Philip K. Dick é um autor que costuma sempre escrever sobre temas ligados à nossa realidade. E, durante os momentos finais da Guerra Fria, a corrida armamentista era um assunto do momento. O homem desenvolvia cada vez mais a indústria de armamentos. EUA e a antiga URSS enviavam foguetes ao espaço. Yuri Gágarin viu a Terra do espaço; Neil Armstrong pisou na lua. Os EUA quase entram em guerra com Cuba, uma pequena ilha situada no Caribe, por causa de uma possível tentativa da URSS de estar montando bases militares próximas ao território americano. Falava-se muito no projeto Guerra nas Estrelas em que os EUA estariam montando uma rede de satélites no espaço para auxiliar o envio de mísseis transoceânicos.

Enfim, o homem se armava cada vez mais e melhor. Segunda Variedade é um conto de Philip K. Dick que expande este tema da corrida armamentista a um outro patamar. O homem desenvolvera robôs chamados garras após a URSS lançar ogivas nucleares em território americano e aniquilar boa parte dos grandes centros americanos. Aqueles que sobrevivem passam a pesquisar armas mais modernas e letais de forma a evitar mais desperdício de vidas. Os grandes líderes americanos criam uma base na lua para poder escapar da guerra entre americanos e soviéticos. Mas, o protagonista percebe alguma coisa muito estranha naqueles estranhos robôs que agora ocupam o campo de batalha. Estes robôs possuem uma inteligência sofisticada e foram criados para matar o oponente.

Neste conto, esqueçam os robôs bonzinhos e éticos das histórias de Isaac Asimov. Dick tem um ponto de vista muito diferente a respeito destas máquinas. Não só em Segunda Variedade, mas em outros contos semelhantes, os robôs possuem instinto assassino. Isso porque foram criados pelos seres humanos com este propósito. Não existem Leis da Robótica aqui; o que existe é a forma como o homem utiliza estas máquinas para exterminar outros homens de forma eficiente. E a estratégia que estas máquinas adotam a partir da metade do conto é cruel. Não quero spoilar muito do conto porque ele revela verdades aterradoras. E, apesar de todo a redoma de ficção científica por trás do conto, não duvido muito de que, no fundo, o propósito de um drone dos dias modernos seja este.

É incrível como as histórias de Philp K. Dick dificilmente envelhecem, apesar de ele tratar de um futuro não tão distante. Muito diferente de um William Gibson que, apesar de todo o sabor por trás da escrita cyberpunk, sofre com o envelhecimento literário. Suas histórias precisam da referência pop para poderem “clicar” nos leitores. Já Dick prefere uma abordagem diferente: ele trata de temas éticos e filosóficos. Aqui é o quanto a máquina herda de violência de um ser humano? Será que o homem se tivesse o poder e a letalidade daquelas máquinas do final do conto fariam diferente? Não estaríamos nós nos encaminhando para maneiras melhores de matar o próximo?

O conto se passa em uma ambientação pós-apocalíptica. Não há descrições muito precisas, porque o cenário é um campo de batalha. Me senti em um episódio de Band of Brothers ou de um filme de guerra como Resgate do Soldado Ryan. A sensação de morte e extermínio chega até o leitor. Conseguimos sentir a angústia dos personagens com a noção de que sua morte poderia acontecer no próximo segundo. A única personagem feminina funciona perdeu toda a sua sensibilidade com a guerra. Aliás, ela quase não possui traços femininos. Ela está ali para suprir as necessidades dos soldados. De forma alguma Dick escreve com um propósito machista. A personagem se enquadra justamente dentro daquele cenário de guerra.

Os personagens do livro são sobreviventes. Eles querem viver a qualquer custo. A atitude dos personagens ao longo da história ao longo do livro é totalmente compreensível. Até as máquinas se comportam da mesma maneira. Elas precisam continuar a levar a cabo sua missão programada pelos seus criadores e aperfeiçoada a cada nova geração de máquinas. Nisso, o homem criou as máquinas à sua imagem e semelhança. Só que estas máquinas provaram ser melhores do que o homem em sua missão. Eliminaram os sentimentos e levam cabo o seu trabalho de uma forma mais eficiente.

Algumas das cenas do conto são brutais. Logo no início, aparecem várias garras “desmontando” um soviético e levando os seus pedaços para algum lugar desconhecido. Ou a imagem da garotinha com um ursinho de pelúcia seguindo o major Hendricks. Ou a dos gritos do policial sem uma das pernas. O conto tem um efeito de fazer você pensar sobre a questão do desenvolvimento das armas pelo homem.

Segunda Variedade deu origem ao clássico filme Screamers: Assassinos Cibernéticos. Apesar de toda a liberdade criativa usada no filme, a história é muito interessante pela sua mensagem implícita. Dick não corta caminhos e mostra a verdade dura e crua por trás das guerras contemporâneas. No mínimo, vale a pena ler com um espírito reflexivo.

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