Já fazia algum tempo que eu não comentava sobre séries. Não gosto de eu fazer reviews semanais sobre séries. Prefiro comentá-las em uma abordagem mais macro. Ou seja, prefiro abordar a temporada inteira, destacando pontos fortes e fracos da mesma. Se os leitores quiserem reviews semanais, recomendo excelentes sites sobre séries como o Seriemaniacos ou o Viciados em Séries.

Eu gosto de Ressurrection. Mas, admito ser muito difícil ver a série algumas vezes. Concordo com muitos críticos que destacam a sonolência e a morosidade da série. Ela é assim… e, tenho uma má notícia a vocês: ela não vai mudar. Essa é a característica-base da série. Acho que a ABC não é o melhor canal para ela ser transmitida. Se encaixaria melhor em um Showtime, uma HBO ou uma AMC onde índices de audiência não são o principal. E acredito piamente que a série não chegará a uma terceira temporada dada a ausência de um público mais cativo.

Ainda não li o livro de onde a série se baseou. Para quem se interessar, esta é a tradução feita pela Editora Verus.

A série começa com o menino Jacob acordando em um descampado na China. Ele é deportado e o detetive Bellamy do Departamento de Imigração se encarrega de levar o menino até os seus pais na pacata cidade de Arcádia. Quando ele encontra a família descobre que o menino morreu a 27 anos atrás afogado. Suas investigações sobre o estranho fenômeno levam com que ele fique na cidade. Com o passar do tempo outros “Retornados”, como eles passam a ser chamados, chegam à Arcádia. Alguns mortos recentes e alguns do início do século. E aí a trama se complica.

Jason Mott escreve uma história introspectiva. Não se trata aqui de zumbis devoradores de gente ou de mortos-vivos apossados pelo demônio que nos levam à perdição ou encaminham o apocalipse. Ressurrection é uma história sobre pessoas e sobre o significado da vida. É uma bela história. As interações entre os pais de Jacob e o menino são tocantes. O policial Rudy, com toda a sua truculência, mas o seu bom coração, mostram esse lado sensível da história. O agente Bellamy funciona como nós na história. É o nosso ponto de vista diante de acontecimentos tão assustadores.

Os questionamentos sobre Deus e o nosso papel nesse mundo são dignos de uma boa história de Stephen King. Aliás, a multidão violenta na Igreja no episódio 6 da primeira temporada me lembrou bastante Sob a Redoma. Os personagens tem sua fé questionada, já que aprenderam a viver de uma forma e, de repente, leis que pareciam inquebráveis, são rompidas. Mott nos coloca diante do medo do desconhecido, aquele terrível medo que nos faz tomar atitudes reprováveis. A cena do homem torturando a retornada grávida na cabana de caçador nos ilustra isso. Os amigos deles questionam as ações do homem, dizendo que ele estaria cometendo assassinato. Ele se vira e responde que aquilo não era um ser humano.

Desumanizar alguém é algo muito forte. Parece que voltaram a tocar no mesmo tema nesta atual temporada. O surgimento de uma facção de “cidadãos preocupados” faz com que acreditemos que a violência escale ao longo da temporada. Entretanto, a série não é violenta. Insisto que a série é introspectiva. A própria trilha sonora (sonolenta…) causa esse efeito no telespectador.

Os personagens são bacanas na série. Gosto da família do menino Jacob, gosto das interações entre Rudy e Maggie, gosto até do pastor e sua mulher bipolar. O Omar Epps, ator que interpreta o detetive Bellamy, continua com os mesmos problemas de quando ele participava da série do House. O personagem é interessante e até deram um arco de desenvolvimento para ele. Mas, sua interpretação continua sendo péssima. Não me importo com ele e não tenho a menor pena de ele morrer no fim do seriado. Pode ver a luz, filho…

Se o nosso ponto de entrada na série é um ator que não consegue fazer a curiosidade surgir em nós, como a série se sustenta? Mesmo a vovó Margaret sendo uma personagem interessante e dando aquela pitada de mistério na série, o protagonista tem que ser uma pessoa que sustente a série. Seja um cara que se atire de prédio em prédio, um superdetetive forense, um médico mal-humorado, um vampiro com crise de identidade ou um velocista, o protagonista é a nossa referência. E o elenco de apoio da série não é tão sólido assim para sustentar a série por si só.

Outra reclamação pertinente é que alguns personagens desaparecem por alguns episódios e retornam meio por mágica. Assim foi com o Ray e depois com o Carl, que tiveram seus arcos interessantes e de construção dos mesmos para ficarem desaparecidos. Carl desapareceu por uns 3 episódios… Ray foi um caso mais grave: 8 episódios. O que eles estavam fazendo? O que comiam? Quem eram? Qual o seu habitat natural? Eu estou brincando, mas em uma série sobre pessoas, estas não podem desaparecer e reaparecer inexplicavelmente. Mesmo que eles apenas estejam no fundo acenando, ou dando bom dia ou dizendo ok, eles precisam aparecer de certa forma. Em um livro, a gente consegue esconder esse tipo de situações; em uma série televisiva, isso não passa desapercebido.

Ainda assim, todas as semanas venho para o meu doce pecado de assistir Ressurrection. Sempre torcendo para que a série melhore de qualidade e que eu possa ao menos ver o desfecho da mesma.

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