No mundo de Gibson iniciado por Neuromancer, o que é a matrix? O que ela representa? Depois do surgimento das IAs que começaram a agir independentemente, como a matrix evoluiu? E o que são os loa que habitam um universo além da matrix? Sempre estiveram lá ou são o resultado dos acontecimentos de Neuromancer? Estas são algumas das perguntas que serão (ou não) respondidas durante o livro.

Para os apaixonados pela trilogia, leiam apenas os dois primeiros parágrafos, porque eu vou reclamar horrores desse livro. Digo logo que achei o mais fraco da trilogia. Até Neuromancer é melhor do que Mona Lisa Overdrive. Eu realmente achei que após a leitura de Count Zero (o melhor da trilogia) poderia esperar algo muito bom. Quando abri o livro, minha expectativa era a melhor possível até porque li Reconhecimento de Padrões e Count Zero que fizeram mudar minha opinião sobre o autor. Mas, já dizia aquele velho ditado “Alegria de pobre dura pouco”.

O melhor ponto de Mona Lisa Overdrive é a profunda ligação que ele tem com a mitologia criada por Gibson. Neuromancer e Count Zero podem ser lidos separadamente. Não senti nenhum problema de continuidade em Count Zero. Lógico que se você quer saborear mais a história recomenda-se a leitura em ordem. Mona Lisa é quase um mish-mash dos dois primeiros. Mantém a atmosfera cyberpunk do primeiro enquanto que usa os elementos sobrenaturais do segundo. Acredito que o autor queria repetir a fórmula do segundo e trazer os elementos clássicos do primeiro. Ver o fechamento de histórias foi muito gratificante para mim. Revi alguns personagens do primeiro como Molly e o Finlandês, além de algumas menções ao que Case fez. O autor manteve uma fidelidade àquilo que ele havia escrito. Acho isso positivo para o universo da história.

Gibson conhece o Sprawl com a palma da mão. A maneira como ele sabe lidar com a ambientação revela que ele pensou em todos os detalhes de sua megalópole decadente. Aquela sensação de quando assistimos Blade Runner está presente aqui: muitas coisas orientais, o individualismo das pessoas e os constantes golpes além da distância das corporações para os homens comuns. Gibson também descreve muito bem a matrix. Ele sabe o que ela significa e como descrevê-la de forma com a qual o leitor consiga imaginá-la. Mesmo quando 3Jane começa a distorcer a matrix, sabemos de que forma a matrix era antes do que ocorre no terceiro livro.

O retorno de Molly Millions foi fantástico. Ela é a melhor personagem criada por Gibson. Percebemos nela a pró-atividade, a revolta e a violência em uma mulher marcada por aquilo que se passa em Neuromancer. Ela é a essência do Sprawl. 3Jane também é uma personagem muito interessante. Sua mente distorcida e a motivação que ela tem para perseguir Molly são totalmente válidas. 3Jane é simplesmente mesquinha; uma mente infantil com muitos poderes. Ela brinca com a humanidade da mesma maneira que uma criança brinca com uma casa de bonecas. Angela Mitchell também é uma personagem interessante. Eu realmente gostei das partes em que Gibson dá continuidade à sua história. E como a personagem mudou do segundo para o terceiro livro.

Agora vem as reclamações.

Mona Lisa Overdrive é uma obra que sérios problemas de progressão (o que em inglês a gente chama de timing). O livro demora quase 150 páginas para começar a história. Oh dear God!!! Se o livro é o fechamento de uma trilogia, não deveríamos passar tanto tempo para falar a respeito das motivações dos personagens. O que Gibson fez em 150 páginas, poderia ter feito em metade disso. E aí o livro sofre no final. Porque a metade final é muito rápida e às vezes a gente não entende o que se passa com os personagens entre os capítulos. Muitas cenas ocorrem em um ritmo acelerado demais. A Batalha da Fábrica poderia ter sido épica. Mas, foi corrida demais. Não deu para sentir iminência e perigo. Uma das melhores partes de Neuromancer foi a ida à Straylight onde eles confrontam a Tessier-Ashpool. A cidade no espaço foi um acontecimento muito interessante. Aqui, os acontecimentos na Fábrica não geram a ansiedade no leitor. Só nos deixa confusos. Os capítulos 35 a 39 são os melhores do livro, mas foram corridos demais.

O Conde continua a ser desinteressante. Some isso à própria Mona Lisa. Coloque junto Slick Henry. Acrescente Swain e você tem uma lista de personagens desinteressantes ou mal apresentados. Eu só fui entender o que era o Juiz e o Triturador de Ossos no final da história. Desculpe a expressão, mas… Po……a. Eu entendi que o personagem sofreu uma espécie de quimioprisão e a mente dele é afetada por causa do stress. Mas, custava gastar uns capítulos com o personagem para entendermos o que acontece com ele. Se Gibson gastou quase 30 páginas com Molly (que já sabíamos como ela funcionava e quais eram seus sentimentos e motivações), por que não com Slick Henry se ele fazia parte do elenco de protagonistas.

Alguns relacionamentos são muito forçados na história. Angie e o Conde tem um relacionamento especial. Mas, porque em nenhum momento Angie se lembra com carinho do Conde? Mesmo sendo muito corrido, percebemos que Cherry se importava com Slick Henry. Foram poucas linhas, mas suficientes para estarmos cientes do fato. A relação entre Molly e Kumiko é forçada ao quadrado. Ah… elas saíram juntas em meio a uma Londres estranha, entrando e saindo de diversos táxis para despistar os perseguidores, e no instante seguinte elas são melhores amigas para sempre. Como assim????? Quando??? Onde???

As melhores partes do livro são contadas muito rapidamente. Toda a situação com Samedi, Papa Legba e Mama Brigitte passa rápido demais. Eu queria ver mais daquilo. Queria saber mais sobre esta mitologia interessante que apareceu no segundo livro. A relação entre Angie e os loa faz aparecer uma série de questionamentos que Gibson não responde. Ou até ele poderia desenvolver melhor. Os loa poderiam ser IAs que estivessem buscando uma nova ordem dentro da matrix. Ou ser alguma coisa a mais, trazendo magia para este mundo cyberpunk. Seria tão mais bacana e gratificante. E, no entanto, ele apresenta no último capítulo uma ideia que eu quero acreditar que é estúpida. Espero realmente que ele tenha apenas deixado um gancho para futuras histórias e não respondido à principal pergunta deste livro com uma noção boba.

Bom, chega de ranting. O livro é bacana e, fora os problemas recorrentes na escrita de Gibson, a história chega ao fim de uma forma mais ou menos satisfatória. No mais, eu já me acostumei com a escrita do autor e consigo ser um pouco mais tolerante com as bobagens dele. Entendo a importância dele para o gênero cyberpunk, mas isto não o torna um deus imortal sem quaisquer falhas. Precisamos criticá-lo de uma forma inteligente, apresentando argumentos bons para isso. E, principalmente: ler antes de criticar.

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