walter-white-large

Eu gostaria hoje de abordar uma temática muito interessante nas obras de ficção: a  evolução dos personagens, sejam eles protagonistas ou  coadjuvantes.

Nos habituamos ultimamente em nos depararmos com histórias longas, trilogias, quadrilogias, pentalogias, decalogias, etc em que acabamos nos habituando com os personagens e tornando-os quase que como membros de nossa família. Choramos com eles, nos emocionamos com suas aflições, ficamos felizes com suas conquistas, damos um urra quando eles tomam uma atitude diferente. Esses personagens acabam ganhando vida diante de nossos olhos. Quem não ficou triste com a morte de um personagem importante de Harry Potter ou se emocionou com as doces, porém melancólicas, palavras de Galadriel à Sociedade do Anel?

Cabe ao autor compreender a necessidade de que cada personagem de sua obra acaba ficando dotado de vida. E, assim como qualquer ser humano, as experiências pela qual ele se depara são formadoras de seu caráter. Um personagem covarde pode se tornar um bravo guerreiro após diversos confrontos quando sua vida ou de pessoas que ele ama estão em perigo. O personagem sai de um estado A para chegar a um ponto B onde o objetivo do autor é alcançado. Por exemplo, Harry Potter começa como um órfão que vivia com pessoas que o odiavam. Era um garoto comum que vivia em um bairro residencial de Londres. De repente se vê arrastado para uma escola de magia onde ele precisa enfrentar grifos, dragões e magos poderosos. Dentro dessa jornada, ele cresce como personagem: ganha coragem, aprende magia, se vê envolvido com os conflitos da adolescência e precisa aprender a se tornar um líder capaz de tomar decisões. E nós curtimos cada momento dessa longa jornada.

Existem exceções à regra. Apresentamos aqui a obra de Alice no País das Maravilhsas, de Lewis Carroll. A protagonista acaba por não crescer na história. Ela mantem todas as suas características ao longo de sua jornada. Ao final dela, ela não amadurece como pessoa. Podemos dizer que ela aprende as regras do universo no qual ela vive. Mas, isso não caracteriza uma evolução. Ela não se torna mais humilde, honesta, poderosa, mal-humorada, malvada; ela apenas acorda de um sonho e é vida que segue.

Por outro lado, temos o personagem de Walter White, o qual é a imagem que apresentei acima. Não pretendo ainda analisar Breaking Bad porque ainda estou na parte final da minha maratona da série; assim que eu terminar postarei alguma coisa. Mas, vale mencionar a fantástica evolução do personagem. Antes de tudo é preciso salientar que ele caminha para um anti-herói, quiçá um vilão. Ele começa como um professor de química que se descobre possuir um câncer de pulmão terminal, sem grandes explicações porque ele é um cara correto até o último fio de cabelo. Ou seja, ele não fumava, não bebia, quími co que já chegou a ganhar um prêmio Nobel de química, marido fiel, esposa grávida e filho com paralisia. De repente ele se vê tendo que pagar um tratamento caríssmo de quimioterapia. Qual a solução que ele encontra? Produzir metanfetamina junto com um de seus ex-alunos que agora é um maluco viciado e cheio de maconha na cabeça. Lentamente vamos vendo Walter ganhando novas nuances, tendo que aceitar a condição de produtor de metanfetamina, lidando com cartéis de drogas, tendo que revelar à sua esposa que o seu dinheiro vem de drogas. Walter vai se tornando incontrolável com o passar das temporadas, chegando a matar concorrentes tranquilamente para que eles não se tornassem um obstáculo. A jornada em si é extremamente interessante e é o inverso da jornada de Harry Potter, por exemplo.

Um estudioso de mitologia conhecido como Joseph Campbell escreveu um livro no qual ele define essa teoria como a jornada do herói. Em sua teoria, Campbell faz uma comparação entre vários heróis da literatura e da mitologia em que estes precisam passar por vários testes e provas para aumentar seus poderes e sua sabedoria. Além disso, precisariam passar por algum tipo de tragédia para que fossem capazes de crescer. Campbell usa o exemplo de Aquiles para comprovar sua idéia: o amante de Aquiles, Pátroclo, precisou morrer para que ele fosse capaz de crescer como herói e derrotar seus inimigos.

Enfim, a evolução dos personagens se tornou algo essencial dentro da literatura. Alguns autores não conseguem apresentar adequadamente isto. Faltam nuances, faltam detalhes. E, principalmente, não é apenas o protagonista que precisa crescer, mas os outros personagens também. Uma boa história desenvolve todos aqueles que fazem parte do enredo.

Mais tarde, finalmente farei minha primeira postagem sobre Jules Verne. Aguardo comentários que são sempre bem-vindos.

Anúncios