcolm não é um herói. Aliás, em uma conversa com Ethan ele diz que o grupo que ele estava formando era composto por monstros na forma de homens. Isso é totalmente verdade. Algumas de suas ações são dignas de um Drácula. Eva Green está maravilhosa. As cenas de suas possessões são assustadoras. Ela muda as feições e o tom de voz e nós realmente acreditamos que ela está possuída. Aliás, Vanessa Ives é uma personagem dificílima de ser feita. No episódio que conta a ligação entre Vanessa e Mina, pudemos ver o quanto a personagem passou por poucas e boas. E a Eva Green apresenta muito bem sua personagem atormentada. Alguns diálogos que ela tem com Dorian Grey mostram o esforço da atriz de passar essa imagem de uma flor delicada, porém obscura.

Harry Treadaway interpreta Victor Frankenstein cujo plot é o mais interessante desta primeira temporada. As interações entre ele e a criatura são bem fundamentadas e dá aquela noção dúbia de quem é o bom e quem é o mal na história. A criatura é um ser muito educado e delicado cuja concepção por seu criador o faz tentar ver o bem nas pessoas, mas só recebe e percebe o que há de pior. Todos o julgam pela sua aparência monstruosa e não percebem o ser belo no fundo de seu coração. Por outro lado, existe uma criatura vil e vingativa que não é capaz de conter os seus sentimentos de angústia. E Victor, seu criador, torna-se o objeto máximo de sua vingança e, quem sabe, o fim de sua miserável vida. O ator passa muito bem a noção de que ele quer ser um deus e quer ser capaz de manipular a vida e a morte. A frieza mecânica de seu caráter é mais monstruoso do que a própria Criatura. Achei desnecessário forçar uma ligação de seu plot com o enredo central da primeira temporada.

O protagonista, interpretado por Josh Harnett, é o menos interessante do grupo. Sua interpretação não é ruim. Mas, a história dele com Broena não me convenceu de nada. Muito pelo contrário: eu queria que a Billie Piper morresse logo ou virasse vampira para dar uma esquentada na história. Ela morreu, logo, um alívio. Porém, o episódio em que ele interagiu com Dorian Grey foi muito interessante. Parecia a relação entre um pai e um filho, com elementos sexuais no meio. Reeve Carney captou bem a essência do imortal: curioso, mas que perde a utilidade rapidamente nas coisas. Seus olhos transparecem aquela noção de alguém que viveu por muito tempo. Ele enxerga as pessoas como brinquedos e sua própria fala passa essa sensação.

Enfim, Penny Dreadful é uma excelente série. A qualidade da ambientação, o elenco estelar e a trilha sonora super competente mostram aquela qualidade HBO que estamos acostumados a ver. Foi renovada para uma segunda temporada da qual aguardo ansiosamente.

Um olhar sobre Ressurrection

Já fazia algum tempo que eu não comentava sobre séries. Não gosto de eu fazer reviews semanais sobre séries. Prefiro comentá-las em uma abordagem mais macro. Ou seja, prefiro abordar a temporada inteira, destacando pontos fortes e fracos da mesma. Se os leitores quiserem reviews semanais, recomendo excelentes sites sobre séries como o Seriemaniacos ou o Viciados em Séries.

Eu gosto de Ressurrection. Mas, admito ser muito difícil ver a série algumas vezes. Concordo com muitos críticos que destacam a sonolência e a morosidade da série. Ela é assim… e, tenho uma má notícia a vocês: ela não vai mudar. Essa é a característica-base da série. Acho que a ABC não é o melhor canal para ela ser transmitida. Se encaixaria melhor em um Showtime, uma HBO ou uma AMC onde índices de audiência não são o principal. E acredito piamente que a série não chegará a uma terceira temporada dada a ausência de um público mais cativo.

Ainda não li o livro de onde a série se baseou. Para quem se interessar, esta é a tradução feita pela Editora Verus.

A série começa com o menino Jacob acordando em um descampado na China. Ele é deportado e o detetive Bellamy do Departamento de Imigração se encarrega de levar o menino até os seus pais na pacata cidade de Arcádia. Quando ele encontra a família descobre que o menino morreu a 27 anos atrás afogado. Suas investigações sobre o estranho fenômeno levam com que ele fique na cidade. Com o passar do tempo outros “Retornados”, como eles passam a ser chamados, chegam à Arcádia. Alguns mortos recentes e alguns do início do século. E aí a trama se complica.

