Eu queria retornar a um tema no qual eu já comentei anteriormente, mas queria expandi-lo um pouco. Muito se fala a respeito de obras clássicas voltadas ao público infanto-juvenil como Peter Pan, O Mágico de Oz, os contos dos irmãos Grimm e até Alice. Muitos acham os livros bobos e sem muita profundidade. Acredito que a minha postagem sobre a metodologia científica por trás de Alice no País das Maravilhas tenha assustado um pouco os incautos.

Mas não é só isso. Peter Pan pode ser analisado a partir de uma perspectiva freudiana em que o protagonista não foi capaz de desabrochar a sua sexualidade e a reprime através de brincadeiras. Ou até que o Capitão Gancho representaria uma figura paterna abusiva.

mo conto de fadas

Aí eu faço uma crítica às obras contemporâneas de fantasia, salvo raras exceções. Muitas são superficiais e não podem ser interpretadas de uma forma mais aprofundada. Talvez essa seja a riqueza dos clássicos. Mesmo hoje obras como as de Oscar Wilde, Henry James e até Heródoto nos apresentam novas nuances sobre o período em que viveram ou sobre detalhes sutis em suas histórias. Por que estudamos Dom Casmurro, A Senhora ou O Guarani mesmo hoje? Porque elas ultrapassam o nível de meras obras literárias e atingem um grau que as transforma em obras eternas.

E estas obras infanto-juvenis se enquadram nesta categoria. Eu seria até mais ousado e jogaria algumas obras de Jules Verne neste saco, porque eu tive meu primeiro contato com Jules Verne aos 5 anos. 20.000 léguas submarinas é uma obra fabulosa que foi ressuscitada nas últimas décadas na forma da Liga Extraordinária. Falarei mais sobre Jules Verne daqui a alguns dias.

Mas é preciso olharmos com mais atenção a estas obras porque elas nos revelam detalhes assombrosos. Por exemplo, vários dos contos dos irmãos Grimm são retirados de antigas lendas celtas e germânicas como Rumpelstilstkin (me perdoem se eu escrevi errado). A presença de forças da natureza capazes de alterar o curso dos acontecimentos. Os heróis devem temer a natureza caso contrário ela se volta contra eles.

Outro detalhe: se vocês lerem atenciosamente os contos de fadas verão que quase sempre são exigidos três testes ou três provas, ou a busca de três objetos, ou encontrar três pessoas, animais ou sábios ou repetir a mesma ação três vezes para ser bem-sucedido. Lembrem-se dos três porquinhos: o Lobo soprou duas casas longe, mas na terceira nada conseguiu. Por que essa obsessão com o número 3? Simples, toda a mitologia ocidental está baseada no número três: ordem tripartida (sistema feudal), a Santíssima Trindade, a democracia grega (formada por 3 classes sociais), os 3 poderes (Executivo, Legislativo, Judiciário). Se nos concentrarmos, acharemos tantos exemplos que nos assustaremos. Apesar de ser um autor meio ultrapassado, leiam a obra de George Dumézil, um antigo historiador do início do século XX cujas pesquisas puxavam um pouco para a Antropologia.

Façam um exercício: leiam sobre o Mágico de Oz. Não postarei nada por enquanto sobre L. Frank Baum. Queria ouvir o que vocês, meus queridos leitores, conseguiram encontrar de interessante. Seja em relação ao papel da mulher, categorias sociais, sistema de mundo, características dos personagens.

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