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The Star (A Estrela, em inglês) é mais um conto extremamente intrigante de H. G. Wells. Gosto muito das histórias curtas do autor que costumam ser muito provocativas e tocam em temas interessantes. Este conto possui muitas similaridades com The Country of the Blind (O País dos Cegos) que comentei na postagem anterior.

Neste conto, um planetóide colide com o planeta Júpiter e o destrói causando um efeito dominó que varre o sistema solar. A história não é sobre a destruição em si, mas em como os terráqueos reagem diante da morte iminente. Trata-se de um lembrete da fragilidade da raça humana e de como somos muito pequenos em relação ao resto do universo. Wells mostra, em uma narrativa inebriante, como o homem pode ser destruído facilmente.

Ao analisarmos mais atentamente os dois contos (The Country of the Blind e The Star) vamos perceber algumas similaridades. Porém, o que mais chama a atenção é como a lógica de ambos os contos é invertida. Isso porque enquanto Nunez descobre uma sociedade nova em um lugar isolado, The Star mostra a destruição de toda a vida no sistema solar. Outro ponto interessante levantado por um colega no curso de ficção científica é que em The Country of the Blind ficamos conhecendo o nome dos personagens. Eles são personagens reais e bem descritos. Já em The Star todos os personagens são arquétipos: o mestre matemático, o garoto da escola, as mulheres bonitas. Estes personagens aparecem como uma forma de apresentarmos diferentes pontos de vista à medida em que a destruição se aproxima da Terra. E essa progressão ocasiona uma perda de identidade cada vez maior até que os personagens se tornam apenas uma representação do coletivo. Wells sai do arquétipo, ou seja, do indivíduo, para o todo, raça humana.

No fim da história, quando á destruição é iminente, o ponto de vista passa para um astrônomo que estava em uma estação espacial em Marte que faz uma análise sobre o derretimento de algumas calotas polares na Terra. Enquanto que em The Country of the Blind, uma mulher chora pelo desaparecimento de Nunez, em The Star, a destruição da Terra é seguida por uma eulogia fúnebre na qual o personagem faz uma análise fria sobre um problema que nada tinha a ver com a chegada do planetóide.

Se em The Country of the Blind, a preocupação era em mostrar que um indivíduo precisa do todo para viver em sociedade, Wells aqui critica a visão antropocêntrica do homem. Houve muitos pensadores do século XIX que fizeram uma revisão destas ideias renascentistas apontando uma queda da humanidade. Isso porque as grandes metrópoles do século XIX eram cidades decaídas, sujas e repleta de desigualdades sociais. O pessimismo de Wells é com essa humanidade passiva que precisava mudar a sua visão sobre o mundo. O homem se sentia o centro do universo e com isso acreditava que tudo podia. Saquear, violar e destruir era permitido aos grandes povos como os ingleses e os franceses, todo-poderosos naquele contexto. O período mais fértil de Wells foi durante o boom do imperialismo em que França, Inglaterra, Alemanha e Itália dividiam a África entre si para explorá-la. Também é um período de muito medo graças a tensão existente entre as potências europeias. Após a unificação da Alemanha e da Itália, houve uma “paz armada” que configurava a chegada de uma grande guerra. Essa “paz armada” levou à Primeira Guerra Mundial.

Wells queria o surgimento de um novo homem. Para ele, é impossível falar de novas tecnologias, novas descobertas e novos desenvolvimentos sem que o homem evoluísse como ser pensante. The Star é uma mostra de como o homem é insignificante diante de uma infinidade de estrelas. E até que a raça humana pode desaparecer em um piscar de olhos.

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