Galerinha que segue este blog, hoje eu queria discutir um assunto deveras polêmico. E queria iniciar esta postagem com uma pergunta:

– Um livro com muitas páginas e volumes é um bom livro?

Nos últimos anos, temos sido assolados pelas obras volumosas e grandiosas que são cada vez mais frequentes em nossas livrarias. Apesar de, no Brasil, isso ser um fenômeno novo, esse tipo de livro tem décadas de existência no mercado americano. Autores como Andre Norton, Saxon Andrew, L. E. Modesitt, Robert Jordan e tantos outros publicam não só trilogias, como livros de longuíssima duração. Andre Norton tem uma série de fantasia que passa dos 40 livros. Não quero traçar uma crítica direta a isso, quero apenas fazer um exercício de raciocínio.

Livros de fantasia e ficção científica são normalmente divididos em vários volumes. Isso porque além de ter de contar uma história, os autores precisam fazer o que, em inglês, chama-se world building. Nada mais é do que a apresentação do mundo onde os personagens vivem, suas divisões políticas, tradições, cultura e povos. Sem falar no fato de ter de explicar como a física do mundo funciona: se existe magia, o autor precisa mostrar de onde ela veio, como é manuseada, se existe uma escola para treinar e como ela pode ser utilizada; se é um mundo no futuro, como esse futuro é, onde se encaixa (ou não) o planeta Terra, que raças alienígenas dividem o espaço conosco, como os homens chegaram ao espaço e como funciona a tecnologia deste mundo. Todas essas informações demandam tempo e páginas. Normalmente o primeiro livro de uma trilogia apresenta todas essas informações ao leitor. Às vezes são tantas informações que precisam ser divididas entre os vários livros que compõem a série.

Geralmente em obras com múltiplos volumes, o desenvolvimento da história se dá em um ritmo lento. Os personagens são apresentados e os hábitos mais comuns destes personagens são destacados para que nós, leitores, possamos nos importar com o que se passa com estes personagens. Desde o protagonista, passando pelos personagens de apoio e secundários e até o vilão são destacados, apresentando suas motivações e suas histórias. Lógico que, estou apresentando isso em um mundo ideal e em uma história ideal.

Existe também todo um mercado que anseia por este tipo de obras. Como podemos ver nas redes sociais, quando os primeiros livros importantes de trilogias começaram a sair no Brasil foi uma febre. Muito dessa febre podemos colocar na conta da grandiosa obra Game of Thrones que despertou no brasileiro uma vontade de consumir este tipo de obras. Não que elas nunca tivessem sido publicadas no Brasil, só eram publicadas no conta-gotas. Muitos dos mais velhos se lembram da saudosa coleção Argonauta da Editora Europa-América que foi a responsável por trazer vários autores desconhecidos ao Brasil como Robert Sheckley, E. E. Doc Smith, Frederik Pohl e tantos outros ícones da Era de Ouro da ficção científica.

Agora vamos aos pontos negativos. Uma obra extensa ou volumosa não significa uma obra monumental. É preciso destacar logo de cara que Tolkien é Tolkien e ele é inigualável. Vamos ver várias capas de livros colocando chamadas de autores que são “o próximo Tolkien”, “aquele que irá ultrapassar Tolkien”, “aquele que teria escrito Senhor dos Anéis melhor do que Tolkien”. Pretensões à parte, o que uma obra volumosa fornece ao autor é espaço. Espaço para desenvolver sua obra livremente. Nem sempre tal é verdadeiro, com muitos autores gastando muito tempo explicando detalhes que acabam sendo desnecessários ou irrelevantes para o andamento da história. Eu não preciso saber qual é a física por trás do giro de um machado de um anão na cabeça de um troll. Sim, ficarei mais inteligente no que diz respeito à física do machado, à musculatura de um anão e a biologia por trás da caixa craniana de um troll, mas nem por isso eu ansiarei por esse tipo de informação. Alguns autores gastam 10 ou 15 páginas com esse tipo de informação. Para evitar polêmicas com autores já conhecidos do público brasileiro, vou comentar sobre Peter Hamilton, um dos meus autores favoritos de ficção científica. Ele é um autor fenomenal que consegue escrever scripts extremamente audaciosos, mas gasta 15 ou 20 páginas com explicações científicas irrelevantes para o todo. Isso acaba por quebrar o ritmo de desenvolvimento da mesma.

Um outro problema são os personagens. O fato de ter muitas páginas não significa que um personagem é bem construído. Mesmo autores tem seus personagens favoritos. Por exemplo, é inegável que George R. R. Martin tem um carinho especial por Jon Snow, Arya Stark e Tyrion Lannister. Os outros personagens acabam compondo o fundo. Outros autores acabam preterindo os protagonistas em prol do desenvolvimento dos demais personagens de apoio. Um protagonista tem que ser o ponto principal da história; ele precisa ter uma história cativante e desafios à altura. Se sua história é desinteressante, acabamos não nos engajando em sua jornada. E, por mais que o universo da história seja interessante e todo o resto tenha sido explicado de forma adequada, abandonaremos o livro na primeira vez que ele nos encher. Já abandonei Pandora’a Star do Peter Hamilton umas 5 vezes. Na página 450 de 867, a história finalmente ficou interessante. Mas, levei quase 2 anos para chegar na página 450. Já na obra Limites da Fundação de Asimov levei 6 dias para devorar as quase 350 páginas do mesmo, ávido por mais daquilo que estava lendo. E estou me referindo a uma história com metade do tamanho da outra.

Trilogias são interessantes sim. Mas precisamos avaliar o quanto esta história volumosa é capaz de nos comover, de nos sensibilizar. Não é o tamanho pelo tamanho; quantidade não significa qualidade. Todas frases clichês, mas que podemos facilmente aplicar ao nosso caso aqui. Adoro pegar um livro da Robin Hobb: acabei de comprar o terceiro volume de sua trilogia e me embasbaquei com as suas quase 900 páginas. Mas, eu leio a Robin Hobb não pelo tamanho do seu livro, mas pela qualidade de sua escrita. Afinal, H. P. Lovecraft é um dos maiores escritores de terror e boa parte de suas obras não passam de 100 páginas. E seus relatos sobre Cthulhu continuam a ser lendários.

Galerinha: na hora de comprar um livro, olho no lance. Tamanho não é documento!!!!

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