Qual é a importância do acaso na história da humanidade? Como lidar com algo que não foi previsto através do raciocínio lógico-matemático? Nem sempre somos capazes de planejar nossa vida. Elementos aleatórios acabam frustrando uma série de situações que gostaríamos de ter realizado. Digamos que estamos empinando uma pipa; planejamos de que material ela deveria ser feita, fazemos o design aerodinâmico para que ela voe mais alto e esperamos o melhor momento quando o vento está a nosso favor para que possamos desfrutar melhor de empinar pipa. Mas, como prever que outra pipa irá cortar a linha da nossa, levando abaixo horas de planejamento? Parece um exemplo tolo, mas que podemos aplicar a vários momentos de nossa vida. É fácil prever o resultado de uma equação, mas é quase impossível prever comportamentos no homem.

Essa é a premissa desse volume. Hari Seldon, através da ciência da psico-história, procurou prever o andamento da história do Império Galático. Tudo porque ele percebeu que o império cairia em 500 anos e deixaria a humanidade em um estado de caos. Seldon buscou retirar os melhores da capital do Império e criar a Fundação que daria origem a um Segundo Império em um espaço de mil anos. Fez todo um planejamento com o curso que os homens deveriam seguir para alcançar este ideal. E, como contingência, criou a Segunda Fundação, com especialistas nas faculdades mentais para interferir com a Primeira Fundação caso ela se desviasse.

Seldon só não contava com o surgimento do Mulo. Este ser que aparece neste segundo volume, é um mutante com incríveis capacidades mentais e capaz de fazer com que as pessoas se curvassem a seu domínio. Asimov apresenta um conquistador intergalático muito semelhante a um Napoleão. Um gênio militar que consegue dominar todo o território controlado pela Fundação e os resquícios do antigo Império. Seu carisma é enorme por conta de suas faculdades mentais que fazem com que a população o aceite tacitamente. Fazendo uma nova associação à história, Asimov faz com que seu declínio ocorra quando ele sai em uma jornada absurda em busca da Terra, o lendário planeta de onde os homens teriam surgido antes de ter colonizado a galáxia. O Mulo foi detido pelo “inverno” de Trantor; na história ele foi detido pelo poder do amor não correspondido por Bayta.

Outras noções como o de nacionalismo surgem nesta história. Os príncipes mercadores acabaram se tornando seres inescrupulosos e corruptos que não seguem nenhuma bandeira. Vemos aparecer na história pequenos lugares onde as pessoas acabam se apegando a seus regionalismos. Esses regionalismos vão dar origem a um nacionalismo posterior que fará surgir a necessidade para uma bandeira. Aqui vemos aparecer os anacreonianos desejando manter suas características individuais. Será essa ausência de um nacionalismo que tornará a conquista do Mulo tão mais fácil. Nenhum homem de Terminus acreditava no poder do Mulo. Aliás, podemos comparar o Mulo não apenas a Napoleão como também a Hitler. Isso porque Terminus tinha a possibilidade militar de impedir o avanço do mutante caso desejasse. Bastasse enviar uma expedição militar e destruir suas naves. Mas, a ameaça do Mulo não foi levada a sério e ele ganhou poder e influência. Suas tropas o respeitam e o admiram por sua capacidade militar.

Novamente não devemos nos apegar muito aos personagens da trama. A história se passa rapidamente e em um longo espaço de tempo. Temos que analisar a Fundação como o protagonista e isso pode ser estranho a muitos leitores. Achei o primeiro volume mais impactante e acabamos não nos importando muito com esta característica. Como esse segundo volume é um momento de transição entre o primeiro e o terceiro volume, a história acaba se passando de uma maneira mais lenta e progressiva. Aqui a gente sente que a história se passa mais lentamente e isso torna a história mais truncada. Dos volumes que eu li até agora (estou lendo Fundação e Terra neste momento, que é o segundo volume da segunda trilogia), este é, sem dúvida, o mais fraco. A necessidade de Asimov de explicar demais aparece com mais clareza e isso pode incomodar. Eu já me acostumei com a escrita de Asimov e acabo deixando para lá, mas o autor gosta de deixar suas ideias explícitas.

Este segundo volume expande um pouco o universo criado por Asimov. Conhecemos outros mundos e percebemos a diferença entre estes mundos e suas políticas internas. A Fundação acabou se tornando uma imensa metrópole explorando suas colônias. Ela cobra impostos destes lugares, afetando as comunidades que vivem neste lugares. Estes reclamam que tem suas liberdades afetadas pelo domínio de Terminus. A Primeira Fundação entrega tecnologia a estes lugares que acabam tendo pequenos desenvolvimentos, mas isso à custa de sua liberdade. A genialidade de Asimov trabalha com esta noção entre dominadores e dominados. Apesar de que Terminus não se coloca como dominador, alegando estar apenas “civilizando” os lugares que antes viviam na barbárie deixada pelo Império Galático.

Onde será que ouvi isso antes?

Enfim, é preciso um pouco de paciência com este volume por ele ser de transição. Mas, vale muito pela genialidade absurda de Asimov de transpor elementos históricos para uma space opera.

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