Mudança

Boa tarde a todos que visitam este blog.

Queria informar a todos que estou mudando o endereço do blog. A partir deste mês iniciei um projeto conjunto com meu amigo Felipe Cotias em que estaremos colocando nossas postagens em conjunto no blog Ficções Humanas. Teremos muitas novidades interessantes e um novo visual mais clean e organizado para que todos possam desfrutar. As postagens antigas ainda estarão disponíveis através de um link no blog Ficções Humanas.

Agradeço a todos que deram a oportunidade de fazer com que eu gastasse alguns minutos da vida de vocês para ler algumas linhas sobre literatura e séries, Permitam-me continuar o meu trabalho em outro blog e que possam admirar a bela escrita do autor Felipe Cotias.

O endereço do novo blog é: http://www.ficcoeshumanas.com/

Resenha: O bicho-papão de Stephen King

Quando pequenos e nossas mães querem nos assustar para que possamos dormir cedo, a história do bicho-papão é uma das mais usadas nesse sentido. Algumas crianças acabam ficando com trauma e não são mais capazes de dormir sozinhas ou adquirem claustrofobia. O medo do bicho-papão (ou boogeyman) é um dos mais comuns na sociedade moderna. O bicho-papão é um ser perfeito para um livro de terror: nunca temos uma descrição única dele. Pode ser um monstro com garras, um velho do saco ou uma bruxa verruguenta. Imaginem se o monstro fosse real? Se pertencesse a uma outra dimensão e escolhesse suas vítimas cuidadosamente? Ou até se tivesse uma inteligência macabra que gostasse de ver uma pessoa sofrer?

Essa é a premissa desse conto de Stephen King. A história é muito boa em te apavorar do começo ao fim. King não precisa te mostrar o monstro; basta a silhueta para te aterrorizar. O autor vai apresentando um protagonista aterrorizado por ter tido sua família levada pelo bicho-papão e ele consulta um psicólogo para poder contar sua história. Leslie Billings, o protagonista, acha que seus dias estão contados e o próximo da lista do bicho-papão é ele.

Esta é mais uma história com o modelo “sente-se que contarei minha história”. O fato de ela ser de alto nível faz com que eu me esqueça desse detalhe, mas ele está presente. É um gimmick, ou seja, é uma maneira de escrever terror. O que me incomoda e eu já comentei antes é o excesso de uso dessa gimmick. Vou perdoar mais ainda nesta porque o Bicho-Papão é um dos melhores contos de Sombras da Noite.

No início, imaginei Leslie Billings como um marido violento, agressor. King é ótimo em pintar protagonistas não tão carismáticos, mas verossímeis. De nada adiantava colocar um protagonista como modelo de cidadão na situação em que ele vivia. Podemos perceber também as marcas deixadas pelo ataque do Bicho-Papão na psiquê. Os diversos momentos em que a porta do armário bate e ele olha para trás ou se assusta são fantásticos. Fez com que o seu medo fosse real; eu gosto da prosa do King quando ele se importa com os pequenos detalhes. Uma das grandes reclamações dos detratores do autor é o excesso de detalhes dados em cada história. Eu gosto da maneira como ele faz; em alguns romances ou contos, King exagera a mão e o próprio autor já se deu conta disso. Não à toa, ele considera Os Estranhos (The Tommyknockers) um de seus piores trabalhos. Em entrevista ele comentou justo isso: ele exagerou nos detalhes e acabou por escrever algo maçante do qual não sente nenhum orgulho. Aqui, em O Bicho-Papão, eu não senti isso: era necessário criar o ambiente certo para passar essa sensação de iminência, de que algo errado estava para chegar a qualquer instante.

O psicólogo age como o bom senso. É um personagem comum, não redondo, isto é, sem muita profundidade. Foi criado para servir de contra-ponto, de pessoa comum duvidando da história contada. Apresenta uma série de argumentos racionais apontando para uma possível insanidade do protagonista. Eu imaginei em determinados momentos que Leslie Billings estaria em um confessionário tentando expiar seus pecados. É a sensação que temos cada vez que Billings pára para contar seu relato.

Achei interessante que King decidiu não se aprofundar no mito do Bicho-Papão. Não deu explicação nenhuma para o seu aparecimento. Muito menos sua forma real. Me recordei dos velhos filmes de terror em que só de aparecer um gancho na porta, os personagens ficam aterrorizados. É como se King tratasse o Bicho-Papão como uma força da natureza; sobrenatural, mas ainda uma força da natureza. Não existe meios para parar os seus desígnios. Vimos que o protagonista tentou inúmeras maneiras diferentes para parar o monstro, mas nada conseguiu. A cena final me fez com que eu me perguntasse se o Bicho-Papão não seria um doppelganger, assumindo a forma das pessoas que ele “devora” ou “arrasta para o seu mundo”. Não há muita clareza nesse relato.

Enfim, não existe muito mais a falar sobre esse conto porque King não desenvolve a ambientação de forma muito explícita. Ele apenas usa dois ambientes: o consultório do psicólogo e a casa da família Billings. O que eu entendi é que esta casa me parece ser a típica casa do subúrbio norte-americano. E a família também é apresentada de forma prosaica: pai com trabalho comum apenas para sustentar a casa e mãe trabalhando com bicos para poder complementar a renda. Não tive tempo de entender muito os filhos de Billings, mas essa não era a intenção de King ao escrever o conto. Gostei da maneira como o perigo foi apresentado e realmente recomendo a leitura. Conto na medida certa para aqueles fãs de um terror no estilo antigo, com o medo suplantando o gore.

P.S.: Feliz Natal a todos!!!

Resenha: Fundação e Império de Isaac Asimov

Qual é a importância do acaso na história da humanidade? Como lidar com algo que não foi previsto através do raciocínio lógico-matemático? Nem sempre somos capazes de planejar nossa vida. Elementos aleatórios acabam frustrando uma série de situações que gostaríamos de ter realizado. Digamos que estamos empinando uma pipa; planejamos de que material ela deveria ser feita, fazemos o design aerodinâmico para que ela voe mais alto e esperamos o melhor momento quando o vento está a nosso favor para que possamos desfrutar melhor de empinar pipa. Mas, como prever que outra pipa irá cortar a linha da nossa, levando abaixo horas de planejamento? Parece um exemplo tolo, mas que podemos aplicar a vários momentos de nossa vida. É fácil prever o resultado de uma equação, mas é quase impossível prever comportamentos no homem.

