Acho que poucas pessoas se lembram de um filme da década de 80 chamado The Mangler. Era uma época mágica, a década de 80. Regada a filmes bizarros como Palhaços Assassinos, A Bolha Assassina, Invasores de Corpos, A Coisa. Então, The Mangler passou como mais um filme gore, ou seja, repleto de cenas bizarras com muito derramamento de sangue e defeitos especiais. Poucos se lembram ou sabem que The Mangler é um conto escrito pelo mestre do terror, Stephen King.

Mais um dos diversos contos que compõem Sombras da Noite. Estou resenhando vários dessa obra em especial porque terminei de lê-lo a pouco tempo, portanto, as informações estão frescas na memória. E também porque, volto ao raciocínio, estamos muito acostumados a obras extensas, trilogias, decalogias, etc. Esquecemos de apreciar a magia e a qualidade das histórias curtas. Falo isso porque tenho alguns alunos do meu clube da leitura que torcem o nariz quando recomendo um conjunto de contos do Edgar Allan Poe ou um Machado de Assis. É uma pena. Escrever uma história longa é um desafio diferente daquele apresentado em uma história curta. O autor precisa apelar para a imaginação do leitor sem perder a concatenação de ideias e a coerência da história.

The Mangler é um conto na medida certa. Os especialistas em literatura podem confirmar isso, mas eu acredito que a história passe um pouquinho da quantidade de palavras necessárias para compor um conto. Isso porque ele é um pouco maior do que outros presentes na coletânea.

Na história, um policial investiga uma série de estranhas mortes ocorridas em uma lavanderia (?). Todas as mortes ocorrem próximas a uma máquina de passar roupa que passa uma estranha sensação ao policial. A partir daí, ele se envolve em um estranho mundo de raiva, ressentimento e poderes ocultos.

Em alguns momentos, eu senti que o King forçou um pouco a barra. Como um policial cético rapidamente passa a crer que forças ocultas estão por trás das mortes? Mesmo que o cunhado o tenha deixado com a pulga atrás da orelha, existe uma imensa diferença entre desconfiar e procurar uma cópia do Necronomicon. Tudo bem… esqueçamos isso. A história é curta e não é possível explicar tudo.

Gostei do andamento da história. King consegue realmente dar aquela sensação de medo e apreensão. Um dos momentos mais tensos acontecem no final quando o policial e seu cunhado entram na lavanderia para solucionar o problema (não quero dar muitos spoilers). Cada passo dado pelos personagens é de nos deixar de cabelos em pé. Os ruídos, os cheiros, as sensações, tudo ajuda a criar o clima de suspense dado por uma empreitada suicida dos personagens.

Senti que a história tem um estilo meio lovecraftiano. Senti a presença do escritor por trás da inspiração de King. Percebi várias semelhanças entre The Mangler e Um Sussurro nas Trevas. A busca por explicações contra as forças malignas presentes na história e até os assassinatos lembram muito Lovecraft. Até mesmo o final em que não há um final feliz é bem típico de suas histórias. Achei a escrita um pouco diferente do padrão do próprio King e isso foi uma sensação refrescante. Demonstrou a habilidade que ele tem em alterar o seu próprio estilo em prol de uma boa história. Não é dos melhores contos da coletânea (Filhos do Milharal tem uma qualidade absurda), mas é uma história muito boa. Vale a pena para os fãs do autor.

Me lembrei também de uma afirmação dada por King em Dança Macabra (um livro onde King comenta sobre a história do terror no século XX): o terror precisa nos incomodar, nos fazer sair do lugar comum. E é isso o que essa história faz. É uma história que incomoda, que faz você ter espasmos de agonia quando as pessoas são assassinadas. O gore realmente incomoda e esse é um dos elementos que me fez gostar de The Mangler.

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