Jason Mott escreve uma história introspectiva. Não se trata aqui de zumbis devoradores de gente ou de mortos-vivos apossados pelo demônio que nos levam à perdição ou encaminham o apocalipse. Ressurrection é uma história sobre pessoas e sobre o significado da vida. É uma bela história. As interações entre os pais de Jacob e o menino são tocantes. O policial Rudy, com toda a sua truculência, mas o seu bom coração, mostram esse lado sensível da história. O agente Bellamy funciona como nós na história. É o nosso ponto de vista diante de acontecimentos tão assustadores.

Os questionamentos sobre Deus e o nosso papel nesse mundo são dignos de uma boa história de Stephen King. Aliás, a multidão violenta na Igreja no episódio 6 da primeira temporada me lembrou bastante Sob a Redoma. Os personagens tem sua fé questionada, já que aprenderam a viver de uma forma e, de repente, leis que pareciam inquebráveis, são rompidas. Mott nos coloca diante do medo do desconhecido, aquele terrível medo que nos faz tomar atitudes reprováveis. A cena do homem torturando a retornada grávida na cabana de caçador nos ilustra isso. Os amigos deles questionam as ações do homem, dizendo que ele estaria cometendo assassinato. Ele se vira e responde que aquilo não era um ser humano.

Desumanizar alguém é algo muito forte. Parece que voltaram a tocar no mesmo tema nesta atual temporada. O surgimento de uma facção de “cidadãos preocupados” faz com que acreditemos que a violência escale ao longo da temporada. Entretanto, a série não é violenta. Insisto que a série é introspectiva. A própria trilha sonora (sonolenta…) causa esse efeito no telespectador.

Os personagens são bacanas na série. Gosto da família do menino Jacob, gosto das interações entre Rudy e Maggie, gosto até do pastor e sua mulher bipolar. O Omar Epps, ator que interpreta o detetive Bellamy, continua com os mesmos problemas de quando ele participava da série do House. O personagem é interessante e até deram um arco de desenvolvimento para ele. Mas, sua interpretação continua sendo péssima. Não me importo com ele e não tenho a menor pena de ele morrer no fim do seriado. Pode ver a luz, filho…

Se o nosso ponto de entrada na série é um ator que não consegue fazer a curiosidade surgir em nós, como a série se sustenta? Mesmo a vovó Margaret sendo uma personagem interessante e dando aquela pitada de mistério na série, o protagonista tem que ser uma pessoa que sustente a série. Seja um cara que se atire de prédio em prédio, um superdetetive forense, um médico mal-humorado, um vampiro com crise de identidade ou um velocista, o protagonista é a nossa referência. E o elenco de apoio da série não é tão sólido assim para sustentar a série por si só.

Outra reclamação pertinente é que alguns personagens desaparecem por alguns episódios e retornam meio por mágica. Assim foi com o Ray e depois com o Carl, que tiveram seus arcos interessantes e de construção dos mesmos para ficarem desaparecidos. Carl desapareceu por uns 3 episódios… Ray foi um caso mais grave: 8 episódios. O que eles estavam fazendo? O que comiam? Quem eram? Qual o seu habitat natural? Eu estou brincando, mas em uma série sobre pessoas, estas não podem desaparecer e reaparecer inexplicavelmente. Mesmo que eles apenas estejam no fundo acenando, ou dando bom dia ou dizendo ok, eles precisam aparecer de certa forma. Em um livro, a gente consegue esconder esse tipo de situações; em uma série televisiva, isso não passa desapercebido.

Ainda assim, todas as semanas venho para o meu doce pecado de assistir Ressurrection. Sempre torcendo para que a série melhore de qualidade e que eu possa ao menos ver o desfecho da mesma.

Por que reler um livro?

Nos últimos tempos vivemos em uma sociedade dinâmica. A vida passa em segundos. Contamos os minutos para realizar nossas tarefas. Aliás, somos avaliados sobre como somos eficientes ao utilizar satisfatoriamente o tempo que dispomos diariamente. É a filosofia do “Tempo é Dinheiro” que domina o mundo. A leitura é uma atividade que geralmente realizamos nos nossos parcos momentos de lazer. Não estou incluindo aqui a leitura para estudo ou a leitura para trabalho. Ler um bom livro compõe os nossos momentos no ônibus ou durante um engarrafamento.

