Todos os anos eu vejo algo que chamo carinhosamente de guilty pleasure. Algo que eu sei que é ruim, mas vejo porque me diverte. Pois é… Helix é meu guilty pleasure de 2014.

A série não é ruim. Acredito que as minhas expectativas sobre a série é que não foram atendidas. Quando vi alguns trailers, me empolguei com a trama. Achei que era uma história sobre um grupo de cientistas do Centro de Controle de Doenças que estariam tentando conter doenças por todo o globo. Acreditei até que a série seria uma antologia de histórias; ou seja, que em cada temporada, a trama se focaria na resolução de um problema específico. Até um procedural eu aturaria, já que a trama parecia ser tão diferente.

Mas, veio a realidade.

Os primeiros 4 episódios até são muito bons. Dá uma sensação de medo e de iminência. De que, se aquela doença saísse do controle, a infecção correria descontrolada. Podíamos ver na expressão dos atores aquela coisa de “temos que resolver isso o quanto antes”. As pesquisas eram muito legais; o arco da auxiliar do Alan (esqueci o nome da gordinha) foi interessante ao vermos ela aplicando o método científico para descobrir como a doença se propagava. Alan e Sarah pesquisando possíveis curas para o NARVIK enquanto Julia dialogava com o dr. Hatake. A série me fisgou nesses 4 primeiros episódios.

O que se viu depois foi uma sequência de bizarrices. Acho que Helix pode ser uma série muito boa. Não um blockbuster como Game of Thrones ou Walking Dead, mas uma série contida em si mesma, sabendo lidar com as situações de risco. O que falta em Helix é identidade. A série é sobre o que? Os cientistas pesquisando curas para doenças bizarras? Uma conspiração governamental para espalhar uma doença e limar três quartos da humanidade? Uma série sobre pessoas com poderes especiais e imortalidade lidando com a passagem do tempo e os novos imortais precisando conhecer sua nova condição? Faço essas perguntas porque foi isso o que a série me apresentou na temporada inteira. Falta coerência com as tramas. Falta identidade para a série.

O elenco não é ruim. Gostei das atuações. Mas, achei que o Major Balleseros ficava melhor como curinga; como um possível traidor que tentava sabotar os avanços da equipe. Esse arco de vilão que é uma pessoa com infância sofrida e quer se redimir é clichê demais. Minto: até poderia ser clichê, mas um clichê bem vendido. Canso de ver esse arco em outras séries, mas com um desenvolvimento melhor. Ninguém explicou muito bem porque ele era traidor. Só porque o cara nasceu nas “piores favelas do Espírito Santo, no Brasil” não significa muita coisa. Aliás, Balleseros não me parece lá muito brasileiro, mas ok. O envolvimento de Sergio com Anana deu um motivo para a existência do núcleo dos Inuits. Núcleo esse que não precisava dele para sobreviver.

Por falar no núcleo dos inuits, esse é mais um motivo para as minhas frustrações. A história de Miksa e Tulok poderia ter sido muito melhor desenvolvida. O caso das crianças roubadas poderia ter gerado vários episódios em que Anana poderia investigar documentos e interrogar possíveis pessoas envolvidas no caso até descobrir que o dr. Hatake estaria envolvido. Poderia até gerar um arco em que as crianças estariam presas (sejam como adultas ou criogenadas) e Balleseros e Anana teriam que resgatá-los. Viram? Já deu uma história interessante com pouca coisa.

Alan, Sarah e Julia formam um grupo de protagonista interessante. O triângulo amoroso foi vendido bem sem ser forçado. Só achei que o ponto fraco do trio era a atriz que interpretava Sarah. Em nenhum momento senti vontade de torcer para ela vencer o tumor. E o fato de ela ter ingerido o NARVIK ou conseguido líquido medular da Julia foi muito óbvio. Tudo indicava que isso poderia acontecer. Nunca é bom para uma série quando o espectador consegue prever o andamento da série.

Gostei muito da atuação de Hiroyuki Sanada. Ele me passou aquele receio do cientista que faz qualquer coisa pela ciência. Mesmo depois quando descobrimos que sua esposa era refém da Ilaria Corp, eu não deixei de gostar do personagem. Achei ele dúbio em vários momentos e não era capaz de compreendê-lo ao longo da série. Para mim, foi uma grata surpresa. Espero que ele continue na segunda temporada. Já Julia também teve bons arcos ao longo da temporada. Achei que alguns acontecimentos ocorreram de forma muito truncada. Novamente, sinto que os roteiristas poderiam ter deixado mais coisas no ar. Ter descoberto tudo já no oitavo episódio tirou muito da graça. O conflito entre pai e filha foi um momento chato; os roteiristas perceberam isso e mudaram o rumo rapidamente.

A ligação entre Peter e Alan não foi muito explorada. Acredito que os roteiristas tenham deixado isso para a próxima temporada. Tudo não foi muito bem explicado entre os dois por ora. O protagonista é passável. Pró-ativo e com algumas situações que ele precisa resolver. Só senti falta de um pouco mais de profundidade no personagem. Mas, isso senti na maioria dos personagens da série.

Enfim, a série tem seus pontos altos e muitos pontos baixos. Mas, em uma época em que séries de ficção não são muito comuns na telinha, Helix é uma boa opção. Mesmo que não seja genial, consegue divertir usando alguns clichês. E são apenas 13 episódios, nada que uma pequena maratona não resolva. A série retorna no início de janeiro de 2015.

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