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Em primeiro lugar, queria expressar meu agradecimento aos visitantes do blog. Apesar de ser um número bem pequeno, 59 visitantes em um dia é bastante expressivo para mim. Significa que eu escrevo algo que importa e que as pessoas gastam 5 minutos de sua vida para lerem. Fico muito agradecido a essas pessoas e, nas férias, dedicarei alguns dias para melhorar minha habilidade de programar o blog.

Em segundo lugar, a partir de amanhã farei algumas postagens sobre séries e filmes que vi recentemente. Então, uma pequena mudança na dinâmica por alguns dias, mas nada espetacular. Na semana que vem, volto com os livros ou até antes já que estou terminando Blindsight, de Peter Watts. Bem, comecemos os trabalhos:

 

Uma das maiores características dos autores do século XIX é a sensibilidade destes para com o que acontecia com a sociedade. É inegável que este período representou um marco na história ocidental: mudanças tecnológicas começam a aparecer mais rapidamente, temos a Segunda Revolução Industrial que introduz o carvão e o aço. Ela também é responsável pelo início do desenvolvimento de técnicas de produção em massa. Não bastava produzir, era preciso suprir uma grande demanda. Se o trabalho artesanal já vinha perdendo espaço desde a Primeira Revolução Industrial, a chegada dessa nova forma de produzir foi o golpe definitivo.

Outros aspectos sociais desta época dizem respeito ao inchaço da população das grandes cidades e da diminuição dos espaços no globo, a partir da construção de embarcações mais resistentes e de ferrovias que ligavam regiões distantes entre si. O primeiro aspecto é representativo dessa indústria crescente: a mão-de-obra era necessária. A oferta de emprego era grande apesar de não haverem ainda direitos trabalhistas. O trabalho nas indústrias era terrível com jornadas de trabalho de mais de 12 horas, o emprego de trabalho feminino e infantil e as péssimas condições de trabalho. Mortes acidentais ocorriam a todo momento. Os direitos trabalhistas começam a ser conquistados através dos sindicatos que organizavam greves e manifestações. Só uma observação: estes sindicatos ainda não tinham o mesmo nível de organização dos dias atuais. Portanto, tratava-se muito mais de uma consciência do trabalhador que se fazia necessário lutar por melhores condições de trabalho.

O Novo Mundo já havia sido descoberto a mais de 300 anos quando Julio Verne nasceu. As distâncias estavam se tornando cada vez menores. Mesmo assim havia muita coisa ainda para ser descoberta. Para vocês terem uma ideia, toda a exploração do continente africano era feita a partir da costa. O europeu não entrava no interior do continente com receio de ser morto por comunidades hostis. O contato e as trocas eram feitas através de feitorias, estabelecimentos de negócio instaladas nos principais portos africanos como Luanda, Cabinda, costa da Mina. A exploração do interior começa somente a partir do século XIX com a desculpa das missões religiosas e das explorações científicas. Boa parte da Oceania só será incorporado no final do século XIX.

Essas aventuras religiosas e científicas provocam no europeu um sentimento de curiosidade. Isto porque eles se deparam com civilizações exóticas e costumes radicalmente diferentes dos seus. Desde a época das Grandes Navegações que os europeus gostavam de apreciar o diferente e achar graça ou espanto. Não são incomuns os relatos de papagaios enviados à Europa ou índios desfilando nas cortes reais. Tratava-se de um espetáculo do absurdo, colocando os hábitos e costumes diferentes dos europeus como algo a ser troçado, a ser motivo de piada. E isto continuo com esta nova leva de descobertas só que em uma escala maior. Agora, tinhamos as exposições mundiais que eram realizadas com alguns anos de diferença em grandes cidades do mundo. A primeira delas foi realizada em Hyde Park, em Londres no ano de 1851. A ideia inicial era a de exibir os novos desenvolvimentos tecnológicos, mas as grandes exposições eram usadas para apresentar elementos curiosos. Por exemplo, uma família de aborígenes australianos ou a moradia dos habitantes do Congo. Abaixo está a foto do Palácio de Cristal, sede da primeira Exposição universal.

Crystal_Palace_-_interior

Mas qual a relação disso com a obra de Jules Verne? Simples, em A Volta ao Mundo em 80 Dias podemos ver como o europeu pensava outros povos. Muito da nossa noção de estereótipo sobre o outro ainda é resquício de épocas passadas. A imagem do índio americano é sempre associada ao navajo ou então aos sioux, comunidade nativa que usa cocar na cabeça, calças de linho e com arco e flecha na mão pronto a matar o americano. Outra passagem importante é quando eles estão na Índia e se deparam com um ritual onde a mulher era queimada viva. Isso porque era necessário que ela se juntasse ao marido no outro mundo. O protagonista faz de tudo para interromper o ritual, em sua concepção, algo bárbaro, e resgata a mulher. O curioso é que a viúva fala inglês e possui hábitos ingleses.

A crítica deve ser entendida de maneira até pesada. Isso porque podemos perceber uma arrogância europeia ao se entender como superior. Isso se reflete em quase tudo o que produzimos. A história universal é dividida em períodos segundo a história européia. Vejam comigo:

História Antiga –> Da invenção da escrita até a queda de Roma

História Medieval –> Da queda de Roma até a queda de Constantinopla

História Moderna –> Da queda de Constantinopla até a Revolução Francesa

História Contemporânea –> Da Revolução Francesa até os dias de hoje

Nas representações cartográficas, a Europa se situa no centro e no alto do mapa lhe dando uma posição de destaque. A filosofia é estudada com ênfase nos autores europeus: greco-romanos, medievais, iluministas e contemporâneos. Pouco se fala nas culturas orientais.

Após essa postagem que mais pareceu uma aula de História, eu sugiro que aqueles que já leram Jules Verne leiam o livro novamente. Atentem para as descrições e para as suposições que, para Verne, pareciam ser óbvias, mas que se pararmos para pensar são deduções bobas. Reparem no comportamento dos personagens com o qual Phineas Fogg tem contato: para nativos, eles se parecem muito com europeus, não acham? Será que mudamos tanto assim nossa maneira de pensar?

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