Quando pequenos e nossas mães querem nos assustar para que possamos dormir cedo, a história do bicho-papão é uma das mais usadas nesse sentido. Algumas crianças acabam ficando com trauma e não são mais capazes de dormir sozinhas ou adquirem claustrofobia. O medo do bicho-papão (ou boogeyman) é um dos mais comuns na sociedade moderna. O bicho-papão é um ser perfeito para um livro de terror: nunca temos uma descrição única dele. Pode ser um monstro com garras, um velho do saco ou uma bruxa verruguenta. Imaginem se o monstro fosse real? Se pertencesse a uma outra dimensão e escolhesse suas vítimas cuidadosamente? Ou até se tivesse uma inteligência macabra que gostasse de ver uma pessoa sofrer?

Essa é a premissa desse conto de Stephen King. A história é muito boa em te apavorar do começo ao fim. King não precisa te mostrar o monstro; basta a silhueta para te aterrorizar. O autor vai apresentando um protagonista aterrorizado por ter tido sua família levada pelo bicho-papão e ele consulta um psicólogo para poder contar sua história. Leslie Billings, o protagonista, acha que seus dias estão contados e o próximo da lista do bicho-papão é ele.

Esta é mais uma história com o modelo “sente-se que contarei minha história”. O fato de ela ser de alto nível faz com que eu me esqueça desse detalhe, mas ele está presente. É um gimmick, ou seja, é uma maneira de escrever terror. O que me incomoda e eu já comentei antes é o excesso de uso dessa gimmick. Vou perdoar mais ainda nesta porque o Bicho-Papão é um dos melhores contos de Sombras da Noite.

No início, imaginei Leslie Billings como um marido violento, agressor. King é ótimo em pintar protagonistas não tão carismáticos, mas verossímeis. De nada adiantava colocar um protagonista como modelo de cidadão na situação em que ele vivia. Podemos perceber também as marcas deixadas pelo ataque do Bicho-Papão na psiquê. Os diversos momentos em que a porta do armário bate e ele olha para trás ou se assusta são fantásticos. Fez com que o seu medo fosse real; eu gosto da prosa do King quando ele se importa com os pequenos detalhes. Uma das grandes reclamações dos detratores do autor é o excesso de detalhes dados em cada história. Eu gosto da maneira como ele faz; em alguns romances ou contos, King exagera a mão e o próprio autor já se deu conta disso. Não à toa, ele considera Os Estranhos (The Tommyknockers) um de seus piores trabalhos. Em entrevista ele comentou justo isso: ele exagerou nos detalhes e acabou por escrever algo maçante do qual não sente nenhum orgulho. Aqui, em O Bicho-Papão, eu não senti isso: era necessário criar o ambiente certo para passar essa sensação de iminência, de que algo errado estava para chegar a qualquer instante.

O psicólogo age como o bom senso. É um personagem comum, não redondo, isto é, sem muita profundidade. Foi criado para servir de contra-ponto, de pessoa comum duvidando da história contada. Apresenta uma série de argumentos racionais apontando para uma possível insanidade do protagonista. Eu imaginei em determinados momentos que Leslie Billings estaria em um confessionário tentando expiar seus pecados. É a sensação que temos cada vez que Billings pára para contar seu relato.

Achei interessante que King decidiu não se aprofundar no mito do Bicho-Papão. Não deu explicação nenhuma para o seu aparecimento. Muito menos sua forma real. Me recordei dos velhos filmes de terror em que só de aparecer um gancho na porta, os personagens ficam aterrorizados. É como se King tratasse o Bicho-Papão como uma força da natureza; sobrenatural, mas ainda uma força da natureza. Não existe meios para parar os seus desígnios. Vimos que o protagonista tentou inúmeras maneiras diferentes para parar o monstro, mas nada conseguiu. A cena final me fez com que eu me perguntasse se o Bicho-Papão não seria um doppelganger, assumindo a forma das pessoas que ele “devora” ou “arrasta para o seu mundo”. Não há muita clareza nesse relato.

Enfim, não existe muito mais a falar sobre esse conto porque King não desenvolve a ambientação de forma muito explícita. Ele apenas usa dois ambientes: o consultório do psicólogo e a casa da família Billings. O que eu entendi é que esta casa me parece ser a típica casa do subúrbio norte-americano. E a família também é apresentada de forma prosaica: pai com trabalho comum apenas para sustentar a casa e mãe trabalhando com bicos para poder complementar a renda. Não tive tempo de entender muito os filhos de Billings, mas essa não era a intenção de King ao escrever o conto. Gostei da maneira como o perigo foi apresentado e realmente recomendo a leitura. Conto na medida certa para aqueles fãs de um terror no estilo antigo, com o medo suplantando o gore.

P.S.: Feliz Natal a todos!!!

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