O que é o medo? Temos medo do que desconhecemos ou de o que não podemos enfrentar? Nem sempre o medo vem travestido de um monstro terrível com garras e chifres, mas como uma pessoa igual a cada um de nós. Pode ser eu, você, seu vizinho, seu melhor amigo. Não importa. A verdade é que nunca sabemos tudo sobre a personalidade de uma pessoa. Existe sempre aquele pequeno lado obscuro que existe no fundo de nossos corações. Quando desejamos pegar o banco ao lado da janela no ônibus e uma pessoa se senta lá, desejamos que ela saia dali a qualquer custo; quando chegamos ao banco e vemos uma longa fila, desejamos que um raio caia na cabeça de todos; ou quando estamos em um engarrafamento e desejamos passar por cima de todos.

Esse conto é uma história de vingança. Não existem forças demoníacas ou fantasmas nessa história. São apenas dois homens, sendo que um deles quer destruir com o maldito sujeito que pegou sua mulher. Mas, antes ele quer se divertir um pouquinho. E, para isso, ele atrai o sujeito até o seu apartamento e lhe faz uma proposta simples: se ele conseguir der a volta no prédio se equilibrando no ressalto do edifício, ele pode fugir com a mulher e 20.000 dólares. Não existe uma pegadinha (ou será que existe?); apenas deve dar a volta pelo ressalto. E a partir daí temos as horas mais angustiantes de uma história de ficção.

A ambientação é simples e não precisa ser muito desenvolvida. As motivações dos personagens também são simples. Algumas partes da história nos deixam tensos: a parte em que o pombo começa a bicar as pernas do protagonista é o momento gore do conto. King tinha que incluir um momento desses, hein? Dá agonia ver a descrição do maldito pombo. Essa é uma daquelas cenas igual àquela em que um gancho é passada no quadro-negro. Só de imaginar já nos deixa nervosos. Não vou dar spoilers já que a história é pequena, mas ela vale muito a pena.

Mais uma vez, King se mostra um mestre em traçar perfis totalmente verossímeis de pessoas. Talvez o que nos amedronte no conte é a total e completa ausência de um terror sobrenatural. Não há nada disso; tudo é real. O antagonista é só um criminoso filho da mãe que você poderia cruzar em qualquer lugar. Talvez um marido agressivo que não dava atenção devida à sua esposa. Ou aquele cara sacana que fica no bar fumando um cigarro e xingando a esposa, mas não quer que ela o traia de jeito nenhum.

Outro ponto que vale destacar é que o protagonista também não é o protótipo de mocinho (ou de herói). É só um professor de golfe que traçou a mulher do cara cheio da grana. Nem se deu conta de quem era o marido; apenas aproveitou a oportunidade de pegar uma mulher. No fim da história, ele também toma decisões questionáveis para aquilo que acreditamos ser o protótipo de um herói. Achei a história mediana, mas após ter lido Dança Macabra, pude entender um pouco de como funciona as engrenagens por trás da mente do autor.

Anúncios