Em primeiro lugar, queria me desculpar pelo atraso nas postagens. Vida atribulada, como sempre. Mas, como havia dito na semana passada, por enquanto não tenho previsões de ter uma quantidade de postagens muito regular.

Hoje queria me dedicar à literatura nacional. Contrariamente ao que muitos acreditam, os livros de fantasia e de ficção brasileira escritos por autores brasileiros existem. Infelizmente, eles acabam ficando fora do circuito mainstream por vários motivos. Neste momento, estou lendo uma coletânea de histórias que faz parte de uma trilogia publicada pela editora Draco: Solarpunk.* A proposta de Solarpunk é escrever histórias que tenham a temática do meio ambiente como base. Bem ao estilo de Dia dos Trífides de John Wyndham. Pouco a pouco, eu postarei uma análise sobre as histórias contidas em Solarpunk, algumas vezes falando de cada uma de forma isolada, ou em grupos de 2 ou mais histórias.

A primeira história que integra a coletânea é do excelente autor brasileiro Carlos Orsi. Figura carimbada no meio da ficção científica e da fantasia, publicou em várias revistas do gênero como a Dragão Brasil, a Quark e a Ficções. Atua muito como divulgador do gênero, e é jornalista de artigos de ciência nas revistas Discovery, Newton e na Geek. Alguns trabalhos chegaram até a ser publicados no jornal Estado de São Paulo. Seus contos mais conhecidos são Guerra Justa e As Dez Torres de Sangue.

Soylent Green is People é uma paródia ao filme deste nome. O pano de fundo é um mundo tomado de invenções que buscaram substituir alguns poluentes: biodiesel para os carros, comidas naturais, canos feitos de produtos verdes substituindo o cobre. A história carrega um estilo noir interessante: o personagem é um detetive particular que investiga o desaparecimento de uma senhora após a morte de seu filho.

Orsi toca ainda em um outro assunto não tão ligado à estética solarpunk, mas tão interessante quanto: a cirurgia plástica. A maior parte das pessoas no seu universo ficcional conseguem alterar as feições, regenerar órgãos perdidos e mexer no DNA de maneiras incríveis. O protagonista cita o exemplo de uma antiga paquera que tinha apenas um olho como um ciclope, mas que era tão sexy que nem importava. Muitos também usam alimentos geneticamente alterados, capazes de aumentar o tempo de vida das pessoas.

Na história, o detetive precisa lidar com uma espécie de seita que recusa se deixar “envenenar” pelo uso desse tipo de produtos. Defendem a pureza do corpo acima de tudo. Achei que seria mais interessante tratá-los como um contra-ponto filosófico ao universo onde a ação acontece, mas Orsi preferiu mostrá-los como fanáticos enlouquecidos capazes de todo o tipo de artimanhas. Também são retratados como loucos atrapalhados, o que dar um ar meio Scooby-Doo à trama. Não gostei dessa opção do autor, mas foi uma opção e eu não preciso concordar com ela. Trata-se de um ponto negativo e um caminho seguido.

A discussão estética foi interessante, principalmente devido ao twist final que nos leva a conhecer o assassino do filho da senhora. Quando eu comprei Solarpunk, achei que não encontraria histórias realmente aterrorizantes, mas Carlos Orsi me deu uma rasteira e me fez perceber como é possível criar histórias realmente assustadoras neste tema. Como conto de abertura, palmas lentas. Só espero boas histórias a seguir.

Quanto à história em si, daria uma nota 7. Não me empolgou muito e parei a história em diversos momentos meramente porque não tinha paciência e não fui instigado a continuar. A estética noir em um mundo verde foi um ponto interessante que favoreceu o autor. Está tudo ali: um detetive que narra em  primeira pessoa, uma mulher sexy e sensual, perseguição a cada esquina (mesmo que boba às vezes) e um final diferente. Vale a leitura.

Continuo na próxima.

*Os outros dois livros são Vaporpunk e Dieselpunk.

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