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Nesse semestre eu comecei a fazer um curso sobre análise psicossocial de histórias de fantasia e ficção científica. É um curso patrocinado pela Universidade do Texas e ele é inteiramente feito à distância. Vale um certificado bonitinho, mas o objetivo principal do curso é aprimorar nossa capacidade de compreensão daquilo que não está inteiramente explícito no texto, ou seja, compreender suas entrelinhas. Pretendo compartilhar com os colegas leitores, algumas reflexões feitas por mim e pelos colegas de curso. 

Esta é a primeira postagem de 3 sobre a primeira obra que lemos: uma coletânea de contos de fada dos Irmãos Grimm traduzida por Lucy Crane. Para aqueles que não conhecem, Jakob e Wilhelm Grimm eram alemães, parte de uma “classe média” alemã do final do século XIX, responsáveis por coletar uma série de tradições e contos orais e transcrevê-los para o papel. O objetivo deles era resguardar a memória cultural alemã que estava em uma época de formação de sua identidade nacional após a unificação feita por Bismarck.

Alguns dos contos de fada mais famosos dos irmãos Grimm são Rapunzel, Cinderela, Branca de Neve, Chapeuzinho Vermelho, A Gansa dos ovos de ouro e João e Maria. Só um parêntesis: existem outras coletâneas como a de Hans Christian Andersen e as fábulas de La Fontaine. Portanto, se eu não mencionei algum conto famoso é porque ele é parte de outra coletânea. Por exemplo, a Pequena Sereia é um conto de Andersen.

Mas, bem hoje eu queria tratar da condição feminina dentro da obra dos Grimm. A mulher é sempre vista a partir de 3 características básicas: a donzela pura e inocente, a camponesa malandra e esperta e a bruxa feia e má. São estereótipos padrão presentes na maior parte dos contos de fadas.

A donzela pura pode ser vista por exemplo no conto de Cinderela (no original, Aschenputtel). Cinderela possui duas irmãs feias e malvadas e uma madrasta que lhe é cruel. Ela é usada e abusada por seus parentes: lava a casa, faz a comida e limpa o jardim. Sua condição é completamente submissa e subserviente. Em nenhum momento, ela diz não e vai tentar a sorte em outro lugar. A única saída que Cinderela encontra para resolver os seus problemas é chorar ou pedir ajuda a uma árvore mágica. Outras donzelas de contos de fadas sempre fazem o que os homens (pais ou maridos) mandam. Não questionam mesmo quando são  abusadas. Rapunzel jogava suas tranças para que sua mãe adotiva subisse e lhe visse diariamente. Quando um príncipe vem e lhe intima para ir ao castelo ser sua esposa, ela simplesmente diz sim e vai. Era a primeira vez que ela via o príncipe…

Essa condição submissa e subserviente era um resquício do período medieval. A Igreja queria educar as mulheres, sempre consideradas pecadoras por terem causado a queda de Adão do paraíso, para se tornarem obedientes aos descendentes de Adão. Nunca mais elas deveriam provar do fruto proibido ou poderiam levar os homens a uma queda ainda maior. As mulheres eram criadas e educadas PARA os homens ou PARA a Igreja.

Da mesma forma, o ideal da camponesa esperta, é uma forma da Igreja demonstrar como a mulher era pecadora. Ela podia enfeitiçar os homens através de seus logros e joguinhos. Sua sedução acabava sempre provocando problemas para a sociedade. Nos contos de fada o melhor exemplo é um chamado Clever Grethel (não sei como foi traduzido para o português vide que Hansel e Grethel foram traduzidos como João e Maria). Grethel era a ajudante de um comerciante. Em um dado dia, o comerciante havia comprado dois faisões porque iria receber um homem rico que poderia lhe dar bons negócios. Nesse dia, o comerciante deixou Grethel a cargo de assar os faisões e retirar um pouco do vinho da adega. Mas, Grethel era gulosa e comeu os faisões e derrubou todo o vinho da adega ao retirar um pouco. Para se safar da situação, ela abordou o homem rico antes de ele chegar na casa do comerciante dizendo que o comerciante tinha-o atraído até a casa para lhe arrancar as orelhas. O homem rico desconsiderou como uma bobagem, mas Grethel insistiu dizendo que se visse o comerciante com uma faca na mão deveria fugir. Em seguida, Grethel retorna rapidamente para casa, prepara a mesa e quando o comerciante retorna finge estar chorando. O comerciante se sente pega seus talheres e pede que Grethel coloque a comida à mesa. Grethel diz que o homem rico havia roubado os dois faisões e que saíra correndo junto com eles. O comerciante se levanta ainda com os talheres e vai atrás do homem rico. Ao chegar à casa do comerciante, o homem rico se depara com o comerciante saindo da casa de talheres na mão e se põe a correr. Com isso, Grethel escapou à punição.

Já a idéia da bruxa má fazia parte de uma filosofia medieval. Eles acreditavam que a beleza externa era associada com a beleza interna. Ou seja, uma mulher era feia porque seu coração era malvado. Em alguns casos, podiam ser associadas às bruxas, ciganas ou feiticeiras e nesse caso a Igreja colocava a idéia que elas viviam isoladas em suas casas armando artimanhas para destruir a vida das pessoas. 

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