Enfim, chegamos a mais uma etapa das discussões feitas no curso de ficção científica do prof. Eric Rabkin. Prefiro postar essas discussões de forma homeopática porque, de certa forma, eu estou revendo os temas debatidos e formando novas opiniões. Hoje começaremos a falar de dois autores: Jules Verne e H.G. Wells, dois grandes autores de ficção que, para muitos, foram inventores do gênero ficção científica.

Mas, antes, alguns pequenos avisos:

1) Estarei postando uma análise sobre o livro Sob a Redoma de Stephen King nos próximos dias. Terminei a leitura, finalmente. Comecei em janeiro, durante minhas férias, mas acabei envolvido no curso de ficção científica e abandonei o livro de King um pouco. Aliás, como comentarei depois, Stephen King não me ajudou muito na tarefa de terminar de ler seu livro. Muito bom sim, mas muito longo e cansativo.

2) Comentei brevemente a alguns dias sobre Deuses Americanos de Neil Gaiman. Também terminei de lê-lo como parte da leitura do mês no grupo em que participo no Goodreads. Eu e outros colegas estamos postando alguns ensaios e ponderações sobre o livro. Daqui a muitos dias (rsrsrsrs) postarei minha análise e algumas impressões sobre ele. Mas, vale a pena ler essa postagem da minha colega de clube Sophie em seu blog The Reef. A postagem está em inglês, mas eu pedi a ela para poder traduzir o conteúdo do seu excelente ensaio para o português. Se eu obtiver o Ok dela, traduzirei no fim de semana. Para aqueles que conseguem ler em inglês, aqui vai o link:

http://mechanteanemone.wordpress.com/2013/07/27/essay-the-american-gods-trinity/#more-2485

 

jules verne

Jules Verne é um escritor francês nascido em Nantes em 1805. Entusiasta dos grandes desenvolvimentos tecnológicos do século XIX, escreveu clássicos universais que foram traduzidos para mais de uma dezena de idiomas. Entre os seus grandes sucessos estão 20.000 Léguas Submarinas, A Volta ao Mundo em 80 Dias e Viagem ao Centro da Terra. É considerado por muitos como o pai da ficção científica.

Antes de passarmos adiante, vale duas observações. Primeiro, Mary Shelley atualmente tem esse título de criadora do gênero ficção científica graças à sua obra Frankenstein. Isso já havíamos discutido em postagens anteriores. Aliás, muitos argumentam se esse título vale sequer para Mary Shelley. Outra obra do século XVII de Horace Walpole, O Castelo de Otranto, é considerada como sendo a primeira obra de ficção científica. Segundo, o termo ficção científica só vai surgir na década de 20 do século XX. O termo correto era scientifiction (em uma tradução literal, ciência-ficção), cunhado pelo criador da revista Amazing Stories, Hugo Gernsback. O padrão de histórias de ficção científica, o que os estudiosos de literatura chamam de estilo, vai aparecer com as pulp stories, as pequenas revistas de papel jornal surgidas na época da Grande Depressão (crise de 29). A própria Amazing Stories de Hugo Gernsback vai ajudar na moldagem desse estilo literário com todas as suas peculiaridades e características marcantes.

É dito que os grandes autores de ficção científica são grandes adivinhos dos futuros desenvolvimentos tecnológicos. Estes seriam capazes de, com muita imaginação e inventividade, prever o que o homem será capaz de descobrir a seguir. Tomemos como exemplo William Gibson, escritor do famoso romance Neuromancer. Em um de suas primeiras histórias, escrita no final da década de 1970, ele previu o surgimento da internet. Criou termos como matrix, hacking, piratas de dados; foi um ativista que via nas corporações e nas grandes empresas uma ameaçã à liberdade. Gibson em uma entrevista recente pediu desculpas porque ele não foi capaz de prever o celular.

Tomemos outro exemplo mais antigo. Um autor tcheco chamado Karel Tchapek imaginou em uma de suas histórias que em um futuro distante, inventaríamos um autômato feito de metal que realizaria nossas tarefas com maior precisão e eficiência. A este autômato ele deu o nome de roboto. Ora, ora, se não é o robô. Quem tiver o interesse, o livro é um pouco estranho porque foi escrito no formato de uma peça de teatro (estilo russo) e chama-se Fábrica de Robôs. Foi publicado no Brasil pela Editora Hedra (excelente editora e sempre com uma ótima tradução).

E quanto a Jules Verne? Ah, ele imaginou que seríamos capazes de dar a volta ao mundo em 80 dias; que chegaríamos ao centro da Terra; que inventaríamos um grande submarino capaz de possuir uma enorme biblioteca a bordo. Não questiono a imaginação e a inventividade de Jules Verne. Os livros são maravilhosos, daqueles que brincamos de ler no ônibus, ou nos deleitamos em uma tarde gostosa de sábado. Ou até ler estas obras para nossos filhos para fazê-los dormir. Este é o apelo das obras de Jules Verne: o maravilhoso, o desconhecido, o fascinante.

O que eu questiono é se Verne era realmente original. Não que isso seja um demérito porque o bom escritor sabe aonde encontrar a inspiração para suas obras. Dizia uma velha frase com a qual brincávamos na faculdade: No mundo nada se cria, tudo se copia. Como bom leitor de revistas de ciências, muito dos grandes inventos de Verne já existia. Por exemplo, o Nautilus, o grande submarino pilotado pelo Capitão Nemo em 20.000 Léguas Submarinas, foi retirado dos primeiros testes com veículos submersos que eram feitos no século XIX. Logicamente que os submarinos só começaram a ser efetivamente utilizados durante a Primeira Guerra Mundial em modelos bem primários. Nada semelhantes aos grandes submarinos atômicos da metade do século XX.

A ideia da volta ao mundo sempre existiu. O grande apelo da história de Verne é se o homem seria capaz de fazê-lo em 80 dias como fora a aposta de Phineas Fogg. Este passou por mil aventuras nos mais diversos cantos do planeta para realizar uma aposta que parecia ser impossível. Porém, alguns anos antes da publicação de Volta ao Mundo em 80 dias, uma revista inglesa havia feito uma especulação sobre se isso seria possível ou não. E os escritores desta revista haviam provado que seria possível realizar tal façanha em 62 dias graças ao surgimento das grandes linhas férreas. Havia uma gigantesca na Ásia que levava até a cidade de Bombaim e de lá para Nova Delhi. A outra linha existia no meio-oeste dos EUA: era a Pacific Railroad e a Central Railroad que cruzava os EUA da Califórnia até Iowa e de lá para Nova York. Essas duas grandes linhas férreas fariam com que um homem cruzasse a Ásia em 2 semanas e os EUA em 6 ou 7 dias.

O mérito de Jules Verne foi também o de pegar aquilo que existia e extrapolar a partir da ideia inicial. Por exemplo, o Nautilus é um submarino gigantesco. Não temos conceber, mesmo hoje, um veículo submerso dessas proporções descritas por ele. O Nautilus era como uma pequena cidade. O que despertava a curiosidade do leitor era saber o que tinha dentro deste veículo maravilhoso. O mesmo pode ser dito da Viagem ao Centro da Terra: o que esperar em uma imensa área povoada por criaturas fantásticas?

Esse é Jules Verne, um amante da busca pela aventura, da curiosidade pelo desconhecido, da pesquisa do novo. Ele pode não ter sido alguém que previu o futuro, mas eu posso dizer que imaginei milhares de histórias com os personagem e situações que ele criou.

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