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    Hoje começaremos a falar sobre dois autores extremamente importantes ainda do século XIX: Nathaniel Hawthorne e Edgar Allan Poe. Falaremos de ambos porque sua relação é muito próxima e até mesmo a inspiração para suas histórias.

     Edgar Allan Poe é considerado até hoje um ícone das histórias de mistério e de detetive. Agatha Christie criou o seu estilo literário em cima das produções de Poe. Dono de uma escrita refinada e de histórias que eram muito à frente de seu tempo, Poe teve uma vida turbulenta o que era frequentemente refletido em suas histórias. Até hoje a morte de Edgar Allan Poe é um mistério, como suas próprias histórias.

Vale adicionar ainda que Poe ficou famoso também por possuir dois tipos de escrita: a prosa e a poesia. Se seus contos de mistério como a Queda da Casa de Usher, O Gato Preto e O Barril de Amontillado ficaram famosos, sua história mais famosa é uma poesia, O Corvo. Poe é detentor de uma vasta produção e costumamos sempre encontrar suas histórias em coletâneas. Aqui no Brasil existem várias delas, mas dou destaque à edição da Saraiva de Bolso (Histórias Extraordinárias) que contém um grande número de histórias. Outro destaque que dou é à obra Steampunk Poe, uma edição de luxo com desenhos maravilhosos no tema steampunk. Dedicarei uma outra postagem para o gênero, mas basta eu frisar que se trata de uma ambientação futurista usando tecnologia da era vitoriana (século XIX). Poe tem tudo a ver com steampunk, já que ele pertenceu a essa era. Steampunk Poe possui poucas histórias (acho que 5 ou 6), mas a edição vale muito a pena.

Uma das maiores características das histórias de Poe é a escrita paratática, ou seja, a escrita referencial. O autor é habilidoso em dizer muito em poucas linhas. É possível traçar referências no texto, fora do texto e entre textos de Poe. Por isso, muito cuidado é pouco ao ler alguma história de Poe. Frequentemente uma linha qualquer de uma de suas histórias, não é apenas uma linha, mas um emaranhado de significados. O leitor de Poe precisa estar atento não ao que ele diz abertamente, mas o que está escondido entrelinhas. Às vezes é preciso ler mais de uma vez uma de suas histórias. Alguns colegas já me disseram que uma leitura que eles fizeram após anos sem pegar em Poe, apresentou um novo significado àquele que eles tinham imaginado antes.

Podemos fazer um exercício interessante e que se mostra revelador: associar um conto a um poema de Poe. Frequentemente apresenta resultados surpreendentes. Vou evitar dar muitos spoilers, mas queria me utilizar de dois exemplos. O primeiro é O Corvo e A Queda da Casa de Usher. A Queda da Casa de Usher faz referências sutis a O Corvo: o ambiente (a mansão), os personagens e até o elemento que vai fazer o desfecho da história (o corvo). O tema de ambas as histórias é a não aceitação da perda da pessoa amada; a vontade de prolongar a existência desta pessoa.

Uma outra associação que podemos fazer é entre Annabell Lee e O Retrato Oval. Na segunda história, o protagonista tenta fazer a leitura de uma pintura que remete diretamente a Annabell Lee: a perda da pessoa amada no dia do seu casamento. Podemos ver a dor e o desespero na fala dos personagens, mesmo no caso do segundo, um personagem que está vendo o fato de fora. Novamente são usadas várias referências entre as duas histórias. Poe se refere a Poe.

Hoje não conseguimos ler uma história por si só. Falamos o tempo todo da leitura para fora do texto. Em literatura e mesmo em história frequentemente falamos em buscar referências entre as obras do autor. Essa ferramenta é essencial para a nossa compreensão nos dias atuais. Não estou dizendo que Poe inventou a roda; mas ele certamente inventou o eixo da roda. Também não estou dizendo que ninguém jamais usou essa ferramenta antes disso. Longe disso. Mas, acredito que a intenção de Poe tenha sido a de popularizar o uso da escrita paratática entre os seus contemporâneos. E funcionou.

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