Diante de um mercado editorial repleto de lançamentos todos os meses, raramente fazemos uma releitura. Isso porque o novo habita o âmago do nosso ser: consumir o novo que está ali à nossa espera. É o que algumas pessoas chamam de “fixação pelo novo” ou “febre do novo”. Salvo aqueles que possuem muita velocidade de leitura, poucos são aqueles que conseguem acompanhar a febre do novo.

E aí retorno para a minha pergunta: por que reler um livro? Rebato essa pergunta com outra: será que lemos um livro tão bem assim? Será que as possibilidades de uma dita obra estão completamente esgotadas ao terminarmos sua leitura? Não digo que devemos reler dez vezes todos os livros que temos em nossa estante até porque não somos eternos. O que eu quero dizer é que muitas vezes ao lermos rápido não conseguimos captar o que o autor quer dizer em sua obra. Muitas vezes descartamos ou desconsideramos uma obra porque não conseguimos atravessar o mundo apresentado pelo autor. Não conseguimos entender os meandros do seu pensamento. Às vezes com a releitura podemos tentar entender melhor aquilo que está sendo dito.

Mas, a releitura é um processo diferente de uma leitura. Se lemos na correria do dia-a-dia, a releitura não pode ser feita da mesma forma. Ela precisa ser calma, ponderada e metódica. Se sentimos dificuldade na primeira vez, utilizar o mesmo procedimento em uma segunda vez é repetir o erro. Uma releitura é lenta por natureza. Porque iremos esbarrar nos obstáculos e cabe ao leitor tentar atravessar esse obstáculo por si só. Se ele é intransponível, aí é algo que incorrerá em uma nova releitura em algum momento no futuro.

Geralmente eu releio obras muito tempo depois. Normalmente levo meses ou até anos até pegar em um livro que tenha me gerado dúvidas ou tenha me desagradado por algum motivo. Assim como em todas as atividades da vida, ler é uma habilidade que pode ser aprimorada. E ela nos fornece bagagem que levamos para outras leituras. Dessa forma, um leitor que iniciou sua atividade aos 15 anos será um leitor diferente aos 17 anos. Toda a experiência de leituras é levada para novas obras, seja de forma analítica ou de forma comparativa. O que quero dizer com isso? Oras, é óbvio que iremos traçar comparativos. Esse livro é melhor do que aquele; esta história teve um final mais maneiro do que a outra. Traçamos comparativos o tempo todo.

Às vezes até certos mecanismos literários ou plot twists serão recorrentes. Reconheceremos estes mecanismos em outras histórias. Isso é comum porque os autores tiram suas inspirações de algum lugar. É inevitável que um autor diga que seus ídolos são um Tolkien, um Gabriel Garcia Marquez, um Vladimir Nabokov ou um Stephen King. Toda inspiração é construída a partir de um conjunto de ideias que se concatenam para produzir um universo. E quanto mais lemos, mais vamos nos acostumando com esses “vícios” (entendam vícios como algo positivo) literários. Não é possível escapar disso.

Outra razão para fazermos uma releitura é simplesmente pelo nível de beleza de certas obras literárias. Eu adoro Tolkien. Assim como muitos leitores de fantasia. Sua escrita é uma obra de arte. E uma obra de arte pode ser vista de mil maneiras diferentes, despertando todo um universo de reações diferentes. Ler uma obra destas é sempre algo prazeroso. Não importa se eu estou vendo a Sociedade do Anel chegar a Lórien pela centésima vez. Eu vou sempre me emocionar e me divertir com as aventuras de Frodo. Ou de ver as interações entre Bilbo e Gandalf em o Hobbit.

Estou citando Tolkien, mas isso pode ser aplicado a várias obras clássicas. Aliás, um clássico para mim pode não ser um clássico para você, meu caro leitor. Para mim, uma obra maravilhosa pode ser uma chatice. É tudo questão de ponto de vista.

