Decidi fazer essa série de resenhas sobre Arrow porque ele apresentou características muito diferentes ao longo de suas, por enquanto, três temporadas. Não é possível analisar a série como um todo porque os roteiristas acabaram por se adaptar ao longo do tempo.

Vou partir da seguinte premissa: a primeira temporada foi de regular para ruim. A série fez sucesso porque ela apresentou um produto muito diferente daquilo que tinha no mercado. Fora que os fãs de Smallville, a série que tratava dos primeiros anos da vida do Superman, estavam órfãos de alguma série sobre super-heróis.

Vou começar a falar da ambientação. Diga-se de passagem ambientação e enredo caminham muito juntos em Arrow. É inegável o fato de os roteiristas terem se baseado na trilogia do Batman produzida por Christopher Nolan. Um cenário decadente, um herói em conflito (aliás, Oliver tem muito pouco de herói na primeira temporada) e um vilão carismático na forma de Malcolm Merlyn. Até o recurso dos flashbacks, usados em Batman Begins para compor a personalidade de Bruce Wayne e apresentar como ele se tornou o Batman, foi usado  na série. Em alguns momentos, os flashbacks eram mais interessantes até do que o enredo do episódio em questão. Starling City se apresentou como um mistério a ser desvendado. Políticos corruptos, jogos de interesse e inimigos misteriosos compunham os vilões da primeira temporada.

O enredo da vingança de Oliver talvez tenha sido o ponto mais baixo dessa primeira temporada. Entendo a necessidade da construção da jornada do herói partindo da situação da vingança em direção à redenção. Mas, em muitos momentos vimos situações totalmente rocambolescas e desnecessárias. Tudo em prol do gancho para o próximo episódio. Se eu for comparar (e sendo muito malvado e pretensioso ao mesmo tempo), a primeira temporada de Arrow é parecida com a primeira de Breaking Bad. Difícil de engolir, lenta e cujas emoções se apresentam somente nos últimos episódios. A diferença? A primeira temporada de Breaking Bad teve 7 episódios… Arrow teve 23… Em Breaking Bad o episódio 1 e o 7 são muito bons… em Arrow o episódio 1 e 2 e o 22 e o 23 são muito bons. No meio? muitos fillers. Fillers demais que desestimularam muita gente.

Por outro lado, a série tem tantos fãs hoje porque soube desenvolver o protagonistas e seu elenco de apoio. Stephen Amell trouxe à tona um herói interessante e que a gente se importa. Os parceiros de Oliver Queen, Dig e Felicity Smoak se tornaram parte essencial da série. Queremos ver o que acontece com eles e torcemos e sofremos por eles. Malcolm Merlyn é construído como um vilão interessante e com uma motivação plausível. Apesar de insana, compreendemos que sua motivação vem de uma tristeza profunda no coração. Aliás, em comparação, suas motivações não são tão diferentes das de Oliver Queen.

Infelizmente existem pontos negativos no elenco de apoio. Thea Queen aparece como a irmã chata. E como a série é voltada a um público teen, o drama familiar e o triângulo (quadrado, pentágono, hexágono, decágono) amoroso é sempre presente. Não adianta chiar ou espernear porque estamos falando de uma série teen da CW. Coisa que muita gente se esquece e critica ferozmente nos blogs de seriados americanos da vida. Não curte? Abandona. A série não vai abandonar essa pegada porque é justamente ela que mantém o público-alvo colado na telinha semanalmente. A Laurel Lance é um porre? É. A Thea Queen merece uma passagem de ida sem volta para o Iraque? Com certeza (apesar de que ela melhorou e muito na terceira temporada). O par romântico de Oliver Queen é uma atriz muito sem sal. Nós não compramos o romance sofrido ou a carinha de gatinho do Shrek do Oliver querendo que ela seja feliz com o seu melhor amigo. Com tantas pretendentes mais interessantes na série, nunca torci pelo casal. Quanto à família Queen, ela era parte integrante do plot da primeira temporada. Vimos o esfacelamento da família ao longo de duas temporadas. E os momentos enjoados foram necessários; até o momento “Eu quero uma árvore de Natal” do Oliver. Fez-se necessário para a desconstrução do que significa família para o protagonista. Aliás, vimos que Oliver entende Dig e Felicity como sua verdadeira família. Dig age muitas vezes como um tutor, um professor sábio para um homem sedento de vingança.

Apesar dos vilões inócuos, vale destacar dois que se saíram muito bem: a Caçadora e o Pistoleiro. A Caçadora dava um par romântico muito bom para o personagem. Helena foi uma personagem interessante que mostrou como seria um Arqueiro Verde sem limites. Só achei que o treinamento dela foi muito rápido, mas entendi o dilema dos roteiristas. Era preciso montar essa comparação e para isso tiveram que apressar a criação da personagem. Sinto até que gostaria de ver a personagem mais vezes do que ela apareceu em toda a série até o momento. O Pistoleiro se mostrou um vilão fantástico. Um mercenário, ou seja, motivação mais simples do que essa é impossível. Ao mesmo tempo é um vilão perigoso e icônico dos quadrinhos. Trata-se até do primeiro personagem a integrar o Esquadrão Suicida que veremos em futuras temporadas. A ligação do Pistoleiro com o Dig deu mais profundidade a este personagem e uma motivação.

Mas, para mim, o que mais me chamou a atenção foi Slade Wilson. Desde o primeiro episódio o ator roubou a cena. Foi sim o professor de Oliver. Ensinou-o a ser um homem e a se responsabilizar por suas ações. A transformação do personagem é lenta e progressiva e vemos sendo construída uma forte ligação de amizade e cumplicidade entre os personagens. Vamos dizer que mal vi a hora do Exterminador aparecer fora dos flashbacks de Oliver. Demorou mais de uma temporada, mas apareceu. Os roteiristas foram geniais ao criarem um personagem que se tornou icônico para a série, fora a importância que ele tem para os quadrinhos.

Enfim, a primeira temporada é passível de críticas e muito. Teve muitos altos e baixos, mais baixos do que altos. Mas, Arrow é o tipo da série que é preciso sofrer um pouco para colher a bonança. E ela veio na forma da segunda temporada que discutiremos em outro momento.

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