Essa é a premissa desse volume. Hari Seldon, através da ciência da psico-história, procurou prever o andamento da história do Império Galático. Tudo porque ele percebeu que o império cairia em 500 anos e deixaria a humanidade em um estado de caos. Seldon buscou retirar os melhores da capital do Império e criar a Fundação que daria origem a um Segundo Império em um espaço de mil anos. Fez todo um planejamento com o curso que os homens deveriam seguir para alcançar este ideal. E, como contingência, criou a Segunda Fundação, com especialistas nas faculdades mentais para interferir com a Primeira Fundação caso ela se desviasse.

Seldon só não contava com o surgimento do Mulo. Este ser que aparece neste segundo volume, é um mutante com incríveis capacidades mentais e capaz de fazer com que as pessoas se curvassem a seu domínio. Asimov apresenta um conquistador intergalático muito semelhante a um Napoleão. Um gênio militar que consegue dominar todo o território controlado pela Fundação e os resquícios do antigo Império. Seu carisma é enorme por conta de suas faculdades mentais que fazem com que a população o aceite tacitamente. Fazendo uma nova associação à história, Asimov faz com que seu declínio ocorra quando ele sai em uma jornada absurda em busca da Terra, o lendário planeta de onde os homens teriam surgido antes de ter colonizado a galáxia. O Mulo foi detido pelo “inverno” de Trantor; na história ele foi detido pelo poder do amor não correspondido por Bayta.

Outras noções como o de nacionalismo surgem nesta história. Os príncipes mercadores acabaram se tornando seres inescrupulosos e corruptos que não seguem nenhuma bandeira. Vemos aparecer na história pequenos lugares onde as pessoas acabam se apegando a seus regionalismos. Esses regionalismos vão dar origem a um nacionalismo posterior que fará surgir a necessidade para uma bandeira. Aqui vemos aparecer os anacreonianos desejando manter suas características individuais. Será essa ausência de um nacionalismo que tornará a conquista do Mulo tão mais fácil. Nenhum homem de Terminus acreditava no poder do Mulo. Aliás, podemos comparar o Mulo não apenas a Napoleão como também a Hitler. Isso porque Terminus tinha a possibilidade militar de impedir o avanço do mutante caso desejasse. Bastasse enviar uma expedição militar e destruir suas naves. Mas, a ameaça do Mulo não foi levada a sério e ele ganhou poder e influência. Suas tropas o respeitam e o admiram por sua capacidade militar.

Novamente não devemos nos apegar muito aos personagens da trama. A história se passa rapidamente e em um longo espaço de tempo. Temos que analisar a Fundação como o protagonista e isso pode ser estranho a muitos leitores. Achei o primeiro volume mais impactante e acabamos não nos importando muito com esta característica. Como esse segundo volume é um momento de transição entre o primeiro e o terceiro volume, a história acaba se passando de uma maneira mais lenta e progressiva. Aqui a gente sente que a história se passa mais lentamente e isso torna a história mais truncada. Dos volumes que eu li até agora (estou lendo Fundação e Terra neste momento, que é o segundo volume da segunda trilogia), este é, sem dúvida, o mais fraco. A necessidade de Asimov de explicar demais aparece com mais clareza e isso pode incomodar. Eu já me acostumei com a escrita de Asimov e acabo deixando para lá, mas o autor gosta de deixar suas ideias explícitas.

Este segundo volume expande um pouco o universo criado por Asimov. Conhecemos outros mundos e percebemos a diferença entre estes mundos e suas políticas internas. A Fundação acabou se tornando uma imensa metrópole explorando suas colônias. Ela cobra impostos destes lugares, afetando as comunidades que vivem neste lugares. Estes reclamam que tem suas liberdades afetadas pelo domínio de Terminus. A Primeira Fundação entrega tecnologia a estes lugares que acabam tendo pequenos desenvolvimentos, mas isso à custa de sua liberdade. A genialidade de Asimov trabalha com esta noção entre dominadores e dominados. Apesar de que Terminus não se coloca como dominador, alegando estar apenas “civilizando” os lugares que antes viviam na barbárie deixada pelo Império Galático.

Onde será que ouvi isso antes?

Enfim, é preciso um pouco de paciência com este volume por ele ser de transição. Mas, vale muito pela genialidade absurda de Asimov de transpor elementos históricos para uma space opera.

Análise de séries: Helix (Primeira Temporada)

Todos os anos eu vejo algo que chamo carinhosamente de guilty pleasure. Algo que eu sei que é ruim, mas vejo porque me diverte. Pois é… Helix é meu guilty pleasure de 2014.

A série não é ruim. Acredito que as minhas expectativas sobre a série é que não foram atendidas. Quando vi alguns trailers, me empolguei com a trama. Achei que era uma história sobre um grupo de cientistas do Centro de Controle de Doenças que estariam tentando conter doenças por todo o globo. Acreditei até que a série seria uma antologia de histórias; ou seja, que em cada temporada, a trama se focaria na resolução de um problema específico. Até um procedural eu aturaria, já que a trama parecia ser tão diferente.

Mas, veio a realidade.

Os primeiros 4 episódios até são muito bons. Dá uma sensação de medo e de iminência. De que, se aquela doença saísse do controle, a infecção correria descontrolada. Podíamos ver na expressão dos atores aquela coisa de “temos que resolver isso o quanto antes”. As pesquisas eram muito legais; o arco da auxiliar do Alan (esqueci o nome da gordinha) foi interessante ao vermos ela aplicando o método científico para descobrir como a doença se propagava. Alan e Sarah pesquisando possíveis curas para o NARVIK enquanto Julia dialogava com o dr. Hatake. A série me fisgou nesses 4 primeiros episódios.

O que se viu depois foi uma sequência de bizarrices. Acho que Helix pode ser uma série muito boa. Não um blockbuster como Game of Thrones ou Walking Dead, mas uma série contida em si mesma, sabendo lidar com as situações de risco. O que falta em Helix é identidade. A série é sobre o que? Os cientistas pesquisando curas para doenças bizarras? Uma conspiração governamental para espalhar uma doença e limar três quartos da humanidade? Uma série sobre pessoas com poderes especiais e imortalidade lidando com a passagem do tempo e os novos imortais precisando conhecer sua nova condição? Faço essas perguntas porque foi isso o que a série me apresentou na temporada inteira. Falta coerência com as tramas. Falta identidade para a série.

