Olá a todos. Hoje eu queria fazer um exercício diferente: uma reflexão sobre um texto polêmico que eu li nos últimos dias e me fez refletir sobre alguns pontos acerca da essência do termo ficção científica. Mas, primeiramente, eu gostaria que os leitores do blog pudessem ter contato com o conteúdo do texto. Este foi escrito por Peter Watts, o autor do livro Blindsight que eu discuti recentemente. Ele tece algumas críticas (bem pesadas) a uma autora que é frequentemente associada à ficção científica, Margaret Atwood. Farei a tradução livre do texto de Peter Watts e amanhã comento sobre o seu texto.

Observação: As opiniões presentes no texto de Peter Watts não são as minhas.

Observação 2: Para quem quiser ler o texto no original, basta digitar no Google: Margaret Atwood and the Hierarchy of Contempt

 

Margaret Atwood e a Hierarquia do Contentamento

(Peter Watts)

Comece com uma metáfora para a respeitabilidade literária: um espectro, abrangendo de um fraco infravermelho até um ultravioleta sólido. Literatura com um L maiúsculo (todo personagens, sem enredo) se encontra dominante no topo. Ficção de gênero, incluindo a ficção científica (todo enredo, sem personagens) é relegada ao porão. Certos tipos de histórias de fantasia flutuam no meio, dependendo do subgênero: os Realistas Mágicos ganham muito respeito, por exemplo. Tolkien ganha respeito (e sua miríade de imitadores, graças a Deus, não ganham). De volta ao distrito da luz vermelha, o próprio sub-espectro da ficção científica funciona como “leve” ou “dura”, e é geralmente aceito que um estilo leve ao menos deixa as portas abertas para algo que se aproxima à Arte – Lessing, Le Guin, os estilistas da New Wave de finais da década de 60 – enquanto os tipos mais duros estão muito submersos em “cromo” e “circuitos” para se preocupar com o desenvolvimento de personagens ou técnica literária.

Eu chamo isso de Hierarquia do Contentamento, e embora você possa apontar exceções a qualquer estilo, parece ser uma aproximação razoável do terreno literário* – de acordo com o regime atual pelo menos, que faz com que a novela realista seja tudo contra o que está sendo julgado.

Dado este posicionamento realista, você pode esperar resp eitabilidade para correlacionar com a plausibilidade do mundo real na própria narrativa. Você pode estar errado. Os mesmos críticos que viram os olhos para alienígenas e warp drives paracem não ter quaisquer problemas com uma mulher ascendendo aos céus enquanto segura roupas sujas em Cem Anos de Solidão, desde que Gabriel Garcia Marquez não seja publicado pela Tor ou Del Ray**. Neste sentido, a Hierarquia não é nem consistente, nem racional; desta forma não é surpreendente que aqueles que vivem nos seus limites tendam a desenvolver problemas psicológicos.

Margaret Atwood, por exemplo.

Aqui está uma mulher tão aterorizada com os fãs de ficção científica que ela alegremente redefine todo um gênero por nenhuma razão além de excluir a si mesma dele. Em seu último romance – um distopia de um futuro próximo detalhando a substituição de seres humanos comuns por uma espécie-irmã geneticamente alterada – ela disse: “Oryx and Crake não é ficção científica. Ficção científica é quando você tem substâncias químicas e foguetes.” Não foi um deslize isolado. Atwood tem também caracterizado a ficção científica como algo que envolve “monstros e espaçonaves” e “Teleporte-me para a nave, Scotty”.

Atwood alega escrever algo completamente diferente: ficção especulativa, ela assim o chama, a diferença sendo que ela é baseada em uma ciência rigorosamente pesquisada, extrapolando temas tecnológicos e sociais em direção ao futuro (ao contrário do nonsense escapista sobre coisas fictícias como substâncias químicas e foguetes, presumivelmente). A ironia, é claro, é que a explicação da própria Atwood é porque ela não escreve ficção científica não apenas coloca Oryx and Crake esparsamente no reino da ficção científica – as profundezas duras e extrapolativas do infravermelho leve.

Quando Atwood faz tais comentários – ela falou a mesma bobagem na obra A História da Aia nos anos 80 – eu tenho sentimentos estranhos. Puro espanto, por um lado – que este maldito turista podia explodir uma cidade e presumir discursar ao mundo sobre a geografia do gueto, contradizendo estupidamente gerações de geógrafos autênticos que gastaram suas vidas inteiras lá. Isto faz despertar algo violento em mim. E ainda, no meu íntimo eu não posso acreditar que Atwood poderia ser tão estúpida. Ela pode distinguir Wyndham de Gibson***, ela leu ambos. Ela certamente não é uma idiota. Ela pode nem mesmo ser uma mentirosa. Mas eu suspeito que uma verdade terrível se esconde por trás de sua mente, uma coisa escuro vinda do senso comum, quase não reprimida pela pressão de seus críticos literários e os esforços da retaguarda dos gurus do marketing. Ela pode sentir lá no fundo de seu id, agarrando-se em direção à luz; se vier a escapar para o próprio mundo da OprahLit**** iria decair, a santidade pacífica de seus habitantes seria completamente destruída.

Aqui está a verdade insuportável que Margaret Atwood se esforça para negar heroicamente: ficção científica tem se tornado mais relevante que “Literatura”.

Dificilmente poderia ser diferente. Aqui no mundo real, pessoas rodam softwares com suas próprias ondas mentais. Cães robóticos são bregas. Teleporte é fato. Tornou-se rotineiro cruzar geneticamente cabras com aranhas, peixes com tomates. A cada semana parece que damos as boas-vindas a uma praga nova e virulenta. O que tem maior impacto em tal mundo: uma história sobre as ramificações da clonagem humana, ou a memória sobre ser criado em um ambiente empobrecido na Irlanda pós-Segunda Guerra Mundial?

Atwood deve saber disso, em algum sentido. Ela sabe que não pode permanecer relevante ao ignorar os eventos que alteram o mundo. Ela sabe que muitos destes eventos estão enraizados na ciência e na tecnologia, então sua ficção deve lidar com a ciência. Ela sabe, em outras palavras, que ela tem que escrever ficção científica.

Mas ela não consegue fazer com que ela mesma admita isso, e os desvios e contorcionismos resultantes me lembram de um tema antigo que seria uma ficção científica mesmo no entendimento limitado do termo cunhado por Atwood. Estou pensando no estereótipo do computador maligno da série Star Trek nos anos 60, inutilmente tentando deturpar a afirmação ingênua do capitão Kirk de que “Tudo o que eu digo é uma mentira”. Incapaz de resolver a contradição, ele faísca. E frita. E grita “Não consigo computar”, sua voz antes aterrorizante torna-se alta e vacilante. Finalmente, em um monte de poeira rosada, ele deixa de funcionar.

Margaret Atwood merece nosso sentimento de pena. Dissonância cognitiva não pode ser um caminho fácil de ser seguido.

 

*O autor usa a expressão literary “credspace” que não possui tradução.

**Duas famosas editoras de livros de ficção científica nos EUA.

***John Wyndham e William Gibson. O primeiro foi autor de várias obras de ficção dura como o Dia dos Trífides e Crisálidas enquanto o outro foi um dos principais responsáveis pela onda da literatura cyberpunk com seu clássico Neuromancer.

****Watts faz uma menção irônica aos livros populares de Oprah Winfrey que muitos consideram como lixo literário.

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