De forma inesperada, terminei a leitura de Blindsight antes do previsto. Então farei algumas observações sobre a obra. Posteriormente voltarei a ela com algum outro insight. Ou seja, a minha postagem de hoje são as minhas impresões gerais sobre a obra.

Devo dizer que ler este livro foi penoso. Não é uma obra recomendável a qualquer um. A alguém que está querendo iniciar um gosto pela ficção científica eu recomendo passar batido. O autor usa muitos jargões científicos o que acaba por tornar a leitura truncada já que precisamos a todo o momento buscar saber o que ele está falando. Também há o uso de diversas experiências científicas ou linguísticas como a famosa Chinese Room (Sala Chinesa) da qual ele tanto fala. Existe também uma tal Game Theory na qual ele enquadra os alienígenas.

A história envolve um primeiro contato entre humanos e formas de vida alienígenas no espaço. Siri Keeton é o protagonista; ele teve um problema na infância e perdeu metade do cérebro esquerdo. Este foi reconstruído com a ajuda de máquinas, mas tornou Keeton um ser estranho. Ele é um synthesizer, alguém capaz de transmitir informações em qualquer idioma para outras pessoas, sem precisar entender estas mesmas informações. Isso torna Siri em alguém que sabe muito sem compreender nada. E isso se reflete na forma como ele se relaciona com as pessoas. O protagonista é muito anti-social não tendo qualquer ideia sobre como deve reagir com as pessoas. A todo o momento na história, aparecem flashbacks de Siri com Chelsea, mulher com quem Siri se envolveu. Esses flashbacks servem para apresentar a personalidade distorcida do protagonista.

Jukka Sarasti é outro personagem interessante. Ele é um vampiro reanimado através da tecnologia. Algumas de suas fraquezas foram mantidas enquanto outras foram suprimidas. Na história, ele age como o líder porque possui reflexos e pensamentos mais rápidos que os de um humano comum. Sua capacidade de processamento de informação o torna um grande estrategista sempre um passo à frente. Mas, sendo um vampiro, Sarasti luta contra seus instintos de predador.

Outros personagens coadjuvantes são Susan James, uma cientista que se submeteu a uma cirurgia que dividiu seu cérebro em quatro personalidades artificialmente criadas. Cada uma delas é especializada em uma área: Michelle, Cruncher e Sascha. Isaac Szpindel é um astrofísico que mantém boas relações com Siri. Michelle, uma das personalidades de Susan tem interesse romântico em Szpindel. Amanda Bates é responsável pela segurança da nave. Possui um passado trágico do qual não comenta com nenhum de seus colegas. Possui forte desconfiança acerca das intenções de Sarasti. Robert Cunningham é um médico que se encontra em êxtase porque seus serviços não são necessários momentaneamente.

Blindsight é um hard sci-fi, ou seja, um tipo de obra de ficção científica que trabalha com altos conceitos e ideias mirabolantes. Por esse motivo, algumas dessas obras costumam ter um público muito específico. Curiosamente, Blindsight recebeu nomeações para prêmios importantes como o Hugo Award, o Locus Award e o Campbell. Sua recepção foi muito ruim, apesar de ter críticas positivas. O público parece que não aceitou muito bem a obra no início, mas graças a uma divulgação pela internet, isso mudou. Aliás, Peter Watts abriu boa parte de seu acervo para download gratuito.

A história se passa toda dentro de Theseus, a nave espacial onde ficam os tripulantes. O que vemos é mais um enredo sobre as pessoas e sua reação diante do desconhecido. Porém, os personagens são muito estranhos e alienígenas. O protagonista é um personagem no qual não nos apegamos. Não sei se foi uma estratégia ou uma liberdade criativa do autor até porque tem a ver com o tema, mas a verdade é que chegava um momento em que eu não me importava com o que ia acontecer com o personagem. O gatilho que fez Siri Keeton mudar sua persona foi muito estranho e súbito. Para algo que realmente impactou o personagem, acontecer em um espaço de 3 páginas é difícil de explicar. Eu entendo que o acontecimento é marcante, mas o personagem dá uma volta de 180 graus em suas convicções e passa a agir de outra forma.

Já comentei antes sobre evolução de personagens. Me custa a acreditar em uma mudança tão brusca em tão pouco tempo. O autor não preparou o terreno para a mudança. E as consequências na psiquê do personagem não batem. Me pareceu muito mais uma mudança forçada para causar o impacto que levaria ao momento final da trama.

Enfim, Blindsight é uma leitura difícil, mas expõe ideias que valem a pena ser pensadas. Vou digerir um pouco melhor o final do livro para tentar criar algo em cima disso. Mas, ainda assim dou apenas uma nota 6 para o livro. Eu gosto de grandes ideias desde que eu não precise ler 3 ou 4 vezes a mesma passagem para compreender. Esse tipo de escrita apenas afasta quem quer ler.

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