O meu objetivo com esta postagem é incentivar a todos que possamos gastar uma hora de nossas vidas para desligar o botão do dinamismo e apertarmos o botão do ócio criativo. Sair um pouco desta auto-estrada que é o mundo globalizado. Relermos livros maravilhosos e nos regozijarmos de termos feito tal coisa. Podermos comentar com outros colegas leitores o quão bacana foi redescobrir um livro que você considerava chato a até poucas semanas atrás.

Afinal, ler nunca é demais. Reler então é magnífico.

Resenha: Count Zero de William Gibson

Admito que tenho problemas com William Gibson. A minha resenha sobre Neuromancer gerou muita polêmica entre meus colegas que argumentaram que eu não entendia a importância de sua contribuição. Entendo perfeitamente este ponto. Acho que o Gibson foi importante ao estabelecer um novo tipo de histórias baseadas em um futuro não tão distante. Suas histórias sempre possuem um teor de crítica social. Mas, não podemos confundir inovação com uma história mediana.

Em Reconhecimento de Padrões já foi possível perceber uma evolução na maneira de conceber os personagens. Afinal, de nada adianta eu ter um mundo ricamente formulado se os meus personagens não são capazes de entregar uma boa história. Mas, Reconhecimento de Padrões tem vários anos de diferença em relação a Neuromancer.

Count Zero é o segundo volume da Trilogia Sprawl. Neste volume, Gibson expande um pouco mais o mundo concebido em Neuromancer. Nos apresenta novos personagens enquanto faz referências a alguns antigos. Achei um ponto muito positivo neste livro. O mundo cresce bastante ao mesmo tempo em que vemos personagens conhecidos como o Finlandês. Os conflitos entre corporações são ampliados ao aparecer um sucessor pelo vácuo deixado pela Tessier-Ashpool.

Na história, Bobby Newman teste um novo tipo de software que permitiria quebrar até mesmo firewalls poderosos de grandes corporações. Mas, algo dá errado e ele quase morre. Só que aparece uma estranha presença que salva Bobby Newman de sua inevitável morte. Ao mesmo tempo, Conroy está em uma missão para salvar a filha de seu chefe quando é traído pelo seu parceiro Turner. E, no meio de tudo isso Marly Krushkova está para se encontrar com Josef Virek, um estranho empresário que a envia em uma missão para buscar um biosoft, um novo tipo de software que mescla espiritualidade e tecnologia.

Mais uma vez são as personagens femininas quem dão as rédeas da história. Marly é responsável pelos momentos mais interessantes do livro. Sua investigação sobre Virek e a sua ida até o antigo satélite da Tessier são os momentos que empolgam na história. Já a parte de Bobby me incomoda um pouco. Entendo que ele é o protagonista e seus capítulos englobam boa parte da mitologia por trás do enredo no livro. Vou discutir essa mescla de espiritualidade e tecnologia mais abaixo. O que me incomoda novamente é a passividade do personagem diante da história. Mesmo protagonistas fracos em outras histórias, eles acabam fazendo a história seguir ao se deparar com um obstáculo. Geralmente, alguma coisa acontece: ou o protagonista atravessa o obstáculo ou ele cai ou desiste. Em Count Zero, Bobby Newman não faz nada dessas coisas. A história é que parece empurrá-lo adiante de alguma forma; ou seja, não é personagem que faz a história seguir, mas a história que faz seguir o personagem. É difícil explicar adequadamente. Vamos dizer que o personagem não toma nenhuma decisão, não realiza nenhuma escolha durante a história. Mesmo quando ele se vê diante de uma decisão difícil que afeta todo o seu grupo, ele não diz sim ou não, mas a força externa que o auxilia é quem diz sim.

Os biosofts são muito interessantes na história. E o autor escolhe a mitologia haitiana para mesclar com os conflitos entre corporações. As interações com Papa Legba são muito bacanas. Talvez isto tenha levantado um pouco mais a minha análise da história. E o fato de Marly ter me lembrado muito outro personagem do Gibson: Cayce Pollard de Reconhecimento de Padrões que é a minha favorita de suas histórias (Molly é uma personagem muito interessante, mas Cayce foi melhor construída). O autor tem alguns posicionamentos sobre espiritualidade que vale a pena ser observados. Prefiro deixar no ar para que os leitores possam apreciar melhor.

