Retomando a discussão do último post, queria analisar as declarações de Peter Watts.

Em primeiro lugar, é preciso estabelecer que ele passou um pouco do ponto. Watts tem esse hábito de dar declarações polêmicas e já se meteu em uma ou duas situações semelhantes anteriormente. O que significa a ficção científica dura ou a leve? A leve (soft sci-fi) é normalmente associada àquelas obras de ficção em que o autor se preocupa um pouco mais com a crítica social do que propriamente com a exploração de altos temas. Ray Bradbury e Philip K. Dick geralmente são associados a esse gênero. O soft sci-fi por vezes passa até como uma ficção comum. Os livros de Margaret Atwood, por exemplo, são enquadrados nesse gênero. O pano de fundo futurista serve muito mais para especular ou exagerar um determinado ponto do enredo. Digamos que seja a liberdade autoral para sair da realidade presente.

O hard sci-fi costuma explorar temas realmente futuristas. Extrapola em vários séculos chegando a criar histórias que parecem muito mais ligadas à fantasia. Podemos enquadrar aqui temas como a ressurreição, a substituição do tecido humano por máquinas, a clonagem, os impérios espaciais, a singularidade. Como o próprio Watts disse, a preocupação maior neste tipo de histórias é realmente com o pano de fundo. Apesar de termos exceções como Peter Hamilton, o normal é a construção de um mundo futurista em que as tecnologias funcionam quase que como num passe de mágica. Por exemplo, em Child Garden de Geoff Ryman, as pessoas são capazes de se alimentar pela fotossíntese, tendo, portanto, pele roxa. Isso é uma extrapolação da realidade que é cientificamente explicada pelo autor.

E aí chegamos ao segundo ponto: o que constitui uma obra de ficção científica? Vamos abordar largamente este tema nas postagens futuras, mas eu já queria começar o debate aqui. Isso porque eu discordo de Atwood quando ela diz que suas obras não são ficção científica. Muito pelo contrário, em História da Aia, temos um mundo distópico onde as mulheres comuns são classificadas de acordo com sua função na sociedade. Seus nomes refletem o que elas fazem dentro de um mundo distorcido: as Ritas são cozinheiras, as Marthas são empregadas domésticas incapazes de se reproduzir. Atwood cria nesta história uma teocracia cristã onde tudo é explicado a partir de exageros feitos da doutrina cristã.

Mas, então ficção científica não depende de tecnologia? Teletransporte? Matrix? Não necessariamente. Bradbury em As Crônicas Marcianas usa muito pouca descrição tecnológica e cria um ambiente marciano que lhe permite colocar diversas críticas sociais como desigualdade social, questões de gênero, o instinto violento do homem. Tem um capítulo até que ele faz uma menção ao preconceito racial em Marte. Isso sem a necessidade de se ater a detalhes como explicar que marcianos portam lasers ou possuem grandes naves espaciais. É característica do autor criar histórias mais pé no chão; o ambiente futurista podia ser facilmente substituído por outro ambiente.

Watts também faz uma crítica às histórias com muito pano de fundo e pouco desenvolvimento de personagem. Ora, a crítica serve para ele mesmo também, não é? Isso porque Blindsight é um espetáculo de horrores no que diz respeito a personagens. Já disse isso uma vez aqui e volto a repetir: histórias nas quais não nos importamos com o que acontece com os personagens são pessimamente formuladas. Se eu quiser descrição de mundo, leio um guia turístico e não um romance. Watts, em Blindsight, criou personagens quadrados, com pouco aprofundamento e pouco espaço para contar a história e a psiquê dos personagens que estão ao redor do protagonista. Em uma história em que o ambiente é uma nave espacial fechada na qual temos um plot que se desdobra por mais de 300 páginas, logicamente que estamos tratando de uma história que vai se preocupar em construir os personagens. E não é isso o que eu li.

Concordo com Watts que Ursula Le Guin escreve algo que se parece com Arte. Mas, a Mão Esquerda da Escuridão (discutiremos dentro dos temas do curso de fantasia e ficção científica) também é uma história que peca em vários pontos. Para um livro considerado clássico, tem partes que são sonolentas. Mas a autora sabe criar um pano de fundo fenomenal. Não apenas isso, os dois protagonistas são intrigantes. A interação entre ambos é algo que se vê em poucas obras do gênero. Existe química nas suas falas e, assim como em Breaking Bad, a descrição dos gestos e trejeitos é importante. Nós conseguimos nos transportar para a história.

Le Guin escreve hard sci-fi. Os mundos que ela cria quase se parecem mundos de fantasia medieval. A Mão Esquerda da Escuridão poderia ser facilmente encaixada em um gênero fantástico. Mas, a autora faz uma crítica ao capitalismo e ao socialismo em sua história ao apresentar dois sistemas de governo opostos e em guerra. Ela escreveu essa história durante os áureos tempos da Guerra Fria, quando a tensão entre EUA e URSS era cada vez maior. Mesmo assim, os trenós especiais, as armas de concussão, as próprias pessoas que são ambissexuais e até a criatividade da autora ao criar um calendário próprio para a história constituem esse dito hard sci-fi.

Não creio que Margaret Atwood tenha esse instinto marketeiro que Watts deixa transparecer. As obras dela estiveram sempre nos tops de venda e muitas de suas obras como A História da Aia e Oryx and Crake são considerados até hoje como clássicos do gênero. O apuro estilístico e a criatividade literária são características marcantes da autora. Admito que não li Oryx and  Crake, mas A História da Aia é uma história fascinante que prende o leitor do início ao fim. Aliás, o desenrolar da história nos deixa tensos, querendo saber como a protagonista irá se safar de uma situação difícil. Boas histórias são escritas dessa forma, sejam elas ficções científicas, romances, comédias, sátiras. Não há nenhum espírito de vendas nisso.

Possivelmente, o objetivo da autora tenha sido despertar um polêmica para que discutíssemos os rumos do gênero que vem ganhando cada vez mais espaço. Enfim, essa é uma discussão longa e sem fim.

Queria dizer aqui que irei postar também o artigo polêmico de Margaret Atwood também traduzido. Mas, darei alguns dias de intervalo antes de fazê-lo para podermos discutir outros assuntos. Caso contrário, torna-se cansativa e infrutífera a discussão.

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