Nos últimos tempos vivemos em uma sociedade dinâmica. A vida passa em segundos. Contamos os minutos para realizar nossas tarefas. Aliás, somos avaliados sobre como somos eficientes ao utilizar satisfatoriamente o tempo que dispomos diariamente. É a filosofia do “Tempo é Dinheiro” que domina o mundo. A leitura é uma atividade que geralmente realizamos nos nossos parcos momentos de lazer. Não estou incluindo aqui a leitura para estudo ou a leitura para trabalho. Ler um bom livro compõe os nossos momentos no ônibus ou durante um engarrafamento.

Diante de um mercado editorial repleto de lançamentos todos os meses, raramente fazemos uma releitura. Isso porque o novo habita o âmago do nosso ser: consumir o novo que está ali à nossa espera. É o que algumas pessoas chamam de “fixação pelo novo” ou “febre do novo”. Salvo aqueles que possuem muita velocidade de leitura, poucos são aqueles que conseguem acompanhar a febre do novo.

E aí retorno para a minha pergunta: por que reler um livro? Rebato essa pergunta com outra: será que lemos um livro tão bem assim? Será que as possibilidades de uma dita obra estão completamente esgotadas ao terminarmos sua leitura? Não digo que devemos reler dez vezes todos os livros que temos em nossa estante até porque não somos eternos. O que eu quero dizer é que muitas vezes ao lermos rápido não conseguimos captar o que o autor quer dizer em sua obra. Muitas vezes descartamos ou desconsideramos uma obra porque não conseguimos atravessar o mundo apresentado pelo autor. Não conseguimos entender os meandros do seu pensamento. Às vezes com a releitura podemos tentar entender melhor aquilo que está sendo dito.

Mas, a releitura é um processo diferente de uma leitura. Se lemos na correria do dia-a-dia, a releitura não pode ser feita da mesma forma. Ela precisa ser calma, ponderada e metódica. Se sentimos dificuldade na primeira vez, utilizar o mesmo procedimento em uma segunda vez é repetir o erro. Uma releitura é lenta por natureza. Porque iremos esbarrar nos obstáculos e cabe ao leitor tentar atravessar esse obstáculo por si só. Se ele é intransponível, aí é algo que incorrerá em uma nova releitura em algum momento no futuro.

Geralmente eu releio obras muito tempo depois. Normalmente levo meses ou até anos até pegar em um livro que tenha me gerado dúvidas ou tenha me desagradado por algum motivo. Assim como em todas as atividades da vida, ler é uma habilidade que pode ser aprimorada. E ela nos fornece bagagem que levamos para outras leituras. Dessa forma, um leitor que iniciou sua atividade aos 15 anos será um leitor diferente aos 17 anos. Toda a experiência de leituras é levada para novas obras, seja de forma analítica ou de forma comparativa. O que quero dizer com isso? Oras, é óbvio que iremos traçar comparativos. Esse livro é melhor do que aquele; esta história teve um final mais maneiro do que a outra. Traçamos comparativos o tempo todo.

Às vezes até certos mecanismos literários ou plot twists serão recorrentes. Reconheceremos estes mecanismos em outras histórias. Isso é comum porque os autores tiram suas inspirações de algum lugar. É inevitável que um autor diga que seus ídolos são um Tolkien, um Gabriel Garcia Marquez, um Vladimir Nabokov ou um Stephen King. Toda inspiração é construída a partir de um conjunto de ideias que se concatenam para produzir um universo. E quanto mais lemos, mais vamos nos acostumando com esses “vícios” (entendam vícios como algo positivo) literários. Não é possível escapar disso.

Outra razão para fazermos uma releitura é simplesmente pelo nível de beleza de certas obras literárias. Eu adoro Tolkien. Assim como muitos leitores de fantasia. Sua escrita é uma obra de arte. E uma obra de arte pode ser vista de mil maneiras diferentes, despertando todo um universo de reações diferentes. Ler uma obra destas é sempre algo prazeroso. Não importa se eu estou vendo a Sociedade do Anel chegar a Lórien pela centésima vez. Eu vou sempre me emocionar e me divertir com as aventuras de Frodo. Ou de ver as interações entre Bilbo e Gandalf em o Hobbit.

Estou citando Tolkien, mas isso pode ser aplicado a várias obras clássicas. Aliás, um clássico para mim pode não ser um clássico para você, meu caro leitor. Para mim, uma obra maravilhosa pode ser uma chatice. É tudo questão de ponto de vista.

O meu objetivo com esta postagem é incentivar a todos que possamos gastar uma hora de nossas vidas para desligar o botão do dinamismo e apertarmos o botão do ócio criativo. Sair um pouco desta auto-estrada que é o mundo globalizado. Relermos livros maravilhosos e nos regozijarmos de termos feito tal coisa. Podermos comentar com outros colegas leitores o quão bacana foi redescobrir um livro que você considerava chato a até poucas semanas atrás.

Afinal, ler nunca é demais. Reler então é magnífico.

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