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Em primeiro lugar, um feliz natal a todos os visitantes do blog. Antes de seguir adiante nas discussões sobre a literatura pulp, gostaria de dar um passo atrás e falar um pouco sobre a ciência vista por autores como Edgar Allan Poe e Agatha Christie. Digo isso porque muito do que vemos hoje em séries como CSI e outros procedurais nesse estilo de investigação, seguem um pouco desse padrão. Eu chamaria de uma retórica da ciência, uma explicação das coisas de forma a fornecer ao leitor uma explicação plausível acerca do que acontece na história. Desde H.G. Wells e Edgar Allan Poe, isso acabou por se tornar padrão: é preciso dar ao leitor a sensação de verossimilhança, de realismo naquilo que está sendo lido.

A retórica da ciência é muito importante para os contos de horror e de mistério. Na retórica da ciência: 

a) uso frequente da voz passiva;

b) emprego de construções latinas

c) emprego de números para oferecer precisão ao que está sendo dito

d) nesses contos, evitam-se as emoções e a subjetividade

Nos contos de terror, se não sabemos quem ou o que nos ameaça, temos que duvidar de nossa própria sanidade. Edgar Allan Poe sabia como utilizar essa retórica da ciência, embora seu contemporânea, Nathaniel Hawthorne não fosse capaz de fazê-lo. Essas quatro características estão sempre presentes nestes contos de mistério de finais do século XIX e início do XX. Vejam como Arthur Conan Doyle deu a fama a Sherlock Holmes ao torná-lo extremamente preciso. Holmes sempre sabia a exata quantidade de clorofórmio usada para nocautear uma vítima. Ou o tempo preciso necessário para carregar um corpo de seu local de morte até o lugar onde foi encontrado. Conan Doyle nunca usava números exatos; sempre números quebrados ou estatísticas precisas de forma a construir a noção de realismo em seus contos.

Os cientistas de Poe e Conan Doyle são sempre calmos, frios e precisos. Já em Hawthorne, apesar do autor gostar deciência, escrevia em uma espécie de retórica romântica. O narrador de seus livros sempre usa um discurso subjetivo, colocando suas impressões sobre os fenômenos, mas não quantificando as coisas e tornando o discurso muito pessoa. Já Conan Doyle preferia a precisão, o emprego de jargões técnicos. Holmes era sempre um personagem objetivo, deixando suas emoções de lado para analisar cuidadosamente o que estava ocorrendo em seus casos. 

Poe também escreve de forma romântica. Na Queda da Casa de Usher ele escreve de forma parecida a Hawthorne. Mas, quando vemos os seus contos de ficção (mesmo os de ficção científica, embora poucos em quantidade) ele usa a retórica da ciência. Em Os Fatos do Caso de Mr. Valdemar, ele usa uma construção latina, cálculos precisos sobre a morte de Mr. Valdemar e um discurso frio e objetivo. Nesta história, os cálculos feitos pelo médico são extremamente importantes para o clima da história. Mas, existe algo escondido na história.

Como o médico sabia que Mr. Valdemar iria morrer exatamente no domingo e precisamente às 00:00 com 39 horas de antecedência? As regras aqui funcionam perfeitamente de acordo com o desejo do autor. Esse tipo de ideia. de que as regras funcionam exatamente como desejado, pertence ao domínio dos contos de fada. Como falamos em postagens anteriores, o autor de um conto de fada possui total controle sobre as regras que regem a física do mundo. Mesmo algo absurdo pode ser realizado se estiver de acordo com a vontade do autor. O exemplo mais claro dessa distorção da física do universo está presente em Alice no País das Maravilhas. Neste lugar, Lewis Carroll não se preocupou em explicar porque Alice podia crescer ou diminuir bebendo uma poção. Ou porque coelhos ficam preocupados com as horas. Se podemos ser mais ousados, não seria possível pensar que contos de ficção científica empregam regras de histórias de contos de fada?

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