O elenco não é ruim. Gostei das atuações. Mas, achei que o Major Balleseros ficava melhor como curinga; como um possível traidor que tentava sabotar os avanços da equipe. Esse arco de vilão que é uma pessoa com infância sofrida e quer se redimir é clichê demais. Minto: até poderia ser clichê, mas um clichê bem vendido. Canso de ver esse arco em outras séries, mas com um desenvolvimento melhor. Ninguém explicou muito bem porque ele era traidor. Só porque o cara nasceu nas “piores favelas do Espírito Santo, no Brasil” não significa muita coisa. Aliás, Balleseros não me parece lá muito brasileiro, mas ok. O envolvimento de Sergio com Anana deu um motivo para a existência do núcleo dos Inuits. Núcleo esse que não precisava dele para sobreviver.

Por falar no núcleo dos inuits, esse é mais um motivo para as minhas frustrações. A história de Miksa e Tulok poderia ter sido muito melhor desenvolvida. O caso das crianças roubadas poderia ter gerado vários episódios em que Anana poderia investigar documentos e interrogar possíveis pessoas envolvidas no caso até descobrir que o dr. Hatake estaria envolvido. Poderia até gerar um arco em que as crianças estariam presas (sejam como adultas ou criogenadas) e Balleseros e Anana teriam que resgatá-los. Viram? Já deu uma história interessante com pouca coisa.

Alan, Sarah e Julia formam um grupo de protagonista interessante. O triângulo amoroso foi vendido bem sem ser forçado. Só achei que o ponto fraco do trio era a atriz que interpretava Sarah. Em nenhum momento senti vontade de torcer para ela vencer o tumor. E o fato de ela ter ingerido o NARVIK ou conseguido líquido medular da Julia foi muito óbvio. Tudo indicava que isso poderia acontecer. Nunca é bom para uma série quando o espectador consegue prever o andamento da série.

Gostei muito da atuação de Hiroyuki Sanada. Ele me passou aquele receio do cientista que faz qualquer coisa pela ciência. Mesmo depois quando descobrimos que sua esposa era refém da Ilaria Corp, eu não deixei de gostar do personagem. Achei ele dúbio em vários momentos e não era capaz de compreendê-lo ao longo da série. Para mim, foi uma grata surpresa. Espero que ele continue na segunda temporada. Já Julia também teve bons arcos ao longo da temporada. Achei que alguns acontecimentos ocorreram de forma muito truncada. Novamente, sinto que os roteiristas poderiam ter deixado mais coisas no ar. Ter descoberto tudo já no oitavo episódio tirou muito da graça. O conflito entre pai e filha foi um momento chato; os roteiristas perceberam isso e mudaram o rumo rapidamente.

A ligação entre Peter e Alan não foi muito explorada. Acredito que os roteiristas tenham deixado isso para a próxima temporada. Tudo não foi muito bem explicado entre os dois por ora. O protagonista é passável. Pró-ativo e com algumas situações que ele precisa resolver. Só senti falta de um pouco mais de profundidade no personagem. Mas, isso senti na maioria dos personagens da série.

Enfim, a série tem seus pontos altos e muitos pontos baixos. Mas, em uma época em que séries de ficção não são muito comuns na telinha, Helix é uma boa opção. Mesmo que não seja genial, consegue divertir usando alguns clichês. E são apenas 13 episódios, nada que uma pequena maratona não resolva. A série retorna no início de janeiro de 2015.

Análise de Séries: Arrow (Segunda Temporada)

Hoje vamos falar um pouco da segunda temporada de Arrow. Para muitos fãs, até o momento, é a melhor temporada da série. E, passados 9 episódios da terceira temporada eu só posso concordar. Isso a menos que a série nos surpreenda positivamente como fez na segunda.

Digo que a segunda temporada também começou devagar. Foram necessários 7 ou 8 episódios para a temporada engrenar. Muito se deve à atuação soberba de Manu Bennett que encarnou novamente Slade Wilson, um personagem que havia sido encontrado por Oliver na primeira temporada. Slade foi o mentor de Oliver e o fez sair daquele estado de menino rico e mimado e perceber a sua situação dentro da ilha de Lian Yu. Desde que o Exterminador apareceu na primeira temporada eu imaginei que, em algum momento, o personagem antagonizaria Oliver. As interações entre os personagens são muito interessantes. Quando Slade é exposto ao mirakuru, o ator consegue passar bem aquela sensação de perda e, ao mesmo tempo, de insanidade. Sim, ele queria se vingar, mas talvez não com toda a preparação que ele teve contra o protagonista.

Ao longo dos 23 episódios, Oliver luta contra a sua natureza assassina na qual foi ensinado ao longo de seus cinco anos longe de sua família. Esta é uma temporada onde o Arqueiro quer se tornar um herói. Então ele faz um voto de não matar (ou pelo menos evitar ao máximo). Quando o Exterminador aparece, Oliver perde tudo o que ele reconquistou com o seu retorno: família, fortuna e confiança. Ele vai precisar buscar força nos seus novos aliados, Dig e Felicity para enfrentar essa nova ameaça. O ator cresceu bastante nessa temporada. Vemos o crescimento do personagem que vai se tornando mais experiente e mais calejado para enfrentar seus adversários.

Os aliados de Oliver ganham bastante destaque nesta temporada. Dig e Felicity realmente se tornam essenciais à trama. Gostei do enfoque dado ao Dig em alguns episódios. Pudemos ver um pouco de seu passado como militar, ao mesmo tempo em que tivemos excelentes episódios onde ele vai atrás de Deadshot, o assassino de seu irmão. O episódio em que ele é obrigado por Amanda Waller a trabalhar com o Esquadrão Suicida é excelente. Aliás, as cenas de ação da série só melhoraram com o passar do tempo. Já Felicity não teve tanto foco assim, mas os fãs se apaixonaram pela personagem. De fato, Emily Bett Rickards tem muito carisma. Ao encarnar nossa amada hacker nerd, ela conseguiu passar muito mais proximidade com os fãs do que Katie Cassidy que tem o carisma de uma ervilha (diga-se de passagem, Katie melhorou 20% nessa temporada). Tanto Arrow como Flash sofrem da síndrome das mocinhas insossas: Laurel é tão chata quanto Iris West. A personagem ocupa espaço com o romance que não é comprado pelos fãs. Tudo isso é compensado pelo carisma crescente de Felicity. Em um mundo nolanesco, Felicity dá o tom da comédia na trama.

Eu achei que a família do Oliver foi um problema ao longo da temporada. Compreendo que a cena onde Slade leva a sua vingança contra a família de Oliver é necessária. Mas, por exemplo, Thea Queen fica perdida ao longo de toda a temporada. Willa Holland ainda é uma atriz que precisa crescer, coisa que a sua personagem consegue no início desta terceira temporada. Mesmo quando a colocam junto com Roy Harper e eles formam o casal bonitinho, a personagem continua sendo meio desnecessária em alguns momentos para a trama. A mãe de Oliver acaba ganhando importância mais para a metade final da trama. Achei interessante que ela tivesse mais alguns segredinhos na manga. E essa foi a temporada para ela tentar se redimir pelo que houve na primeira temporada.

