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Preciso confessar duas coisas: a) esta é a primeira obra de uma autora latina que eu leio; e b) não sou muito fã de romances. Mesmo eu não gostando do gênero, confesso também que apreciei muito a leitura.

Falar sobre o que trata o livro é um pouco difícil. Não é sobre o amor proibido entre Tita e Pedro. Não é uma crítica aos costumes tradicionais da sociedade mexicana durante o período revolucionário. Tampouco é um livro de receitas. O livro dá uma dica nas suas páginas finais: “os segredos da vida e do amor através da cozinha.”

Laura Esquivel utiliza-se largamente de metáforas culinárias ao longo da obra para expressar sentimentos ou ações dos personagens. O choro de Tita ao cortar cebolas produzindo rios de lágrimas, o cozimento de uma nogada representando o casamento de Alex e Esperanza ou a briga de galinhas que produziu um furacão que arrastou as galinhas para os confins do mundo. Esse último representava a relação entre Tita e Rosaura.

A história se passa no norte do México durante a Revolução Mexicana. Alguns detalhes sobre o cenário aparecem, mas eles não são fundamentais para a história. Exceções ocorrem em dois momentos: quando revolucionários invadem o rancho onde Tita vivia e o casamento de Gertrudes com um capitão do exército revolucionário. 

A todo o momento vemos um conflito entre tradição e livre-arbítrio. Tita está presa à Mamãe Elena por causa de uma tradição de família. Ela não podia casar por ser a mais nova da família; precisava viver ao lado da mãe até sua morte.  Seu grande amor, Pedro, casou-se com a irmã do meio, Rosaura, apenas para viver próximo de Tita. A protagonista age de forma submissa por boa parte da história, sempre procurando atender às expectativas de sua mãe. Quando ela percebe que atender às expectativas não a levará a lugar algum, ela tem um colapso. 

Esse artifício da autora é recorrente em romances. O personagem precisa “morrer” ou “desaparecer” para poder “renascer”  com novos valores. É na segunda metade da história que Tita precisa lidar com um novo dilema: casar com Pedro, o amor de sua vida ou com John que cuidou dela quando precisou. É a famosa escolha entre a razão (John) ou o sentimento (Pedro) comum em romances de Jane Austen.

A história apresenta momentos tórridos como quando Gertrudes corre nua pelos campos enquanto tem uma relação sexual com Juan em cima de um cavalo, ou os olhares  nada discretos de Pedro em direção aos seios de Tita. A autora usa a metáfora dos corpos em chamas quando os personagens estão excitados. É um contraponto ao frio sentido por Tita quando está distante de Pedro. Existe uma leve referência mitológica na história. Tita é associada à deusa romana Ceres, que personifica a agricultura e a alimentação. Ceres é a equivalente romana da deusa Demeter que também tem atributos sexuais. Talvez por causa dessa associação, Tita aparece frequentemente lidando com grãos ou fazendo uso de plantas para fins medicinais.

No geral, “Como água para chocolate” é uma história gostosa de ser lida. Um romance no tamanho adequado, sem ser muito arrastado. Quando eu comecei a me chatear com a história, ela terminou. Ou seja, não sofre de problemas com o timing da história. Os personagens cumprem o seu papel. Aos principais como Tita, Mamãe Elena, Pedro e Rosaura é dado um bom espaço para suas personalidades serem apresentadas. Aos coadjuvantes é dado o tempo necessário para compreendermos as suas motivações. As metáforas culinárias são interessantes e acabam por deixar a história mais interessante e imprevisível. A autora soube usar muito bem este artifício. 

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