É impossível mencionar H.G. Wells sem passar pela Ilha do Dr. Moreau. É, sem dúvida alguma, uma de suas obras mais conhecidas. Trata de temas extremamente atuais como o uso indiscriminado de cobaias em experiências científicas e até se é válido testar teorias científicas em seres humanos prematuramente. Antes do lançamento do livro, em 1896, a vivisecção de animais era muito mal visto pela opinião pública. Mesmo entre os cientistas, o comentário era feito de forma muito reservado, evitando declarações polêmicas. Segundo os cientistas da época, praticar a vivisecção nos faria descer ao nível de seres primitivos.

Para entender melhor a história, precisamos nos recordar do que eu comentei anteriormente sobre o narrador não-confiável. Prendick, protagonista da história, é um narrador não-confiável. Se prestarmos atenção ao que é contado por Prendick, veremos que a história foi escrita depois dos acontecimentos ocorridos na ilha. E o narrador estava diretamente envolvido nos acontecimentos, apresentando um relato sob o seu ponto de vista que é duvidoso em diversos momentos. Ou seja, o fato de o narrador não ser confiável, implica em uma desconfiança de nossa parte. Devemos desconfiar do que é relatado.

O livro começa com uma introdução feita pelo sobrinho de Prendick, Charles Edward, que nos fala do histórico do manuscrito. Este foi repassado a ele como uma herança de família junto com outros objetos que pertenciam a Prendick. Charles fornece uma análise científica sobre os acontecimentos de forma a construir fundamentos sólidos para que nós, leitores, acreditemos que a história possa ter um fundo de verdade.

Quando Moreau é morto, Prendick ameaça o povo-besta presente na história, alegando que Moreau teria ascendido e estava presente em todos os lugares. Ele estaria observando as suas criações de um outro plano e faria a Casa da Dor (lugar onde Moreau criava suas horrendas bestas; durante a história, a Casa da Dor é destruída por uma revolta do povo-besta) ressurgir caso eles não fossem obedientes. Quando Prendick faz essa afirmação, ele claramente não está interessado no bem-estar dos membros do povo-besta. Para reforçar sua fala, Prendick usa o expediente da fé, apelando para algo que o povo-besta não conseguiria visualizar.

Sabemos então que Prendick mentiu para o povo-besta e para os leitores, ao não revelar tudo o que sabe.

Quando Prendick estava na jangada antes de chegar na ilha, tudo leva a crer que ele tenha matado os seus outros companheiros. Ou melhor, tenha os canibalizado para poder sobreviver mais alguns dias. Mas, isso não é bem clarificado pelo narrador; é um acontecimento que ficamos apenas a ponderar se realmente aconteceu. O relato de seus companheiros terem caído ao mar não é muito convincente.

Wells faz uma crítica social clara em seu livro: o seu narrador sobrevive passando por cima dos outros. Ele não contribui com a sociedade através de seu trabalho, mas capitalizando a vida alheia.

A história se parece com um conto de fadas com animais falantes. Mas a verdade é que se trata de uma história que nos faz refletir sobre tudo o que sabemos, tudo o que aprendemos. Será que devemos questionar a nossa realidade ou devemos cooperar para o desenvolvimento da mesma?

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