Quando fiz minha resenha sobre Fundação de Isaac Asimov me perguntei em vários momentos se deveria trabalhar com todas as ideias expostas pelo autor na trama. Essas ideias talvez sejam o maior atrativo da obra. Asimov baseou Fundação em um livro publicado no século XVIII por Edward Gibbon chamado A História da Ascensão e Queda do Império Romano. Trata-se de uma obra monumental que visava traçar as origens dos diversos povos europeus ligando-os à glória do Império Romano.

Certamente que Fundação traça muitos paralelos com esta obra. Mas, não vi como estes paralelos pudessem influenciar positivamente ou negativamente na minha análise da obra. Sim, é genial… Mas, outros autores também fizeram de seus mundos literários verdadeiras obras-primas. Por isso, decidi não incluir essas referências na análise e fazer um post específico para falar do assunto. Aqui abordarei algumas destas ideias da melhor maneira que eu puder. Provavelmente não falarei de todas, mas buscarei falar das principais.

ATENÇÃO: CONTEM SPOILERS… MUITOS SPOILERS… LEIA COM NOÇÃO DE PERIGO DE ESTRAGAR AS SURPRESAS QUE A HISTÓRIA LHE PROPORCIONA.

1) A Queda do Império Romano

A primeira e principal ideia é a da queda do Império Romano. O Império Galático caiu por causa de sua grande extensão e pela preguiça e imobilidade de sua elite. Fácil de ligarmos isso ao próprio Império Romano que caiu no ano de 476 d.C. pelos ostrogodos liderados por Odoacro. Aliás, Hari Seldon prevê a queda do Império Galático para um período por volta de 500 anos.

Achei que o Asimov não deu muita bola para as invasões germânicas apontadas por Gibbon na obra supra-citada. Os germanos foram os principais responsáveis pela queda do Império Romano. Estou na leitura de Limites da Fundação, quarto volume da obra de Asimov e ele agora parece citar sutilmente o fato de que bárbaros teriam invadido Trantor, capital do Império. Mas não fornece muitos detalhes a respeito do ocorrido. E, para um autor tão preocupado com a construção do mundo, isso não passa despercebido.

Outro detalhe interessante é que o líder de Trantor havia sido elevado a um status de quase um deus. Muito parecido com os últimos imperadores romanos.

2) Acumulação de conhecimentos

Após a queda do Império Galático, o mundo de Terminus serviu para a origem da Fundação. Este seria um lugar onde futuramente surgiria o Segundo Império daqui a mil anos. Os habitantes de Terminus ficaram incumbidos de criar uma Enciclopédia Galática que conteria todo o conhecimento da humanidade. Ao mesmo tempo, Terminus acabou acumulando todo o conhecimento com a queda de Trantor. Eles controlavam a maneira como o conhecimento deveria ser difundido pelos mundos que sobraram.

Essa postura é típica da Igreja durante a Idade Média. Ela agiu como um funil para todo o conhecimento. Eram os tradutores das antigas obras greco-romanas que sobreviveram às invasões germânicas. Todo e qualquer tipo de tecnologia que ferisse as doutrinas cristãs era considerada herética. Terminus agiu dessa maneira com seus vizinhos estelares. Proibiu a difusão de tecnologias que pudessem prejudicar os projetos da Fundação.

3) Aparição de pequenos reinos

Com o enfraquecimento da capital do Império, surgem pequenos reinos como Anacreon e Kalgan que possuem seu próprio governante que não segue inteiramente as ordens do imperador galático. Esses são o que podemos entender como os reinos bárbaros. Porém, eles em nenhum momento atacam diretamente Trantor. Apenas ignoram ou recebem muito tardiamente as instruções do imperador. Quando Salvor Hardin precisa lidar com os homens de Anacreon ele percebe as reais fraquezas do Império.

Com o enfraquecimento de Roma, os reinos germânicos se espalham pela extensão do Império. São feitas concessões a algumas comunidades germânicas como os francos, os burgúndios e os visigodos. Isso, no fim, ocasionou um fortalecimento dessas comunidades que pediam mais e mais do Senado romano. Chegou um momento em que o Imperador romano dependia demais dessas comunidades. Também havia a necessidade de lidar com as rivalidades entre essas comunidades, coisa que Salvor Hardin, na obra de Asimov, sabe explorar com maestria.

4) Teocracia

Em determinado momento da história da Fundação, seus membros decidiram que era necessário explorar o medo dos membros dos países vizinhos. Isso porque a tecnologia detida pela Fundação era muito superior àquela detida por Anacreon ou Kalgan. Então eles usaram a noção de que esse poder vinha de uma Força Galática que regia as suas vidas. Através de rituais e o uso de poderes “mágicos” eles conseguiam controlar as populações vizinhas.

Aqui podemos usar duas comparações. A primeira é com a noção de teocracia, ou seja, o do governo da religião sobre os homens. Explorar os medos e a fé das pessoas foi algo comum durante a Idade Média. A Igreja governou com punho de ferro a vida das pessoas e chegou em alguns momentos a exercer um poder temporal, ou seja, o ato de governar como um príncipe ou um rei. Abandonou a diocese para influenciar o mundo.

A segunda comparação para mim é a mais forte e talvez Asimov tenha posto isso de forma inconsciente. É a maneira como os europeus os povos nativos do Novo Mundo usando sua tecnologia superior. Por exemplo, os maias acreditavam que os espanhóis eram centauros, homens com corpo de cavalo. Isso porque eles nunca haviam visto um homem montado em um cavalo. Aliás, muitos historiadores acreditam que eles nunca haviam visto um cavalo. Ou um indígena brasileiro que agora era capaz de visualizar seu próprio rosto em uma superfície reflexiva. Ou incas que eram atacados por explosões de pólvora que eles acreditavam ser provenientes de poderes mágicos. Essa era a relação dos habitantes de Terminus com seus vizinhos. Vemos isso claramente antes da ascensão de Hober Mallow.

5) As Grandes Navegações

E aí vem Hober Mallow e os príncipes mercadores. Em um determinado momento, Terminus precisava aumentar sua extensão e encontrar novos parceiros comerciais. Para isso, eles precisavam explorar o desconhecido que era temido por seus habitantes. Eles tinham medo de se deparar com as sobras do Império Galático, que era o monstro desconhecido que fazia com que os europeus se afastassem do Oceano Atlântico.

Foi preciso que desbravadores se lançassem ao desconhecido para descobrir novas rotas e novos mercados. Os europeus também precisavam descobrir novas rotas já que a cidade de Constantinopla havia sido tomada pelos muçulmanos. Era preciso descobrir uma nova maneira de chegar ao Oriente para adquirir as especiarias. Portanto, era uma necessidade inegável para estes homens.

Por enquanto é só. Posteriormente eu irei apresentar mais algumas ideias desta obra que é riquíssima em detalhes e comparações com o mundo em que vivemos.

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