Vou destacar aqui Roy Harper que aparece ao longo da temporada. Achei que ele poderia ter tido mais enfoque, mas compreendi que os produtores deixaram isso para mais tarde. A inserção dele no grupo de Oliver se deu de uma forma meio forçada, mas compreendo. Oliver precisava de um parceiro para futuras histórias e o começo do surgimento do Arqueiro Vermelho se fazia necessário. O plot do personagem com mirakuru foi mal desenvolvido. Me pareceu que os produtores esqueceram às vezes que o mirakuru deixava as pessoas malucas. Mas, diante de tantos acertos na temporada, esse foi um mal menor.

Caity Lotz encarnou uma Canário muito interessante. Gostei da mescla de histórias com a Liga dos Assassinos. Dessa forma, cria-se um antagonista poderoso para Oliver encarar em futuras histórias (como é o caso da terceira temporada). Infelizmente a atuação da atriz deixou a desejar. Queria me empolgar de vez em quando com ela, mas não aconteceu. Acho até que a atuação da Caity Lotz na segunda temporada foi melhor do que a de Katie Cassidy. Por isso até aceitei numa boa o romance entre os personagens, apesar de ser muita sacanagem aceitar que o cara que gosta da mocinha, pega a irmã da mocinha e todos estamos felizes e contentes. Achei curioso que os fãs de Arrow são tão ardorosos que surgiu até um movimento #MorraCanário. Bem… vocês conseguiram… só criaram uma Canário pior para substituir a que morreu.

E, por falar em Katie Cassidy, temos que falar um pouco dela. O sentimento de culpa dela com a morte de Tommy não convenceu ninguém. A atriz sofre do problema de não conseguir transmitir bem suas emoções. De vez em quando chega a parecer forçado. O plot em que ela se torna uma alcoólatra era para que os fãs pudessem ganhar um pouco de interesse por ela, mas não funcionou. Só ressaltou ainda mais as falhas da personagem. Talvez eu esteja sendo um pouco crítico demais com ela e acho até que ela melhorou um pouquinho nesta temporada. Mas, empurrar a Laurel goela abaixo como par romântico do protagonista está sendo complicado. Até entendo a necessidade de manter o mínimo de fidelidade com os quadrinhos, mas, a menos que a atriz melhore bastante, fica bem difícil. Quando a personagem de apoio é mais interessante que o par romântico, os fãs, principalmente os shippers, vão torcer o nariz para a Laurel.

Falando um pouco dos vilões, tivemos alguns bem interessantes. Summer Glau (nossa eterna Terminator) encarnou Isabel Rochev. A atriz é fantástica, continua entregando boas interpretações e é a queridinha dos geeks de plantão. Ela poderia ter sido mais explorada ao longo da temporada, principalmente na questão da disputa pela empresa. Os produtores poderiam ter sugado mais da atriz que teve bons momentos principalmente quando antagonizava Oliver. Mais tarde ela se torna o par de Slade. Achei só que a vestimenta dela não ficou boa. Entendo que é baseada nos quadrinhos, mas podiam ter dado um reboot para não ser motivo de chacota. Bronze Tiger e China White deram bons vilões genéricos para o Oliver. A entrada do Bronze Tiger para o Suicide Squad foi bacana porque o vilão representa os músculos do grupo. Não é necessário tanto desenvolvimento assim para ele. Já China White parece que ganhou uma importância maior na terceira temporada. Gostei dos combates entre Kelly Hu e Stephen Amell: muito bem coreografadas. Realmente Kelly Hu teve um excelente mentor; não esqueçam que o lendário Sammo Hung (ator e produtor de diversos filmes de Jackie Chan) atuou muitas vezes com ela.

Gostaria de ver Dylan Neal de volta na série. O Anthony Ivo que ele interpretou ficou excepcional. Não me recordo se nos quadrinhos o Dr. Ivo renasce ou é trazido de volta para algum vilão. Se não me engano ele é o Hyde nos quadrinhos. Isso me faz lembrar também de outro momento brutal que foi o surgimento de Solomon Grundy. Não sei se o vilão continua, se será com outro ator ou sequer se ele retornaria para mais episódios. Só sei que o combate com Oliver Queen foi um daqueles momentos de tirar o fôlego. As porradas que o Arqueiro toma neste episódio doeram até em mim.

Eu poderia falar de outros personagens como Tockman (o Rei Relógio) ou o Conde interpretado muito bem por Seth Gabel ou até um pouco da Caçadora que retorna para alguns episódios. Mas, sinto que minha postagem ficou um pouco longa. Deixarei para comentar mais alguns pontos em outra postagem. Por enquanto, é só.

O papel da mulher nos livros de fantasia

Recentemente a internet foi abalada por uma série de comentários realizados por Mark Lawrence, um dos maiores expoentes das obras de fantasia dark dos últimos anos. Ele fez alguns comentários acerca de críticas que ele vinha recebendo sobre não dar papéis de destaque a personagens femininos em suas obras. Vou deixar o link do blog pessoal do autor para que os interessados possam ler (o post está em inglês).

http://mark—lawrence.blogspot.com.br/2013/04/i-am-not-my-character-duh.html

Em primeiro lugar, eu acho que o autor teve um dia ruim. A gente pôde perceber um certo tom de raiva na sua fala, direcionada principalmente a críticos literários e alguns blogueiros. Até concordo com a fala dele de que ele não é um dos seus personagens. Mark Lawrence não é Jorg Ancrath, pelos céus!!! Apesar de eu sempre tocar no tema de que o autor deixa parte de si em sua obra, Jorg é um personagem negativo demais e sofrido demais para ser inspirado naquele que o escreveu. O que mais me parece é que o post do autor foi uma metralhadora giratória que não poupou leitores, críticos, blogueiros, colegas. Acho que ele deveria ter respirado um pouco antes de comentar sobre as críticas que vinha sofrendo sobre ser misógino.

Em segundo lugar, a literatura de fantasia sempre teve essa pecha de ser misógina. E, com razão. Desde os seus primórdios na literatura pulp a mulher teve sempre papel secundário. É a princesa em apuros, a jovem donzela em busca do príncipe ou a esposa fiel que espera pacientemente pelo marido. Ao longo de várias décadas isso permaneceu verdadeiro. Tolkien é uma exceção ao nos apresentar várias mulheres ativas e que sabem o que querem, desafiando até as poderosas figuras masculinas. Já discuti aqui o livro Herland onde Charlotte Perkins Gilman aborda uma utopia formada apenas por mulheres.

