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Falamos na última vez de Edgar Allan Poe. Hoje vamos ver um pouco sobre Nathaniel Hawthorne. Queria começar analisando um de seus principais contos, A Filha de Rappaccini. Depois da breve sinopse, explico melhor o porquê da escolha.

A Filha de Rappaccini é a história de um jovem que se muda para uma casa próxima ao lar de uma linda mulher chamada Beatricce. Giovanni, nosso protagonista, logo se apaixona pela beleza e pela inocência da bela Beatricce. Esta vive em um lindo jardim onde Giovanni presencia o nascimento de uma rosa púrpura. Mas, Giovanni é avisado por Baglioni, amigo de seu pai, que este jardim é proibido. Beatricce também é uma mulher proibida, sendo ela filha de um renomado cientista chamado Rappaccini. Este cientista teve uma carreira brilhante até ser repudiado por mexer com poções que podem ser mortais para o homem. Mesmo tendo sido avisado da proibição quanto ao jardim, Giovanni decide transgredir e então se vê envolvido em uma história de amor e de inveja que mostrará a natureza do homem e do verdadeiro amor.

Na minha opinião, A Filha de Rappaccini é um dos melhores contos de Hawthorne, se não é o melhor. A Marca e O Experimento do Dr. Heidegger também são contos muito interessantes, mas A Filha de Rappaccini mexe com algumas de nossas concepções. Primeiro a questão do belo que já havia sido tratada em A Marca. O jardim proibido é magnífico, cercado de flores  maravilhosas, inclusive a rosa púrpura. Mas ao mesmo tempo em que é belo, representa um perigo mortal. O mesmo pode ser dito da própria Beatricce que aliada à sua beleza e inocência, existe um cruel segredo. Neste conto, o belo não representa necessariamente a felicidade, o bem a ser conquistado. Muito pelo contrário,  representa a perdição, a morte. Hawthorne faz uma clara referência ao poema de John Milton, Paraíso Perdido que apresenta a queda de Lúcifer.

O conto também representa um conto de fadas ao contrário. Sem dar muitos spoilers sobre a trama, Giovanni se comporta de maneira completamente inversa ao típico príncipe encantado dos contos de fada. Em seu caráter existe uma noção de auto-preservação que pouco se importa com a segurança ou não de sua amada. Aliás, o resultado final é consequência da atitude egoísta do personagem principal. Isto também é um tema de A Marca. Hawthorne demonstra um ceticismo em relação ao ideal do amor romântico, típico do movimento literário que levava este nome no século XIX. Aliás, foge completamente do princípio dos contos de fadas onde todos vivem felizes para sempre. Quem lê Hawthorne e Poe, percebe que os finais normalmente são feios e miseráveis, apresentando uma visão pessimista sobre o caráter do homem.

Mas, Hawthorne é diferente de Poe na medida em que usa seus contos para dar lições de moral. Nesse sentido, Hawthorne se aproxima mais dos contos de fada. O objetivo destes é apresentar uma situação cuja decisão tomada pelo protagonista é errada. Este precisa vivenciar e experimentar as consequências de seu erro para que possa nunca mais cometê-lo. Esta noção de lição de moral é muito recorrente em Hawthorne. Traço este que não podemos presenciar em Poe, cuja visão de mundo é ainda mais pessimista.

Na próxima postagem falaremos um pouco do Dark Romantism, movimento ao qual ambos os autores pertenceram.

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