ImagemOs pulps tiveram muita influência na criação de histórias de ficção científica. A própria saga de John Carter é um imenso pulp que se passa no mundo de Barsoom (o planeta Marte). Toda a “Era de Ouro” da ficção científica, entre as décadas de  40 a 70 teve uma influência menor ou maior desse estilo. E um dos principais expoentes dessa “era de ouro” foi Philip Jose Farmer. Ele foi o responsável pela criação de várias sagas que se passavam dentro de um mesmo universo, dentre elas uma conhecida como “O Mundo de Tiers”. Esta saga é composta por uma trilogia da qual o primeiro livro é “O Construtor de Universos”, escrito em 1965.

O livro tem o tom de uma literatura pulp. Escrita ágil, pouca preocupação em detalhar a física do universos e feitos heroicos inverossímeis mesmo para o padrão do universo em que foi ambientado. O personagem principal é um homem cansado de sua vida chata e desprovida de emoções. Wolff revela-se um homem comum, obeso, calvo, no fim de sua vida casado com uma mulher a quem se uniu para não estar sozinho. Quando ele vai a uma casa e encontra uma trombeta em um porão velho, ele aciona um portal que o leva a outro mundo onde pode viver mil aventuras. O protagonista vai, então, se encontrar com vários tipos de personagens como sereias, centauros, traficantes de escravos, cavaleiros teutônicos e deuses loucos.

Existem muitas semelhanças entre “O Construtor de Universos” e “Uma Princesa de Marte”. O protagonista é um homem simples, muitas vezes um veterano que busca se reencontrar ou se redimir. No mundo alternativo para onde é lançado, adquire alguma vantagem ou super-poder que lhe fornece uma ampla capacidade para lidar com os obstáculos. No livro de Farmer, Wolff adquire forma física invejável ao viver em um ambiente hostil, rejuvenesce não se sabe como (o autor não é explícito nesse aspecto) e adquire super-força (essa sim de acordo com suas “reais” origens).

O mundo é povoado por criaturas originárias de várias mitologias. Destaca-se a mitologia greco-romana com o par romântico de Wolff, Chriseis (escrava de Agamemnon, na mitologia grega), o centauro Ipsekas (um herói troiano) e o líder do mundo de Atlantis (no livro é um dos 5 mundos que formam a torre construída pelo Senhor), Rhadamanthys. O mundo de Farmer é explicado como uma espécie de torre de Babel onde cada andar da torre é um mundo extraído da Terra pelo Senhor deste mundo. Ele pegou partes da Terra em diferentes temporalidades, raptou pessoas, fez experiências biológicas em que alterou a sua composição física e povoou cada um dos mundos existentes na Torre de Babel. Vamos ver seres metade-homens, metade-animais que vivem em um mundo grego idílico; uma série de terras habitadas por traficantes de escravos vindos do Oriente Médio; uma longa pradaria formada por comunidades indígenas norte-americanas; uma floresta temperada habitada por cavaleiros teutônicos ameaçados por terríveis dragões; e um mundo tecnológico retirado da antiga Atlântida da qual temos pouco contato. Na história é dito que o senhor dessa torre de Babel é um colecionador de populações inteiras é um homem poderoso, mas se sente solitário e precisa de pessoas a quem governar.

Vale destacar que o primeiro mundo associado à mitologia greco-romana representa uma utopia onde homens, mulheres e animais vivem livremente. Wolff chama o lugar de paraíso inicialmente. Mas depois se dá conta das incongruências deste lugar e se vê dividido entre viver livremente, cedendo aos seus instintos animais ou manter-se fiel às suas normas de ética. Neste lugar, todos andam nus e podem se relacionar com quantos parceiros quiserem atos considerados “inocentes” pelo autor.

O protagonista mantém características de pioneiro americano: gentil, heroico, com capacidades para liderar. A história, apesar de ser uma ficção fantástica, lembra um western. Chriseis, a parceira de Wolff, é submissa e amorosa. O meu destaque vai para alguns momentos onde Chriseis entra em combate. Isso, na escrita de Edgar Rice Burroughs, era quase impossível; a mulher era relegada ao seu papel como dona-de-casa e aquela que cuida dos filhos. A postura de Farmer quebra um pouco a imagem de total dependência dos pulps das décadas de 1920 e 1930. Como foi escrito em 1965, talvez tenha sofrido influência do movimento feminista. Ou seja, até na literatura pulp, antes tão machista, a mulher começa a conquistar o seu espaço. 

Enfim, “O Construtor de Universos” é uma obra rápida de ser lida e não exige grande reflexão de nossa parte. É um bom e velho pulp, uma literatura simples e descartável, mas ao mesmo tempo divertida. Tive boas horas de leitura e risadas com os feitos heroicos de Wolff. Para aqueles que gostam de algo mais reflexivo ou que passe alguma mensagem, corra desse livro. O objetivo dele é o de divertir, portanto, os personagens vão parecer simplistas e superficiais demais. Por ser o primeiro de uma trilogia, pretendo ler os próximos. 

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