Esta foi uma das surpresas de 2014, na minha opinião. Uma surpresa extremamente agradável, por sinal. A série caiu em um bom canal, a HBO, que não apenas oferece uma boa verba para a produção das séries como oferece liberdade criativa. A divulgação da série foi muito boa, sendo que em várias praças internacionais a divulgação foi feita. A HBO Brasil colocou uma série de outdoors em varias capitais brasileiras. Mesmo a série possuindo um tema meio obscuro (diante de outras séries que basta ler o título já são sucesso garantido), a divulgação forneceu uma boa aposta para que os telespectadores vissem ao menos o primeiro episódio.

O piloto foi muito bem construído. Apresentou bem o universo e os personagens e marcou o tom da série pelos próximos sete episódios. Penny dreadfuls eram pequenas histórias que antecederam os pulps e possuíam o mesmo propósito: histórias de terror que podiam ser compradas a um preço mais acessível. A série embarca nesse universo do terror e do sobrenatural para apresentar vários plots que tentam ser resolvidos ao longo da primeira temporada. Vanessa Ives é uma mulher misteriosa que possui o dom da leitura de cartas para prever um futuro próximo. Sua sensibilidade a torna suscetível a possessões de espíritos malignos. Vanessa possui uma estranha conexão com Sir Malcolm. Este é um lendário caçador e explorador que se aventurou algumas vezes pelas selvas africanas. Retornou a Londres para procurar sua filha, Mina, que caiu nas garras de uma poderosa criatura sobrenatural. Sir Malcolm abriga Vanessa em sua casa. Victor Frankenstein trabalha no necrotério de Londres. Sua extrema habilidade e genialidade em lidar com os mortos atrai a atenção de Sir Malcolm que vê nas habilidades forenses de Victor uma possível arma contra as forças ocultas. Mas, Victor é um cientista que busca desvendar os mistérios do controle sobre a degeneração celular. Almeja ainda ser capaz de trazer a vida de volta àqueles que morreram através das pesquisas sobre a galvanização. Porém, um erro mortal em sua pesquisa o persegue até os confins do mundo. Ethan é um artista de circo; um americano que atua em shows de tiro ao alvo até que é abordado por Sir Malcolm e Vanessa para ajudá-los em sua missão. É aí que Ethan será tragado para um mundo cruel e obscuro. Sua única luz será o envolvimento com Broena, uma jovem prostituta que ele conhece nas docas e que está acometida por tuberculose.

As histórias são várias. Se formos analisar friamente, a série irá frequentemente cair em alguns episódios ao ter que lidar com vários plots simultaneamente. O aparecimento de Dorian Grey na metade da temporada fornece mais plots a serem resolvidos. A série sofre de ter os dois primeiros episódios muito bons e os dois últimos variando do bom para o muito bom. Os episódios do meio tem uma qualidade duvidosa. Isso é uma tônica na maioria das séries americanas. Mesmo tendo um bom enredo, a constância pode fazer uma série derrapar. Isso porque os telespectadores precisam ter um motivo para ver o episódio da semana seguinte. Se o episódio que eu vejo é maçante, minha empolgação diminui. E em uma sequência de episódios ruins a tendência é sempre a de abandonar a mesma por algum outro programa mais interessante. Às vezes o telespectador volta; às vezes não.

O elenco é fenomenal. Timothy Dalton continua um ator fantástico. Sua interpretação de um personagens cujas motivações são dúbias é fantástica. Sir Malcolm não é um herói. Aliás, em uma conversa com Ethan ele diz que o grupo que ele estava formando era composto por monstros na forma de homens. Isso é totalmente verdade. Algumas de suas ações são dignas de um Drácula. Eva Green está maravilhosa. As cenas de suas possessões são assustadoras. Ela muda as feições e o tom de voz e nós realmente acreditamos que ela está possuída. Aliás, Vanessa Ives é uma personagem dificílima de ser feita. No episódio que conta a ligação entre Vanessa e Mina, pudemos ver o quanto a personagem passou por poucas e boas. E a Eva Green apresenta muito bem sua personagem atormentada. Alguns diálogos que ela tem com Dorian Grey mostram o esforço da atriz de passar essa imagem de uma flor delicada, porém obscura.

Harry Treadaway interpreta Victor Frankenstein cujo plot é o mais interessante desta primeira temporada. As interações entre ele e a criatura são bem fundamentadas e dá aquela noção dúbia de quem é o bom e quem é o mal na história. A criatura é um ser muito educado e delicado cuja concepção por seu criador o faz tentar ver o bem nas pessoas, mas só recebe e percebe o que há de pior. Todos o julgam pela sua aparência monstruosa e não percebem o ser belo no fundo de seu coração. Por outro lado, existe uma criatura vil e vingativa que não é capaz de conter os seus sentimentos de angústia. E Victor, seu criador, torna-se o objeto máximo de sua vingança e, quem sabe, o fim de sua miserável vida. O ator passa muito bem a noção de que ele quer ser um deus e quer ser capaz de manipular a vida e a morte. A frieza mecânica de seu caráter é mais monstruoso do que a própria Criatura. Achei desnecessário forçar uma ligação de seu plot com o enredo central da primeira temporada.

O protagonista, interpretado por Josh Harnett, é o menos interessante do grupo. Sua interpretação não é ruim. Mas, a história dele com Broena não me convenceu de nada. Muito pelo contrário: eu queria que a Billie Piper morresse logo ou virasse vampira para dar uma esquentada na história. Ela morreu, logo, um alívio. Porém, o episódio em que ele interagiu com Dorian Grey foi muito interessante. Parecia a relação entre um pai e um filho, com elementos sexuais no meio. Reeve Carney captou bem a essência do imortal: curioso, mas que perde a utilidade rapidamente nas coisas. Seus olhos transparecem aquela noção de alguém que viveu por muito tempo. Ele enxerga as pessoas como brinquedos e sua própria fala passa essa sensação.

Enfim, Penny Dreadful é uma excelente série. A qualidade da ambientação, o elenco estelar e a trilha sonora super competente mostram aquela qualidade HBO que estamos acostumados a ver. Foi renovada para uma segunda temporada da qual aguardo ansiosamente.

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