Mas, nos dias atuais, muita coisa mudou. Lógico que ainda existem misóginos em boa parte do mundo. Até entre os escritores de ficção podemos ver isto. Robert Heinlein foi acusado disso ao escrever Um Estranho em uma Terra Estranha. Não posso comentar porque não li o livro inteiro. Stephen Donaldson teve vários de seus livros classificados como obras para machistas. Até Robert Jordan já teve que lidar com essa alcunha ao escrever A Roda do Tempo. Nos dias atuais convivemos com uma sociedade mais aberta às diferenças.

Ao lidar com esse assunto, temos algumas problemáticas. Muitas dessas críticas feitas a Mark Lawrence vem de feministas ferrenhas que ficaram ofendidas com as ações de Jorg na trilogia dos Espinhos e na do protagonista da nova trilogia Prince of Fools. Isso porque ele apresenta personagens femininas que são verdadeiras bruxas cruéis. Uma princesa sádica, uma bruxa maligna que aterroriza os homens e mulheres grávida que são assassinadas com requintes de crueldade. As críticas aparecem no fato de que Lawrence deu um papel bizarro a essas personagens femininas quando poderia ter dado um protagonismo maior ou as posicionado como mocinhas, ajudando o personagem do livro.

Precisamos primeiro entender a questão do propósito. O que o autor tinha em mente quando escreveu a obra? Quais eram os obstáculos e desafios a serem ultrapassados? Cada personagem ocupa a obra para cumprir algum propósito ou alguma jornada. Não dá para o autor enfiar uma série de personagens para agradar uma parcela de fãs. Fica parecendo que o autor precisa preencher a cota de negros, deficientes, gays ou mulheres na obra. Ao fazê-lo, aí sim o autor está sendo preconceituoso. Os personagens precisam ser relevantes para a obra em questão e não estar por estar. Precisamos ter cuidado com nossas críticas porque podemos nós mesmos soarmos preconceituosos.

Uma outra questão é se o personagem escrito pelo autor não tem essa característica. Para antagonizarmos ainda mais um personagem em questão, podemos torná-lo machista, ou mesquinho ou sádico. Quem leu Paul Hoffman e sua Mão Esquerda de Deus sabe do que estou falando. Quantas vezes ficamos de estômago revirado ao lermos algumas das técnicas “gentis” empregadas pela ordem em que se encontrava o protagonista. Um bom autor sabe como mexer com nossas emoções ao criar personagens marcantes e impactantes. Pior do que não reagir, é ser indiferente. Canso de dizer isso e comentei essa característica na escrita de William Gibson. A marca de um bom livro é quando ele nos faz reagir de alguma maneira.

Mark Lawrence é um escritor fantástico. E uma pessoa extremamente doce e solícita. Já pude participar de um hangout com ele e ele foi extremamente atencioso com os fãs que ficavam horas para esperar uma resposta a suas perguntas postadas na página (a minha infelizmente não foi respondida, mas esperar isso diante de milhares de fãs é pedir demais). Precisamos nos descolar dessa imagem de psicólogo tabajara de que devemos direcionar os personagens a nossos gostos. Não, nós não mandamos em uma obra de ficção. Quem conduz a ação é o autor que tem um objetivo por trás de qualquer ação. Então, eu devo reclamar com um episódio de Game of Throns em que a única coisa que a Daenaerys faz é mostrar os peitos após se encontrar com alguns líderes tribais? Gente, isso faz parte de uma história. Aquilo aconteceu por um objetivo que depois iremos descobrir qual é. Ou se Jorg Ancrath mata 10 criancinhas após beber 7 garrafas de vodka, é porque o autor quis mostrar que o personagem é desequilibrado e cruel.

Se vamos criticar algo, que seja abalizado. Vamos ler e tentar discutir com outras pessoas se uma escrita é estranha demais para pertencer a uma pessoa. Vamos tentar entender o que se passa para uma pessoa responder de uma forma muito agressiva. Todos nós temos dias bons e dias ruins. Todos nós tropeçamos em uma pedrinha e xingamos. Afinal, somos humanos e falhos.

Resenha: Mona Lisa Overdrive de William Gibson

No mundo de Gibson iniciado por Neuromancer, o que é a matrix? O que ela representa? Depois do surgimento das IAs que começaram a agir independentemente, como a matrix evoluiu? E o que são os loa que habitam um universo além da matrix? Sempre estiveram lá ou são o resultado dos acontecimentos de Neuromancer? Estas são algumas das perguntas que serão (ou não) respondidas durante o livro.

Para os apaixonados pela trilogia, leiam apenas os dois primeiros parágrafos, porque eu vou reclamar horrores desse livro. Digo logo que achei o mais fraco da trilogia. Até Neuromancer é melhor do que Mona Lisa Overdrive. Eu realmente achei que após a leitura de Count Zero (o melhor da trilogia) poderia esperar algo muito bom. Quando abri o livro, minha expectativa era a melhor possível até porque li Reconhecimento de Padrões e Count Zero que fizeram mudar minha opinião sobre o autor. Mas, já dizia aquele velho ditado “Alegria de pobre dura pouco”.

O melhor ponto de Mona Lisa Overdrive é a profunda ligação que ele tem com a mitologia criada por Gibson. Neuromancer e Count Zero podem ser lidos separadamente. Não senti nenhum problema de continuidade em Count Zero. Lógico que se você quer saborear mais a história recomenda-se a leitura em ordem. Mona Lisa é quase um mish-mash dos dois primeiros. Mantém a atmosfera cyberpunk do primeiro enquanto que usa os elementos sobrenaturais do segundo. Acredito que o autor queria repetir a fórmula do segundo e trazer os elementos clássicos do primeiro. Ver o fechamento de histórias foi muito gratificante para mim. Revi alguns personagens do primeiro como Molly e o Finlandês, além de algumas menções ao que Case fez. O autor manteve uma fidelidade àquilo que ele havia escrito. Acho isso positivo para o universo da história.

Gibson conhece o Sprawl com a palma da mão. A maneira como ele sabe lidar com a ambientação revela que ele pensou em todos os detalhes de sua megalópole decadente. Aquela sensação de quando assistimos Blade Runner está presente aqui: muitas coisas orientais, o individualismo das pessoas e os constantes golpes além da distância das corporações para os homens comuns. Gibson também descreve muito bem a matrix. Ele sabe o que ela significa e como descrevê-la de forma com a qual o leitor consiga imaginá-la. Mesmo quando 3Jane começa a distorcer a matrix, sabemos de que forma a matrix era antes do que ocorre no terceiro livro.

