invisible man

H. G. Wells foi considerado por muitos anos como o pai da ficção científica, isso quando ela ainda não tinha esse nome. Junto com Jules Verne, ambos os autores possuem uma produção literária assustadora. Embora conheçamos apenas os grandes sucessos de Wells como o Homem Invisível (foto acima), a Ilha do Dr. Moreau, a Guerra dos Mundos e a Máquina do Tempo, Wells se destaca muito também por seus contos. Nas postagens seguintes falaremos a respeito de dois contos: The Star (A Estrela) e The Country of the Blind (O País dos Cegos). Porém, hoje eu queria começar com o Homem Invisível de forma a apontarmos algumas características essenciais da obra de Wells.

Diferentemente de Verne, as histórias de H. G. Wells não foram escritas para entreter. Os enredos nos fazem pensar e o autor é um crítico social ferrenho. A invisibilidade, por exemplo, é uma antiga fantasia do homem. Ser capaz de ficar invisível e espreitar a vida das pessoas, pregar peças sem ser capturado ou até roubar um banco sem ser identificado. A invisibilidade dá uma sensação de poder, de ser superior aos demais mortais. Na história, Wells dá uma conotação científica ao fato de ser invisível. O protagonista, Griffin, é um cientista que descobriu uma fórmula para ser capaz de tornar o seu corpo invisível. Não é magia, não são forças ocultas ou quaisquer outros meios sobrenaturais ou místicos; a tecnologia (no caso uma substância química) permitiu ao homem dobrar as forças da natureza. Existe uma plausibilidade na capacidade de ser invisível: nós podemos aceitar a habilidade de Griffin porque ela é cientificamente explicada.

Podemos buscar semelhanças entre Griffin e Victor Frankenstein, da obra de Mary Shelley. Ambos são cientistas que fazem descobertas que dobram as forças naturais: Griffin descobre como ser invisível e Victor como fazer os mortos voltarem à vida. Porém, ambos os personagens se alienaram da sociedade. Em Frankenstein, a criação de Victor se torna um monstro cada vez mais ressentido com seu criador que o abandona. Em O Homem Invisível, é o próprio cientista que vê sua violência aumentando com o passar da história. Griffin chega a querer estabelecer um reino de terror e aliciar um ajudante para fazer os seus desígnios. No fim, Griffin é vencido porque tentou enfrentar toda uma cidade sozinho. O poder de muitos foi capaz de deter a maldade de um. Todas as pessoas juntas são mais poderosas do que o Homem Invisível sozinho.

A história é carregada de simbolismos. Por exemplo, quando Griffin se torna invisível, ele sente uma dor profunda e lacinante. Se alienar da sociedade, portanto, implica em uma dor profunda. A partir daí, Griffin pode fazer o que quiser. Ele poderia se isolar em um lugar, viver pacificamente sem a interferência de ninguém, mas prefere agir de alguma maneira sobre a comunidade. Tudo o que o cientista pensa é em dominar os inferiores. A invisibilidade acaba por despertar toda a maldade existente em seu coração.

Em Frankenstein, a Criatura começa como um ser dócil e gentil que vai se tornando violenta à medida em que a sociedade e o seu próprio Criador o alienam. A escalada rumo à violência é progressiva e serve para deturpar um bom coração. Griffin é um albino que está acostumado a ser alienado desde que nasceu. Ele já parte como um ser alienado e deseja ter o poder de torturar e fazer maldades com as pessoas. O protagonista nada mais é que um homem triste por ter sido incapaz de viver em sociedade. Sua violência é oriunda de um abandono. Griffin vê na ciência uma resposta à sua amargura.

A alienação é feita pelo indivíduo ou pela sociedade? Mary Shelley quer que entendamos alguns laços mantidos pela sociedade: o amor de Elizabeth, o carinho do pai de Victor. Já H. G. Wells concorda com Mary Shelley e acrescenta que a comunidade precisa aceitar e acolher o diferente. Ser tolerante com as diferenças.

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