Sou um pouco suspeito para falar de Stephen King. É um dos meus autores favoritos. King é uma máquina de produzir histórias. Dificilmente temos um autor tão prolífico como ele. Deixo para falar da sua proficuidade em outra postagem. Hoje queria me dedicar a King e seus contos.

Fazer uma resenha sobre um conto nem sempre é uma tarefa simples. Muitas vezes por causa da quantidade de palavras exigidas pelas editoras ou pelo tamanho do mesmo, nem sempre o autor consegue passar todas as ideias que deseja. Considero Stephen King uma exceção. Sem dúvida alguma seus romances de terror são muito bons (apesar de certas bizarrices como The Tommyknockers), mas é em seus contos que conseguimos visualizar a habilidade de King em apresentar um cenário de terror.

Para uma história ser boa, ela não precisa ter dezenas de personagens ou centenas de páginas: basta coesão e coerência. Edgar Allan Poe é um dos autores mais famosos de terror do século XIX e não publicou nenhum romance longo. Lovecraft é reverenciado pela história “O Chamado de Cthulhu” que é um conto.

Filhos do Milharal é o conto que inspirou o filme Colheita Maldita. Na história um casal está perdido no meio de uma estrada no interior dos EUA. Após errarem a rota atropelam uma criança saída de um milharal. Quando tentam levar a criança até um hospital na cidade mais próxima se vêem diante de um terrível segredo escondido na igreja daquela cidade.

No conto, boa parte da ação se passa com o casal explorando um lugar desolado do interior. Entre discussões, eles percebem que a cidade passa uma aura estranha de morte. Apesar desse pressentimento, a curiosidade em saber o que se passa no lugar impele os personagens. Chega a ser incrível que, em uma história de quase 40 páginas (na minha pequena edição de bolso da Suma de Letras), mais de dois terços da história se passa apenas envolvendo os dois personagens e a estranha cidade. Não há outros personagens presentes. Os diálogos se desenrolam apenas entre o casal. O que poderia parecer uma história monótona, se torna aterrorizante justamente pela ausência de outras pessoas com quem os personagens interagiriam. A própria cidade parece ser um organismo vivo. Cada cheiro, cada som e cada sensação nos convocam a olhar para os lados antes de realizar qualquer ação. Nos sentimos inseguros durante a história e parece que sabemos que a morte espreita ao lado.

Filhos do Milharal poderia dar origem a um romance, mas eu continuo apreciando a história do jeito que ela é. King contou sua história na medida certa. Parece até aquelas cenas de série americana em quem uma pessoa está em frente a uma fogueira contando uma história aterrorizante a seus amigos.

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