O retorno de Molly Millions foi fantástico. Ela é a melhor personagem criada por Gibson. Percebemos nela a pró-atividade, a revolta e a violência em uma mulher marcada por aquilo que se passa em Neuromancer. Ela é a essência do Sprawl. 3Jane também é uma personagem muito interessante. Sua mente distorcida e a motivação que ela tem para perseguir Molly são totalmente válidas. 3Jane é simplesmente mesquinha; uma mente infantil com muitos poderes. Ela brinca com a humanidade da mesma maneira que uma criança brinca com uma casa de bonecas. Angela Mitchell também é uma personagem interessante. Eu realmente gostei das partes em que Gibson dá continuidade à sua história. E como a personagem mudou do segundo para o terceiro livro.

Agora vem as reclamações.

Mona Lisa Overdrive é uma obra que sérios problemas de progressão (o que em inglês a gente chama de timing). O livro demora quase 150 páginas para começar a história. Oh dear God!!! Se o livro é o fechamento de uma trilogia, não deveríamos passar tanto tempo para falar a respeito das motivações dos personagens. O que Gibson fez em 150 páginas, poderia ter feito em metade disso. E aí o livro sofre no final. Porque a metade final é muito rápida e às vezes a gente não entende o que se passa com os personagens entre os capítulos. Muitas cenas ocorrem em um ritmo acelerado demais. A Batalha da Fábrica poderia ter sido épica. Mas, foi corrida demais. Não deu para sentir iminência e perigo. Uma das melhores partes de Neuromancer foi a ida à Straylight onde eles confrontam a Tessier-Ashpool. A cidade no espaço foi um acontecimento muito interessante. Aqui, os acontecimentos na Fábrica não geram a ansiedade no leitor. Só nos deixa confusos. Os capítulos 35 a 39 são os melhores do livro, mas foram corridos demais.

O Conde continua a ser desinteressante. Some isso à própria Mona Lisa. Coloque junto Slick Henry. Acrescente Swain e você tem uma lista de personagens desinteressantes ou mal apresentados. Eu só fui entender o que era o Juiz e o Triturador de Ossos no final da história. Desculpe a expressão, mas… Po……a. Eu entendi que o personagem sofreu uma espécie de quimioprisão e a mente dele é afetada por causa do stress. Mas, custava gastar uns capítulos com o personagem para entendermos o que acontece com ele. Se Gibson gastou quase 30 páginas com Molly (que já sabíamos como ela funcionava e quais eram seus sentimentos e motivações), por que não com Slick Henry se ele fazia parte do elenco de protagonistas.

Alguns relacionamentos são muito forçados na história. Angie e o Conde tem um relacionamento especial. Mas, porque em nenhum momento Angie se lembra com carinho do Conde? Mesmo sendo muito corrido, percebemos que Cherry se importava com Slick Henry. Foram poucas linhas, mas suficientes para estarmos cientes do fato. A relação entre Molly e Kumiko é forçada ao quadrado. Ah… elas saíram juntas em meio a uma Londres estranha, entrando e saindo de diversos táxis para despistar os perseguidores, e no instante seguinte elas são melhores amigas para sempre. Como assim????? Quando??? Onde???

As melhores partes do livro são contadas muito rapidamente. Toda a situação com Samedi, Papa Legba e Mama Brigitte passa rápido demais. Eu queria ver mais daquilo. Queria saber mais sobre esta mitologia interessante que apareceu no segundo livro. A relação entre Angie e os loa faz aparecer uma série de questionamentos que Gibson não responde. Ou até ele poderia desenvolver melhor. Os loa poderiam ser IAs que estivessem buscando uma nova ordem dentro da matrix. Ou ser alguma coisa a mais, trazendo magia para este mundo cyberpunk. Seria tão mais bacana e gratificante. E, no entanto, ele apresenta no último capítulo uma ideia que eu quero acreditar que é estúpida. Espero realmente que ele tenha apenas deixado um gancho para futuras histórias e não respondido à principal pergunta deste livro com uma noção boba.

Bom, chega de ranting. O livro é bacana e, fora os problemas recorrentes na escrita de Gibson, a história chega ao fim de uma forma mais ou menos satisfatória. No mais, eu já me acostumei com a escrita do autor e consigo ser um pouco mais tolerante com as bobagens dele. Entendo a importância dele para o gênero cyberpunk, mas isto não o torna um deus imortal sem quaisquer falhas. Precisamos criticá-lo de uma forma inteligente, apresentando argumentos bons para isso. E, principalmente: ler antes de criticar.

Resenha: Segunda Variedade de Philip K. Dick

Philip K. Dick é um autor que costuma sempre escrever sobre temas ligados à nossa realidade. E, durante os momentos finais da Guerra Fria, a corrida armamentista era um assunto do momento. O homem desenvolvia cada vez mais a indústria de armamentos. EUA e a antiga URSS enviavam foguetes ao espaço. Yuri Gágarin viu a Terra do espaço; Neil Armstrong pisou na lua. Os EUA quase entram em guerra com Cuba, uma pequena ilha situada no Caribe, por causa de uma possível tentativa da URSS de estar montando bases militares próximas ao território americano. Falava-se muito no projeto Guerra nas Estrelas em que os EUA estariam montando uma rede de satélites no espaço para auxiliar o envio de mísseis transoceânicos.

Enfim, o homem se armava cada vez mais e melhor. Segunda Variedade é um conto de Philip K. Dick que expande este tema da corrida armamentista a um outro patamar. O homem desenvolvera robôs chamados garras após a URSS lançar ogivas nucleares em território americano e aniquilar boa parte dos grandes centros americanos. Aqueles que sobrevivem passam a pesquisar armas mais modernas e letais de forma a evitar mais desperdício de vidas. Os grandes líderes americanos criam uma base na lua para poder escapar da guerra entre americanos e soviéticos. Mas, o protagonista percebe alguma coisa muito estranha naqueles estranhos robôs que agora ocupam o campo de batalha. Estes robôs possuem uma inteligência sofisticada e foram criados para matar o oponente.

Neste conto, esqueçam os robôs bonzinhos e éticos das histórias de Isaac Asimov. Dick tem um ponto de vista muito diferente a respeito destas máquinas. Não só em Segunda Variedade, mas em outros contos semelhantes, os robôs possuem instinto assassino. Isso porque foram criados pelos seres humanos com este propósito. Não existem Leis da Robótica aqui; o que existe é a forma como o homem utiliza estas máquinas para exterminar outros homens de forma eficiente. E a estratégia que estas máquinas adotam a partir da metade do conto é cruel. Não quero spoilar muito do conto porque ele revela verdades aterradoras. E, apesar de todo a redoma de ficção científica por trás do conto, não duvido muito de que, no fundo, o propósito de um drone dos dias modernos seja este.

