Esta é uma obra de ficção especulativa com o sabor dos anos 1960. Aqui encontramos de tudo: espionagem, segredos de Estado, conspirações. A história se passa durante a Guerra Fria e o personagem principal se vê chamado para a antiga URSS em uma pesquisa da qual ele não deseja revelar muito de suas descobertas.

O autor consegue fazer um bom mix de ciência e do oculto ao propor uma substância capaz de fornecer àquele que a ingere a habilidade da Percepção Extra-Sensorial. Essa substância seria secretada pelos grandes mestres do oculto espalhados pelo mundo. Na história, o protagonista encontra um yogi (um mestre hinduísta) capaz de entrar em um estado de meditação profunda e uma cartomante com sensibilidades especiais.

A história em si é um pouco fraca. Talvez por ela ter esse sabor de espionagem, semelhante às histórias do 007 de Ian Fleming, ela tenha envelhecido aos olhos do leitor. Eu consigo imaginar uma história do Capitão América da Era Clássica nesse ambiente. Por isso, a ambientação não gera o clima noir adequado ou sequer a sensação de perigo. O final é totalmente previsível já que o autor nunca imaginou uma mudança no status quo do seu mundo.

Na realidade, a história é criada para responder a uma pergunta: “Devemos saber o que os outros estão pensando?”. O protagonista tem uma sensação de amplitude quando usa a substância em si mesmo. Mas, pouco a pouco, o autor começa a sentir a diferença entre o que as pessoas pensam e o que elas falam. Nem sempre o que pensamos é o que queremos que os outros saibam. Aqui existe uma discussão ética sobre nossos pensamentos mais íntimos. O protagonista consegue compreender os pensamentos de seu interesse romântico, dividida entre espionar o cientista ou amá-lo. Quando ela percebe a intrusão do protagonista em seus pensamentos, ela se frustra por isso. É como se ela tivesse sido completamente despida em público. Afinal, seus pensamentos são o refúgio de seus medos, anseios e desejos mais íntimos. Quando alguém invade esse recôndito, é como se ela estivesse sendo abusada contra a sua vontade.

O próprio protagonista percebe o quão errado é invadir a mente das pessoas. O homem não está preparado para esse nível de avanço. Se não somos verdadeiros entre nós, conhecer o íntimo da mente de outras pessoas é algo aterrador.

Outra discussão muito pertinente feita ao longo da história é o mau uso da ciência. O protagonista queria pesquisar os grandes mestres do oculto por curiosidade. Seria a imagem de uma criança observando uma colônia de formigas e acrescentando obstáculos para ver como elas se comportariam. Quando a sua pesquisa passa a ser encarada como uma vantagem em uma disputa entre duas grandes potências mundiais, o protagonista se sente contrariado. O grupo de financiadores do projeto quer a todo o custo a substância para usar em atos de espionagem industrial. Neste momento, Siodmak apresenta o seu próprio contexto de vida para enriquecer a sua narrativa. Podemos perceber todo o medo e o perigo por trás de uma guerra fria, ou seja, de uma guerra entre duas nações nucleares em que nenhum disparo é feito. Mas, todos se sentem tentados a apertar o gatilho. Dá aquela coceira na mão da qual as altas patentes das forças armadas não conseguem se livrar.

Também consigo interpretar a falta de vontade do protagonista de entregar a fórmula como um egoísmo. Isso porque ele queria se sentir especial ao ser a única pessoa no mundo com a capacidade de ler a mente. Se todos possuíssem essa habilidade, a característica do “ser especial” estaria perdida. Em diversos momentos, o protagonista tem a oportunidade de oferecer a fórmula de uma maneira segura, mas sua desconfiança acaba atrapalhando os seus objetivos.

Como me referi antes, não tenho nenhuma sensação de perigo ou de iminência em nenhum momento da obra. Salvo na cena do barco nos últimos capítulos, o protagonista não chega a correr perigo. Até a atitude do protagonista me lembra o clássico James Bond interpretado por Roger Moore: um cara alheio aos problemas, um tanto blasé. Ele corre em direção ao perigo, mas não tão rápido quanto poderia. Os vilões o prendem para interrogatório, mas ele não chega a correr nenhum tipo de risco. Mesmo a presença da espiã não o coloca em perigo. Aliás, a situação com a espiã é um tanto quanto estranha. Siodmak meio que esquece a espiã na metade da história. A personagem fica um pouco de lado e ele lembra da personagem quando está encaminhando a história para o seu final.

Enfim, Siodmak parece concluir que a ignorância é uma benção já que o protagonista recusa a possuir tais habilidades ao final da trama. É uma história mediana, capaz de nos distrair em um final de semana. Não recomendo a ninguém que leve a trama a sério até porque o autor não faz por onde torná-la dessa forma. A trama gira em torno da pergunta que eu apresentei acima. Siodmak é um dos mais clássicos autores de ficção científica. Se servir como incentivo, a sua época de produção é conhecida como a Era de Ouro da ficção científica. Se sua obra tem valor, é porque se insere neste momento. Só por isso vale a pena a leitura.

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