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O século XIX foi um momento em que boa parte dos nacionalismos europeus precisaram ser reforçados. Os governantes viam a necessidade de traçar as origens do povo nativo em gerações bem anteriores. Ex: Os franceses foram buscar suas origens nos povos francos e em Carlos Magno, os ingleses buscaram sua antiguidade em Guilherme, o Conquistador. E nesse momento surgem também dois novos poderes que viriam a desequilibrar a política diplomática européia: Itália e Alemanha. A Itália viria a se transformar de vários pequenos condados e ducados em uma grande nação a partir dos esforços de Garibaldi. Já a Alemanha se verá unida graças ao brilhantismo de Bismarck.

Mas, Bismarck queria traçar as origens do povo alemão para provar sua grandiosidade. Os alemães traçarão suas origens nos povos germânicos que tanto causaram problemas ao Império Romano. E será nesse contexto que a obra dos irmãos Grimm será feita. Em primeiro lugar, Jakob e Willhelm Grimm podem ser considerados etimólogos responsáveis por grandes descobertas a respeito da fala e da escrita dos povos. Traçaram a origem das línguas anglo-saxãs e latinas em uma única língua que provavelmente teria 6.000 anos de idade: uma do tipo indo-europeu. Descobriu aonde a língua latina e anglo-saxã se diferenciavam: a pronúncia do som do p, do som do k e do som do s. 

As descobertas acima serviam ao propósito do nacionalismo alemão. O objetivo dos irmãos Grimm era provar a superioridade da língua alemã diante das línguas latinas. Só um adendo: etimologia vem do latim logia que significa estudo de e ethimos que significa verdade. Logo, a etimologia servia aos Grimm para provar a língua alemã era mais verdadeira do que as outras. 

Os contos de fadas foram coletados pelos alunos dos irmãos Grimm. Isso era um fato comprovado até a descoberta de algumas anotações na biblioteca de Hitler que atestavam a transcrição desses contos a uma empregada camponesa que morava na casa atrás da moradia dos Grimm. Era dessa empregada que vários desses contos eram copiados. Claro que o trabalho dos alunos também era levado em conta: passava pelo escrutínio dos Grimm onde eles selecionavam aqueles contos mais adequados para a sua coletânea. 

Alguns valores podem ser percebidos nesse conto: a diferenciação de classes (todas as mulheres almejam ser rainhas, mas se conforma com sua situação camponesa), a aclamação de um certo corporativismo onde todos os camponeses precisam trabalhar em sua devidas funções para o bem-estar da nação e o anti-semitismo, percebido em um conto não-presente na coletânea de Lucy Crane. Neste conto, um judeu é morto mesmo após ter sido ludibriado pelo seu patrão. 

Enfim, não pensemos nós que a coletânea dos contos de fada foi algo ingênuo. Tanto as coleções dos Grimm, como a de Hans Christien Andersen e a de Charles Perrault contribuíram para esse nacionalismo pungente.

Na próxima postagem, abordarei os dois livros de Lewis Carroll: Alice no Pais das Maravilhas e No País Além do Espelho. 

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