É incrível como as histórias de Philp K. Dick dificilmente envelhecem, apesar de ele tratar de um futuro não tão distante. Muito diferente de um William Gibson que, apesar de todo o sabor por trás da escrita cyberpunk, sofre com o envelhecimento literário. Suas histórias precisam da referência pop para poderem “clicar” nos leitores. Já Dick prefere uma abordagem diferente: ele trata de temas éticos e filosóficos. Aqui é o quanto a máquina herda de violência de um ser humano? Será que o homem se tivesse o poder e a letalidade daquelas máquinas do final do conto fariam diferente? Não estaríamos nós nos encaminhando para maneiras melhores de matar o próximo?

O conto se passa em uma ambientação pós-apocalíptica. Não há descrições muito precisas, porque o cenário é um campo de batalha. Me senti em um episódio de Band of Brothers ou de um filme de guerra como Resgate do Soldado Ryan. A sensação de morte e extermínio chega até o leitor. Conseguimos sentir a angústia dos personagens com a noção de que sua morte poderia acontecer no próximo segundo. A única personagem feminina funciona perdeu toda a sua sensibilidade com a guerra. Aliás, ela quase não possui traços femininos. Ela está ali para suprir as necessidades dos soldados. De forma alguma Dick escreve com um propósito machista. A personagem se enquadra justamente dentro daquele cenário de guerra.

Os personagens do livro são sobreviventes. Eles querem viver a qualquer custo. A atitude dos personagens ao longo da história ao longo do livro é totalmente compreensível. Até as máquinas se comportam da mesma maneira. Elas precisam continuar a levar a cabo sua missão programada pelos seus criadores e aperfeiçoada a cada nova geração de máquinas. Nisso, o homem criou as máquinas à sua imagem e semelhança. Só que estas máquinas provaram ser melhores do que o homem em sua missão. Eliminaram os sentimentos e levam cabo o seu trabalho de uma forma mais eficiente.

Algumas das cenas do conto são brutais. Logo no início, aparecem várias garras “desmontando” um soviético e levando os seus pedaços para algum lugar desconhecido. Ou a imagem da garotinha com um ursinho de pelúcia seguindo o major Hendricks. Ou a dos gritos do policial sem uma das pernas. O conto tem um efeito de fazer você pensar sobre a questão do desenvolvimento das armas pelo homem.

Segunda Variedade deu origem ao clássico filme Screamers: Assassinos Cibernéticos. Apesar de toda a liberdade criativa usada no filme, a história é muito interessante pela sua mensagem implícita. Dick não corta caminhos e mostra a verdade dura e crua por trás das guerras contemporâneas. No mínimo, vale a pena ler com um espírito reflexivo.

Resenha: Salem de Stephen King

Primeiramente eu preciso comentar: quem traduziu Salem como A Hora do Vampiro é um gênio (só que não).

Salem é o segundo romance publicado por Stephen King e é mais uma leitura diferente do padrão que estamos acostumados a ler em seus romances. Na verdade, Salem é uma grande homenagem de King a Bram Stoker e uma modernização do mito do Drácula. Todos os elementos típicos da obra de Bram Stoker estão presentes ali: o conde antigo e extremamente elegante, a mocinha pró-ativa (parecida com Mina Harker), o homem apaixonado que tem seu amor destruído pela maldição do vampiro.

O que eu achei diferente foi a Casa Marsten. King pegou um pouco do tema da mansão assombrada e inseriu na história. Dentro desta mansão aconteceram inúmeros assassinatos que contribuíram para formar uma aura maligna ao redor da casa. Aliás, outro conceito retirado de histórias do século XIX: o miasma. Miasma seria uma energia ruim que cercaria lugares assombrados ou onde teriam acontecido coisas trágicas formando um acúmulo de energia negativa. Essa energia negativa proporcionaria o aparecimento de outras criaturas malignas.

Algumas características do vampiro de Bram Stoker ainda estão presentes: a necessidade de um caixão forrado com terra de cemitério, a necessidade de acreditar nos símbolos de expulsão dos vampiros para que eles sejam afetados. Outros elementos são mais modernos como o fato de o vampiro não poder sair à luz do dia.

Eu senti no garoto Mark Petrie um pouco do próprio Stephen King. Um menino ativo e curioso que gosta de histórias de terror. Se espanta sim com os acontecimentos de sua cidade, mas busca resolver a situação ao invés de apenas ficar assustado. Aliás, ele vai ser o companheiro ideal de Ben Mears no final da história. No caso, King faz uma inversão do estereótipo do garotinho assustado, apresentando algo diferente. Ele já havia feito isso em Carrie quando apresentou o estereótipo do jogador de futebol americano que teoricamente seria um bully e um idiota, como uma pessoa inteligente e sensível. Aqui novamente ele apronta essa com Mark Petrie.

Já Ben Mears tem muito do Jonathan Harker. Ele sofre pela perda de sua amada e faz de tudo para eliminar o vampiro. Às vezes chega a ser irracional como na cena em que ele invade o porão e perde um companheiro por conta de sua obsessão. Diga-se de passagem, antes de existir George R. R. Martin e seu fetiche por matar personagens, havia Stephen King. Então… cuidado… não se apegue demais. O seu personagem querido pode ser morto rapidamente pela horda de vampiros que assola Salem.

A construção da cidade é muito interessante. Começa a aparecer aqui (ou ele teve mais espaço criativo para isso) a habilidade de King de construir ambientações interessantes. Podemos imaginar perfeitamente a cidade a partir das descrições feitas pelo autor. Desde a estalagem onde no térreo as pessoas ficam para beber até a loja de móveis usados administrada pelo Senhor Barlow. Tudo é descrito de forma pormenorizada. Essa característica do autor de descrever demais os elementos incomoda alguns leitores que alegam uma ausência de liberdade imaginativa para o leitor. A mim não me incomoda: muito pelo contrário, fornece mais realismo àquilo que está sendo apresentado.

Os elementos de mistério e terror estão presentes a todo o momento, mas se concentram mais na primeira metade da história. Acho que um dos grandes defeitos da história foi apresentar o vilão na metade do desenvolvimento da trama. A segunda metade da história possui uma noção mais de perigo e iminência do que de pavor. O terror estava no desconhecido; estava em não saber que tipo de inimigo estava sendo enfrentado. Quando o vilão foi revelado a história perdeu um pouco de seu impacto. O final da história me pareceu um episódio de Walking Dead só que com vampiros. Foi um final legal, mas menos interessante do que eu esperava.

