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Hoje queria dedicar alguns momentos para refletir sobre um tema que eu certamente voltarei a falar outras vezes: a construção dos personagens. Digo isso porque daqui a alguns dias devo postar algo sobre a série Terra Nova (até lá terei terminado os tortuosos 13 episódios da série).

Contar uma boa história é importante e essencial para uma história. Ter um bom enredo, um pano de fundo satisfatório e uma história que possa ser continuada são elementos para a escrita de um roteiro. Mas, acima de tudo, é preciso ter bons personagens.

Aqui há de separarmos nossa análise em dois pontos: a narrativa escrita e a narrativa audiovisual. Nos dois pontos, a construção de um personagem bem redondo é importante para o leitor. Isso para que ele possa entender suas motivações, seus sentimentos e seus objetivos. É o que chamamos na análise narrativa de personagem redondo. Todas as nuances são bem delineadas pelo autor, seja de uma só vez através de uma descrição ou através de suas ações ao longo da história. Claro que, no segundo caso, é preciso a manutenção de uma coerência. Vou usar um exemplo: em O Mundo de Sofia de Josteen Garder, a personagem de Sofia é inconsistente: ora é uma garota curiosa e esperta, ora é uma pirralha chata e malcriada (vou fazer uma resenha sobre esse livro em breve… e não vai ser algo bom…). O personagem que é desenvolvido ao longo da trama precisa manter suas características a menos que ele evolua através de algum fato ou acontecimento ao longo da história. 

Também temos o personagem superficial, aquele que é descrito esparsamente seja porque a história é curta (um conto ou uma crônica) ou porque a história não requere. Nesse caso, mesmo a construção de um personagem superficial precisa ser satisfatória para que eu possa me importar com o destino dele na trama ou meramente o seu uso. 

E por que eu fiz essa digressão? Observem o quadro abaixo:

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Esse é um quadro que mostra todo o processo de criação de uma história pela Disney. Existem vários desses balões dedicados aos personagens. São destacados as relações entre os personagens, sua possível recepção pelos espectadores (se vão despertar uma reação positiva ou negativa) e sua importância para o background. Hoje, poucas empresas tem esse cuidado com  os personagens. O que vemos por aí são personagens desinteressantes e chatos em um ambiente fascinante.

Não basta um bom cenário; eu, como espectador, preciso me interessar por ele, me importar com o que acontece com ele na história, me emocionar por cada acontecimento marcante. Veja o caso de The Walking Dead: apesar de a série estar longe do ideal, me importo com os personagens. Odiamos a Lori porque ela é uma vadia, gostamos do Daryl e sua doce selvageria ou curtimos o jeitão xerife do Rick. Os autores passaram a segunda temporada toda em uma longa construção dos personagens que levou muita gente a criticar a série. A terceira temporada só está sendo excelente porque os personagens estão bem redondos, então ela pode se concentrar na ação.

Disse lá em cima que a narrativa audiovisual difere da textual. Isso ocorre porque existe ainda algo que interfere na construção do personagem: o uso dado pelo autor e a atuação do ator. De nada adianta um bom ator se o autor não utiliza ou não constrói satisfatoriamente o personagem. O mesmo pode ser dito de um autor que cria um personagem fantástico para um péssimo ator. Como exemplo podemos citar o filho do personagem principal na série Terra Nova. Teoricamente era para ele ser um jovem revoltado pela ausência do pai durante o tempo em que ele esteve preso ao mesmo tempo em que passa por mudanças na sua atitude típicas de um adolescente. Isso sem esquecer que ele quer resgatar a sua namorada que ficou no futuro enquanto ele seguiu para Terra Nova. Daria um bom personagem de suporte, certo? Errado… o ator é muito ruim, passa as vezes de um moleque chato e sem graça, que eu adoraria ver virar comida de T-Rex. Ou quem sabe pisoteado por um estegossauro… 

Para concluir… você descobre que um personagem é ruim quando, mesmo vendo a série semanalmente, você é incapaz de lembrar dos nomes dos personagens.

“O processo de escrever tem algo de infinito sobre ele. Mesmo que seja interrompido a cada noite, é uma singularidade.”
ELIAS CANETTI

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