O tema comum em Neuromancer e Count Zero é a crítica ao individualismo. Neste mundo corporativo, as pessoas vivem em seus cômodos afastados umas das outras. Habitam cubículos, acessam seus chips para entrar na rede e se comunicam pouco umas com as outras. É um mundo decadente em que cada indivíduo desconfia do outro. Por desconfiar, não quer estabelecer relações com os outros. No fim da história, apenas a união entre os diversos grupos atuantes é capaz de derrotar os antagonistas da história. Um momento onde cada um empresta sua habilidade para formar um grupo coeso. Tudo em prol de um objetivo comum. Em Count Zero, Gibson trabalha com o individualismo, mas diferente do primeiro livro, ele mostra como é importante a união das pessoas.

Enfim, recomendo a leitura. Count Zero tem uma pegada diferente de Neuromancer. As benditas referências pop continuam presentes, mas incomodam menos do que no primeiro livro. A gente sente que elas fazem parte integrante do mundo em questão, e não são apenas flavor. Ou seja, não são apenas a cerejinha por cima do bolo. Existe um objetivo para a sua presença ali; algo importante para o andamento da história. Count Zero tem um bom clima, personagens interessantes (esqueçam Bobby Newman, foquem-se nos outros personagens) e dá uma boa continuidade na história.

Resenha: O ressalto de Stephen King

O que é o medo? Temos medo do que desconhecemos ou de o que não podemos enfrentar? Nem sempre o medo vem travestido de um monstro terrível com garras e chifres, mas como uma pessoa igual a cada um de nós. Pode ser eu, você, seu vizinho, seu melhor amigo. Não importa. A verdade é que nunca sabemos tudo sobre a personalidade de uma pessoa. Existe sempre aquele pequeno lado obscuro que existe no fundo de nossos corações. Quando desejamos pegar o banco ao lado da janela no ônibus e uma pessoa se senta lá, desejamos que ela saia dali a qualquer custo; quando chegamos ao banco e vemos uma longa fila, desejamos que um raio caia na cabeça de todos; ou quando estamos em um engarrafamento e desejamos passar por cima de todos.

Esse conto é uma história de vingança. Não existem forças demoníacas ou fantasmas nessa história. São apenas dois homens, sendo que um deles quer destruir com o maldito sujeito que pegou sua mulher. Mas, antes ele quer se divertir um pouquinho. E, para isso, ele atrai o sujeito até o seu apartamento e lhe faz uma proposta simples: se ele conseguir der a volta no prédio se equilibrando no ressalto do edifício, ele pode fugir com a mulher e 20.000 dólares. Não existe uma pegadinha (ou será que existe?); apenas deve dar a volta pelo ressalto. E a partir daí temos as horas mais angustiantes de uma história de ficção.

A ambientação é simples e não precisa ser muito desenvolvida. As motivações dos personagens também são simples. Algumas partes da história nos deixam tensos: a parte em que o pombo começa a bicar as pernas do protagonista é o momento gore do conto. King tinha que incluir um momento desses, hein? Dá agonia ver a descrição do maldito pombo. Essa é uma daquelas cenas igual àquela em que um gancho é passada no quadro-negro. Só de imaginar já nos deixa nervosos. Não vou dar spoilers já que a história é pequena, mas ela vale muito a pena.

Mais uma vez, King se mostra um mestre em traçar perfis totalmente verossímeis de pessoas. Talvez o que nos amedronte no conte é a total e completa ausência de um terror sobrenatural. Não há nada disso; tudo é real. O antagonista é só um criminoso filho da mãe que você poderia cruzar em qualquer lugar. Talvez um marido agressivo que não dava atenção devida à sua esposa. Ou aquele cara sacana que fica no bar fumando um cigarro e xingando a esposa, mas não quer que ela o traia de jeito nenhum.

Outro ponto que vale destacar é que o protagonista também não é o protótipo de mocinho (ou de herói). É só um professor de golfe que traçou a mulher do cara cheio da grana. Nem se deu conta de quem era o marido; apenas aproveitou a oportunidade de pegar uma mulher. No fim da história, ele também toma decisões questionáveis para aquilo que acreditamos ser o protótipo de um herói. Achei a história mediana, mas após ter lido Dança Macabra, pude entender um pouco de como funciona as engrenagens por trás da mente do autor.