Outro elemento interessante da escrita de King que aparece claramente na história é sua capacidade de escrever sobre o homem comum. Até o romance do bêbado inveterado que frequenta a estalagem com a dona é descrito. Vemos este amor que parecia ser de via única se revelar ser correspondido ao final da história. Lógico que o final do casal é trágico, mas não deixa de revelar a preocupação de King mesmo com os personagens secundários. Aliás, isso é algo que nas adaptações de histórias do King feitas para a TV não conseguimos ver (isso é assunto para outra postagem).

Não gostei também do fato de o Senhor Barslow não ser tão sedutor quanto o Drácula de Bram Stoker. O que o tornava icônico era a sua aura de sensualidade que conseguia atrair as mulheres. Lucy ficou encantada com sua beleza imortal e, por isso, tornou-se um vampiro. Stoker trabalhou com a noção de liberar os instintos mais primitivos do interior do homem. Barslow é um monstro. É diferente do atraente Drácula.

Salem é uma boa leitura. O spoiler dado na edição brasileira sobre o que era o vilão da história quebrou metade da graça. Mas, mesmo assim é uma excelente obra de terror que ao final da história ganha uma violência e uma iminência viscerais. Algumas cenas são absolutamente gore: o cara morrendo com espetos atravessando o corpo é muito legal (leiam a cena para vocês entenderem do que estou falando).

Resenha: O terceiro ouvido de Curt Siodmak

Esta é uma obra de ficção especulativa com o sabor dos anos 1960. Aqui encontramos de tudo: espionagem, segredos de Estado, conspirações. A história se passa durante a Guerra Fria e o personagem principal se vê chamado para a antiga URSS em uma pesquisa da qual ele não deseja revelar muito de suas descobertas.

O autor consegue fazer um bom mix de ciência e do oculto ao propor uma substância capaz de fornecer àquele que a ingere a habilidade da Percepção Extra-Sensorial. Essa substância seria secretada pelos grandes mestres do oculto espalhados pelo mundo. Na história, o protagonista encontra um yogi (um mestre hinduísta) capaz de entrar em um estado de meditação profunda e uma cartomante com sensibilidades especiais.

A história em si é um pouco fraca. Talvez por ela ter esse sabor de espionagem, semelhante às histórias do 007 de Ian Fleming, ela tenha envelhecido aos olhos do leitor. Eu consigo imaginar uma história do Capitão América da Era Clássica nesse ambiente. Por isso, a ambientação não gera o clima noir adequado ou sequer a sensação de perigo. O final é totalmente previsível já que o autor nunca imaginou uma mudança no status quo do seu mundo.

Na realidade, a história é criada para responder a uma pergunta: “Devemos saber o que os outros estão pensando?”. O protagonista tem uma sensação de amplitude quando usa a substância em si mesmo. Mas, pouco a pouco, o autor começa a sentir a diferença entre o que as pessoas pensam e o que elas falam. Nem sempre o que pensamos é o que queremos que os outros saibam. Aqui existe uma discussão ética sobre nossos pensamentos mais íntimos. O protagonista consegue compreender os pensamentos de seu interesse romântico, dividida entre espionar o cientista ou amá-lo. Quando ela percebe a intrusão do protagonista em seus pensamentos, ela se frustra por isso. É como se ela tivesse sido completamente despida em público. Afinal, seus pensamentos são o refúgio de seus medos, anseios e desejos mais íntimos. Quando alguém invade esse recôndito, é como se ela estivesse sendo abusada contra a sua vontade.

O próprio protagonista percebe o quão errado é invadir a mente das pessoas. O homem não está preparado para esse nível de avanço. Se não somos verdadeiros entre nós, conhecer o íntimo da mente de outras pessoas é algo aterrador.

Outra discussão muito pertinente feita ao longo da história é o mau uso da ciência. O protagonista queria pesquisar os grandes mestres do oculto por curiosidade. Seria a imagem de uma criança observando uma colônia de formigas e acrescentando obstáculos para ver como elas se comportariam. Quando a sua pesquisa passa a ser encarada como uma vantagem em uma disputa entre duas grandes potências mundiais, o protagonista se sente contrariado. O grupo de financiadores do projeto quer a todo o custo a substância para usar em atos de espionagem industrial. Neste momento, Siodmak apresenta o seu próprio contexto de vida para enriquecer a sua narrativa. Podemos perceber todo o medo e o perigo por trás de uma guerra fria, ou seja, de uma guerra entre duas nações nucleares em que nenhum disparo é feito. Mas, todos se sentem tentados a apertar o gatilho. Dá aquela coceira na mão da qual as altas patentes das forças armadas não conseguem se livrar.

Também consigo interpretar a falta de vontade do protagonista de entregar a fórmula como um egoísmo. Isso porque ele queria se sentir especial ao ser a única pessoa no mundo com a capacidade de ler a mente. Se todos possuíssem essa habilidade, a característica do “ser especial” estaria perdida. Em diversos momentos, o protagonista tem a oportunidade de oferecer a fórmula de uma maneira segura, mas sua desconfiança acaba atrapalhando os seus objetivos.

Como me referi antes, não tenho nenhuma sensação de perigo ou de iminência em nenhum momento da obra. Salvo na cena do barco nos últimos capítulos, o protagonista não chega a correr perigo. Até a atitude do protagonista me lembra o clássico James Bond interpretado por Roger Moore: um cara alheio aos problemas, um tanto blasé. Ele corre em direção ao perigo, mas não tão rápido quanto poderia. Os vilões o prendem para interrogatório, mas ele não chega a correr nenhum tipo de risco. Mesmo a presença da espiã não o coloca em perigo. Aliás, a situação com a espiã é um tanto quanto estranha. Siodmak meio que esquece a espiã na metade da história. A personagem fica um pouco de lado e ele lembra da personagem quando está encaminhando a história para o seu final.

Enfim, Siodmak parece concluir que a ignorância é uma benção já que o protagonista recusa a possuir tais habilidades ao final da trama. É uma história mediana, capaz de nos distrair em um final de semana. Não recomendo a ninguém que leve a trama a sério até porque o autor não faz por onde torná-la dessa forma. A trama gira em torno da pergunta que eu apresentei acima. Siodmak é um dos mais clássicos autores de ficção científica. Se servir como incentivo, a sua época de produção é conhecida como a Era de Ouro da ficção científica. Se sua obra tem valor, é porque se insere neste momento. Só por isso vale a pena a leitura.