Quantos de nós já sofreram bullying? Quantos de nós já praticaram bullying? É um tema absolutamente corriqueiro em nossas escolas. Aqueles que sofrem bullying, seja fisicamente, seja psicologicamente, desejam se vingar de seus agressores. O que, no início, começa como uma brincadeira, acaba se tornando um jogo de agressor e vítima onde o agressor se sente superior à sua vítima. Mesmo que essa superioridade venha de um ato de violência. Às vezes essa necessidade é proveniente de uma vida medíocre e que necessita de um ponto alto. Outras vezes é para ter uma desforra por abusos cometidos dentro de sua própria casa.

Carrie foi o primeiro romance de Stephen King a ser publicado por uma editora. E que começo para o mestre do horror! Uma obra que parece não envelhecer com o passar do tempo. Não à toa já tiveram três adaptações para o cinema. Das 3 só vi duas, sendo que a versão de 2001 foi a que eu mais gostei. A de 2013 ainda está na minha lista de o que ser visto nas férias. Por ser o primeiro romance, o livro apresenta características muito diferentes de outras histórias de King. Não tem aquele terror visceral, ou os elementos gore ou os vilões repulsivos. Aliás, King escreve no prefácio que escrever sobre adolescentes é assustador. Imagino como o high school americano (equivalente ao nosso ensino médio) possa ser assustador. Vários filmes fazem referência a essa como uma fase complicada na vida do jovem norte-americano. Essas referências ora geram filmes de terror, suspenses ou comédias.

Talvez o que faça Carrie ser tão icônico é o fato de tratar de pessoas comuns. Se tirarmos os poderes paranormais de Carrie White, todo o resto poderia ser encaixado em qualquer escola e em qualquer parte do mundo. É em Carrie que vemos a habilidade de King em puxar os elementos positivos e negativos que fazem do ser humano, um ser falho. E King quebra com os estereótipos típicos das histórias de high school. Susan Snell, a boa menina, aquela que ajuda, a responsável, também integra o grupo de agressoras de Carrie. Ela se arrepende posteriormente, mas suas ações são apenas para limpar a consciência. Seu namorado seria o típico jogador de football, forte, musculoso e mulherengo. Só que King o transforma justamente no oposto: um cara bacana e responsável que acaba compreendendo a situação vivida por Carrie.

A história é construído em estilo epistolar. Já havia comentado isso quando resenhei Drácula. Trata-se de uma história contada a partir de cartas, relatórios e notas de diário que nos ajudam a criar o último mês vivido por Carrie. King tenta criar uma atmosfera investigativa ao criar uma comissão para buscar os detalhes dos poderes emanados por Carrie. Até insinua a existência de outras pessoas como ela. Não sei se King volta no tema ou até se podemos considerar Danny Torrance de O Iluminado outras pessoa como Carrie. Faltam elementos para construir uma ligação entre as duas histórias, se é que existe uma.

A construção da mãe de Carrie mostra o talento que King tem ao apresentar indivíduos fundamentalistas lunáticos (Revival, o novo romance de King toca justamente nisso). Margaret é o extremo do fundamentalismo: muito recatada, disciplinadora. É o protótipo da solteirona sulista que frequenta a igreja aos domingos. Ao construir um lar repressor, King mostra que Carrie não tem só um ambiente agressivo na escola, como também em casa. E, principalmente, que todo ser humano tem um ponto de ruptura. Quando Carrie não tinha esperanças de que sua vida melhoraria, ela aceitava seu bullying. A esperança de algo melhor e de ver essa esperança cair por terra foi o ponto de ruptura. Ao não ter suporte da própria mãe que a considerava um demônio, Carrie se vê abandonada. Seu único consolo eram seus poderes telecinéticos. E aí King mostra sua genialidade: Carrie de vítima passa a agressora. Usa seus poderes para demonstrar uma superioridade e poder se vingar por tudo aquilo que sofreu. Porém, tudo isso provem de uma educação repressora e cuja mãe, muito religiosa, considerava sua filha a enviada do demônio.

Podemos destacar outros personagens como Chris Hargensen e Billy Nolan. Chris é a típica garota mimada e rica. King gosta de construir esses personagens fortes e emblemáticos. As cenas de sexo entre Chris e Billy servem para mostrar o tipo de mulher agressiva e manipuladora que ela é. É o estereótipo da vixen, da ninfa que atrai os homens com seus atributos. Para provar o seu poder dentro daquele pequeno universo que é o high school, ela precisa pisar nas mais fracas. É como se fosse a demonstração de uma cadeira alimentar em que ela formava o topo e todas abaixo dela buscassem tomar o seu lugar.

Carrie é um romance fantástico. Completamente atemporal. Como primeiro trabalho de um autor prolífico como Stephen King é a demonstração máxima de para o que ele veio. Mas, ao colocarmos frente a outras obras, vocês verão várias diferenças na escrita e na apresentação dos personagens. Mesmo assim, vale muito a pena a leitura.

Anúncios