H. P. Lovecraft ficou famoso ao apresentar horrores inimagináveis em suas obras. Algumas de suas descrições são apavorantes ao mesmo tempo em que nos fazem querer vomitar. O próprio Cthulhu é um monstro verde, cheio de tentáculos e uma aparência completamente disforme. Mas, o que mais se destacava na prosa sobrenatural de Lovecraft era a capacidade que ele tinha de nos deixar apavorados toda vez que nos encontrávamos diante das ruínas de uma igreja, de uma cidade tomada por forças sobrenaturais ou de uma mansão mal-assombrada. Lovecraft sabia trabalhar com o medo do desconhecido. Sim, seus monstros espaciais eram horrendos, mas ele só mostrava as cartas escondidas em suas mangas no último segundo, quando tudo o mais já estivesse perdido.

Neste conto, Stephen King faz uma homenagem à prosa de Lovecraft. Sua inspiração é clara. Ele nos apresenta um bar de caminhoneiros onde um garoto entra e diz que precisa levar cervejas para seu pai. Mas, seu pai havia se tornado uma criatura estranha nos últimos tempos. Parece que ele havia sido exposto a uma cerveja que tinha um gosto estranho. E esta cerveja estragada parece que teve algum tipo de reação que mexeu com a constituição física do pobre Richie Grenadine, um trabalhador comum que gostava de tomar umas cervas enquanto assistia televisão. Mas, em nenhum momento King diz de que jeito ele foi alterado. Mais uma vez temos alguém contando sobre sua estranha experiência e a necessidade de alguns bravos homens de investigar o que estava acontecendo.

Fiquei realmente apreensivo com a história. Este conto é daqueles que você quer virar logo a página para saber o que acontece a seguir. Trata-se realmente de um conto estranho que trabalha com a nossa repulsa à medida em que a história vai evoluindo. Fazendo uma leve piada, não consegui beber cerveja por umas duas semanas por causa dessa história.

Minha única crítica à história é que o autor usa muito do expediente de contar a história. Entra um personagem em um bar/taverna/parada de caminhoneiros e conta a sua experiência horripilante aos incautos dentro do lugar. Segue-se uma série de questionamentos quanto à veracidade ou não dos eventos, alguns personagens sacanas que se mostram incréculos e tiram uma com o personagem. Isso até aparecer o protagonista que se revela, no mínimo, curioso e decide investigar o relato. Em Sombras da Noite existem 5 ou 6 histórias semelhantes. 80% dos contos deste livro são fantásticas, mas a fórmula incomoda um pouco depois de você perceber como o conto é encaminhado. Destas 5 ou 6 histórias, creio que não gostei muito do conto sobre o Bicho-Papão, mas okay, não era uma história de todo ruim.

Assim como Lovecraft, King encaminha o fechamento de sua história para um final considerado “ruim”. Não ruim de qualidade, mas um final onde os mocinhos não se dão bem e o mal vence. Mais uma clara inspiração em Lovecraft. Acho interessante este tipo de encaminhamento porque tira aquela nossa certeza de que tudo vai acabar bem no final. Massa Cinzenta parece uma daquelas histórias que contamos ao redor de uma fogueira no Halloween: interessante, sutil e assustadora.

Trabalhar com o medo do desconhecido pode ser considerado uma das marcas de Stephen King. Apesar de a prosa de Lovecraft primar por este tema, King não fica atrás. Trata-se até de um tema em que King consegue desenvolver melhor em um espaço mais contido. Quando ele expande demais a sua história como, por exemplo, em Salem, o desconhecido acaba tendo que ser revelado em algum momento da história para que ela ganhe dinamismo. Em um conto, é possível manter o desconhecido até o final. Revelar apenas quando é tarde demais para que os personagens possam se salvar.

No geral gostei dos personagens. A degradação de Richie Grenadine é muito bacana e faz uma sátira ao trabalhador americano que, no fim de semana, quer beber uma cerveja, pegar umas mulheres gostosas e assistir futebol americano. Usando esta abordagem podemos dizer que King entende esse homem comum como uma massa cinzenta e sem cérebro. Tudo o que quer é se dividir e tomar o país com sua imensa idiotice. Não seríamos todos várias destas criaturas da história?

Quanto aos demais personagens, não havia muita necessidade de desenvolvê-los completamente. Bastava fornecer elementos de conexão com Richie Grenadine para que a história pudesse funcionar. Mas, acho interessante a maneira como King consegue caracterizar mesmo os personagens mais simples. É como se o autor soubesse todas as engrenagens pela qual o homem comum americano funciona.

Massa Cinzenta é mais um conto curto que você pode ler em uma viagem de ônibus. Recomendo fortemente a leitura em mais um dos sensacionais contos do Mestre do Terror.

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