Recentemente a internet foi abalada por uma série de comentários realizados por Mark Lawrence, um dos maiores expoentes das obras de fantasia dark dos últimos anos. Ele fez alguns comentários acerca de críticas que ele vinha recebendo sobre não dar papéis de destaque a personagens femininos em suas obras. Vou deixar o link do blog pessoal do autor para que os interessados possam ler (o post está em inglês).

http://mark—lawrence.blogspot.com.br/2013/04/i-am-not-my-character-duh.html

Em primeiro lugar, eu acho que o autor teve um dia ruim. A gente pôde perceber um certo tom de raiva na sua fala, direcionada principalmente a críticos literários e alguns blogueiros. Até concordo com a fala dele de que ele não é um dos seus personagens. Mark Lawrence não é Jorg Ancrath, pelos céus!!! Apesar de eu sempre tocar no tema de que o autor deixa parte de si em sua obra, Jorg é um personagem negativo demais e sofrido demais para ser inspirado naquele que o escreveu. O que mais me parece é que o post do autor foi uma metralhadora giratória que não poupou leitores, críticos, blogueiros, colegas. Acho que ele deveria ter respirado um pouco antes de comentar sobre as críticas que vinha sofrendo sobre ser misógino.

Em segundo lugar, a literatura de fantasia sempre teve essa pecha de ser misógina. E, com razão. Desde os seus primórdios na literatura pulp a mulher teve sempre papel secundário. É a princesa em apuros, a jovem donzela em busca do príncipe ou a esposa fiel que espera pacientemente pelo marido. Ao longo de várias décadas isso permaneceu verdadeiro. Tolkien é uma exceção ao nos apresentar várias mulheres ativas e que sabem o que querem, desafiando até as poderosas figuras masculinas. Já discuti aqui o livro Herland onde Charlotte Perkins Gilman aborda uma utopia formada apenas por mulheres.

Mas, nos dias atuais, muita coisa mudou. Lógico que ainda existem misóginos em boa parte do mundo. Até entre os escritores de ficção podemos ver isto. Robert Heinlein foi acusado disso ao escrever Um Estranho em uma Terra Estranha. Não posso comentar porque não li o livro inteiro. Stephen Donaldson teve vários de seus livros classificados como obras para machistas. Até Robert Jordan já teve que lidar com essa alcunha ao escrever A Roda do Tempo. Nos dias atuais convivemos com uma sociedade mais aberta às diferenças.

Ao lidar com esse assunto, temos algumas problemáticas. Muitas dessas críticas feitas a Mark Lawrence vem de feministas ferrenhas que ficaram ofendidas com as ações de Jorg na trilogia dos Espinhos e na do protagonista da nova trilogia Prince of Fools. Isso porque ele apresenta personagens femininas que são verdadeiras bruxas cruéis. Uma princesa sádica, uma bruxa maligna que aterroriza os homens e mulheres grávida que são assassinadas com requintes de crueldade. As críticas aparecem no fato de que Lawrence deu um papel bizarro a essas personagens femininas quando poderia ter dado um protagonismo maior ou as posicionado como mocinhas, ajudando o personagem do livro.

Precisamos primeiro entender a questão do propósito. O que o autor tinha em mente quando escreveu a obra? Quais eram os obstáculos e desafios a serem ultrapassados? Cada personagem ocupa a obra para cumprir algum propósito ou alguma jornada. Não dá para o autor enfiar uma série de personagens para agradar uma parcela de fãs. Fica parecendo que o autor precisa preencher a cota de negros, deficientes, gays ou mulheres na obra. Ao fazê-lo, aí sim o autor está sendo preconceituoso. Os personagens precisam ser relevantes para a obra em questão e não estar por estar. Precisamos ter cuidado com nossas críticas porque podemos nós mesmos soarmos preconceituosos.

Uma outra questão é se o personagem escrito pelo autor não tem essa característica. Para antagonizarmos ainda mais um personagem em questão, podemos torná-lo machista, ou mesquinho ou sádico. Quem leu Paul Hoffman e sua Mão Esquerda de Deus sabe do que estou falando. Quantas vezes ficamos de estômago revirado ao lermos algumas das técnicas “gentis” empregadas pela ordem em que se encontrava o protagonista. Um bom autor sabe como mexer com nossas emoções ao criar personagens marcantes e impactantes. Pior do que não reagir, é ser indiferente. Canso de dizer isso e comentei essa característica na escrita de William Gibson. A marca de um bom livro é quando ele nos faz reagir de alguma maneira.

Mark Lawrence é um escritor fantástico. E uma pessoa extremamente doce e solícita. Já pude participar de um hangout com ele e ele foi extremamente atencioso com os fãs que ficavam horas para esperar uma resposta a suas perguntas postadas na página (a minha infelizmente não foi respondida, mas esperar isso diante de milhares de fãs é pedir demais). Precisamos nos descolar dessa imagem de psicólogo tabajara de que devemos direcionar os personagens a nossos gostos. Não, nós não mandamos em uma obra de ficção. Quem conduz a ação é o autor que tem um objetivo por trás de qualquer ação. Então, eu devo reclamar com um episódio de Game of Throns em que a única coisa que a Daenaerys faz é mostrar os peitos após se encontrar com alguns líderes tribais? Gente, isso faz parte de uma história. Aquilo aconteceu por um objetivo que depois iremos descobrir qual é. Ou se Jorg Ancrath mata 10 criancinhas após beber 7 garrafas de vodka, é porque o autor quis mostrar que o personagem é desequilibrado e cruel.

Se vamos criticar algo, que seja abalizado. Vamos ler e tentar discutir com outras pessoas se uma escrita é estranha demais para pertencer a uma pessoa. Vamos tentar entender o que se passa para uma pessoa responder de uma forma muito agressiva. Todos nós temos dias bons e dias ruins. Todos nós tropeçamos em uma pedrinha e xingamos. Afinal, somos humanos e falhos.

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